
A invisibilidade da população em situação de rua em um dos maiores centros financeiros do país: por que tanta contradição?
Introdução
A população em situação de rua constitui uma das expressões mais extremas da desigualdade social no Brasil contemporâneo. Trata-se de um fenômeno urbano complexo, estrutural e persistente, que expõe as fragilidades das políticas públicas, das estratégias de desenvolvimento e do pacto social vigente. No Estado do Rio de Janeiro, essa realidade assume contornos ainda mais contraditórios, uma vez que se manifesta de forma intensa em um dos maiores centros financeiros, turísticos e simbólicos do país.
Segundo dados recentes da Agência Brasil, o Rio de Janeiro contabiliza, em 2025, 33.081 pessoas vivendo em situação de rua, enquanto o Brasil alcança o alarmante número de 358.553 indivíduos nessa condição. Esses números não apenas revelam um crescimento expressivo, como também evidenciam a incapacidade histórica de o modelo urbano-econômico brasileiro promover inclusão social de forma efetiva.
Nesse sentido, esta análise busca compreender as razões dessa contradição aparente — crescimento econômico versus exclusão extrema —, situando o fenômeno no contexto urbano fluminense e nacional. Mais do que descrever dados, o objetivo é problematizar o silêncio institucional, denunciar a invisibilidade social e contribuir para um debate público qualificado sobre direitos humanos, cidadania e justiça social.
O contexto da população em situação de rua no Rio de Janeiro e no Brasil
Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a um crescimento acelerado da população em situação de rua. Entre dezembro de 2023 e outubro de 2025, o número nacional saltou de 261.653 para 358.553 pessoas, representando um aumento aproximado de 37% em menos de dois anos, conforme dados do IPEA e da Agência Brasil. Esse crescimento não é homogêneo, concentrando-se sobretudo nas grandes metrópoles da região Sudeste, que abriga cerca de 63% do total nacional.
O Estado do Rio de Janeiro ocupa posição de destaque nesse cenário. Em 2019, estimava-se cerca de 22 mil pessoas vivendo nas ruas. Em 2025, esse número ultrapassa os 33 mil, consolidando o estado como o segundo maior em números absolutos, atrás apenas de São Paulo. Essa evolução ocorre em uma cidade marcada por intensos contrastes espaciais, sociais e econômicos, onde áreas altamente valorizadas coexistem com bolsões de pobreza extrema.
Além disso, os dados do Cadastro Único revelam um perfil social marcado pela vulnerabilidade: cerca de 85% são homens, 70% se identificam como negros, há aproximadamente 10 mil crianças e adolescentes e mais de 32 mil idosos acima de 60 anos em situação de rua no país. A taxa de mortalidade desse grupo é 348% maior do que a da população geral, segundo a Fiocruz, o que reforça a gravidade do problema.
Fatores estruturais e conjunturais do crescimento da população de rua
O aumento da população em situação de rua não pode ser compreendido como resultado de escolhas individuais isoladas. Ao contrário, trata-se de um fenômeno estrutural, enraizado em processos históricos de desigualdade social, racismo estrutural e urbanização excludente.
Do ponto de vista estrutural, destaca-se o déficit habitacional crônico, estimado em cerca de 6 milhões de moradias, aliado à especulação imobiliária e à gentrificação de áreas centrais. No Rio de Janeiro, projetos de “revitalização urbana”, como o Porto Maravilha, contribuíram para a expulsão de populações de baixa renda sem a oferta de alternativas habitacionais sustentáveis.
Do ponto de vista socioeconômico, a crise iniciada em 2014, o aumento do desemprego, a informalidade crescente e a precarização das relações de trabalho fragilizaram redes familiares e comunitárias. Posteriormente, a pandemia de COVID-19 agravou esse quadro, sobretudo com o fim dos auxílios emergenciais e a retração do comércio informal, levando milhares de pessoas à rua em curto espaço de tempo.
Além disso, fatores como migração interna, envelhecimento populacional, violência doméstica, dependência química e ausência de políticas integradas contribuem para a permanência dessas pessoas em situação de extrema vulnerabilidade. Trata-se, portanto, de um problema sistêmico, e não episódico.
A invisibilidade social como estratégia de exclusão
A invisibilidade da população em situação de rua não é acidental. Ela opera como um mecanismo simbólico e político de exclusão social. Ao serem sistematicamente ignorados pelo poder público, estigmatizados pela mídia e rejeitados por parcelas da sociedade, esses indivíduos tornam-se “corpos fora do lugar” na lógica da cidade-mercadoria.
No Rio de Janeiro, essa invisibilidade se expressa tanto na ausência de dados precisos quanto na formulação de políticas públicas insuficientes. Muitos censos desconsideram pessoas que não utilizam abrigos institucionais, seja por medo, seja pela perda de autonomia, o que resulta em subnotificação e planejamento inadequado.
Sob a perspectiva sociológica, esse processo dialoga com o conceito de deslocamento simbólico, no qual a pobreza é empurrada para espaços invisíveis da cidade, preservando a imagem de ordem, progresso e atratividade econômica. Assim, a rua deixa de ser vista como espaço de cidadania e passa a ser tratada como um problema a ser ocultado.
A contradição entre centro financeiro e exclusão extrema
O Rio de Janeiro é responsável por um dos maiores PIBs estaduais do país, superando R$ 1 trilhão em 2024, impulsionado pelos setores financeiro, energético, turístico e de serviços. No entanto, essa pujança econômica não se traduz em bem-estar social para todos.
O índice de Gini do estado, em torno de 0,55, revela uma das maiores concentrações de renda do mundo. Enquanto uma elite econômica se beneficia da valorização imobiliária e dos fluxos financeiros, uma parcela significativa da população é empurrada para a informalidade, para a precarização e, em última instância, para a rua.
Essa contradição reflete um modelo de desenvolvimento que privilegia o capital em detrimento do social. Trata-se de um crescimento que exclui, segrega e invisibiliza, sustentando a imagem de modernidade às custas da negação de direitos básicos a milhares de cidadãos.
Possíveis caminhos e soluções estruturais
Enfrentar a questão da população em situação de rua exige uma abordagem integrada, intersetorial e baseada em direitos humanos. A Política Nacional para a População em Situação de Rua, atualizada em 2023, representa um avanço, mas ainda carece de implementação efetiva.
Entre as estratégias possíveis, destacam-se:
- Expansão de políticas habitacionais com prioridade para pessoas em risco de rua;
- Adoção do modelo Housing First, que garante moradia antes de qualquer outra exigência;
- Integração entre assistência social, saúde mental, educação e políticas de emprego;
- Combate ao estigma por meio de campanhas educativas e formação cidadã;
- Monitoramento independente de violações de direitos e violência institucional.
Essas ações devem ser acompanhadas por metas claras, financiamento contínuo e participação ativa da sociedade civil.
Considerações finais
A crescente população em situação de rua no Rio de Janeiro e no Brasil evidencia as falhas profundas de um modelo urbano excludente, que naturaliza a desigualdade e silencia o sofrimento social. Tornar visível essa realidade é um ato político, ético e acadêmico.
Mais do que números, trata-se de pessoas, trajetórias interrompidas e direitos negados. Reconhecer essa população como parte legítima da cidade é o primeiro passo para a construção de um projeto urbano verdadeiramente democrático, inclusivo e humano.
Indicação bibliográfica do professor Rodrigo Pinheiro, que escreve o posfácio deste livro:
Cidades Sem Lar
Uma obra fundamental para compreender o silêncio das políticas públicas em relação à população em situação de rua no Brasil. O livro humaniza vozes invisibilizadas, defende direitos e propõe reflexões críticas sobre cidadania, dignidade e inclusão social. Trata-se de uma publicação de caráter educativo e social, cuja divulgação não possui fins comerciais, mas sim o compromisso ético de ampliar o debate público.
- Versão digital:
https://www.amazon.com.br/Cidades-sem-silêncio-políticas-publicas-ebook/dp/B0FWYVBLYX - Versão física:
www.cidadessemlar.com.br
