Excesso de liberalismo no Brasil

A protelação do Plano Nacional de Desenvolvimento e a oportunidade perdida das Rotas da Seda chinesas

Por Rodrigo Pinheiro


Introdução

Desde os anos 1990, o Brasil adotou o liberalismo econômico como eixo dominante de suas políticas públicas. Privatizações aceleradas, abertura comercial unilateral e desregulamentação tornaram-se instrumentos centrais da estratégia nacional. Entretanto, ao longo do tempo, esse modelo revelou limites estruturais. Em vez de promover desenvolvimento sustentado, ele contribuiu para a desindustrialização, a dependência externa e a fragilização da soberania econômica.

Nesse contexto, o excesso de liberalismo tem protelado a consolidação de um Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) robusto, capaz de articular infraestrutura, indústria e tecnologia. Além disso, essa orientação ideológica explica a hesitação brasileira em aderir de forma estratégica às Rotas da Seda chinesas, iniciativa que poderia ampliar investimentos produtivos e diversificar a inserção internacional do país em um cenário de guerra geoeconômica global.


O excesso de liberalismo e suas raízes históricas

A inflexão liberal no Brasil ganhou força a partir da década de 1990, sob influência direta do Consenso de Washington. A promessa era simples: reduzir o papel do Estado, atrair investimentos estrangeiros e acelerar o crescimento econômico. Contudo, na prática, esse modelo priorizou ganhos de curto prazo e favoreceu capitais especulativos.

Ao longo das décadas seguintes, privatizações estratégicas e abertura indiscriminada de mercados enfraqueceram a base produtiva nacional. Como resultado, a participação da indústria no PIB caiu de forma consistente, registrando uma redução de aproximadamente 25% entre 2010 e 2025, segundo dados oficiais. Enquanto isso, países que adotaram estratégias desenvolvimentistas mantiveram taxas de crescimento superiores e maior autonomia econômica.

Portanto, o liberalismo excessivo não apenas falhou em entregar crescimento sustentado, como também aprofundou vulnerabilidades estruturais.


A protelação do Plano Nacional de Desenvolvimento

O predomínio liberal impacta diretamente a capacidade de planejamento do Estado. Políticas orientadas pela austeridade fiscal e pelo ajuste permanente priorizam o equilíbrio de curto prazo das contas públicas. Entretanto, essa lógica adia investimentos estratégicos em infraestrutura, ciência e tecnologia.

Mesmo iniciativas como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e suas reformulações enfrentam limitações impostas por essa visão. Estudos indicam um déficit anual de investimentos em infraestrutura da ordem de R$ 100 bilhões, comprometendo logística, energia e integração territorial.

Além disso, a ausência de um PND consistente fragiliza setores estratégicos, como o agronegócio e a transição energética. Sem infraestrutura adequada, o país exporta produtos de baixo valor agregado e importa tecnologia, perpetuando a dependência externa.


A não adesão às Rotas da Seda chinesas: oportunidades perdidas

Nesse cenário, a relutância brasileira em aderir plenamente às Rotas da Seda — iniciativa liderada pela China — revela uma escolha estratégica questionável. A chamada Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI) financia projetos de infraestrutura em dezenas de países, com foco em ferrovias, portos, energia e conectividade logística.

Para o Brasil, a adesão poderia significar investimentos estimados entre US$ 50 e 100 bilhões, especialmente em corredores ferroviários e portos atlânticos. Esses projetos agregariam valor às exportações e reduziriam custos logísticos. No entanto, o país hesita, influenciado por pressões ocidentais e pelo discurso da “armadilha da dívida”.

Enquanto isso, nações emergentes como Indonésia e Etiópia utilizam a BRI para fortalecer sua base produtiva e ampliar a soberania econômica. O contraste evidencia que a questão não é a origem do capital, mas a estratégia nacional de uso desses investimentos.


Liberalismo, commodities e dependência estrutural

A hesitação brasileira também se explica pela estrutura atual de sua economia externa. Cerca de 60% das exportações concentram-se em commodities primárias, como soja e minério de ferro. Esse padrão limita ganhos tecnológicos e expõe o país à volatilidade dos preços internacionais.

Além disso, o foco liberal em abertura comercial sem proteção estratégica dificulta a formação de cadeias produtivas nacionais. Em vez de reindustrializar, o Brasil consolida sua posição periférica na divisão internacional do trabalho.

Consequentemente, a não adesão às Rotas da Seda reforça uma geoeconomia dependente, em contraste com a retórica de autonomia e protagonismo internacional.


Implicações geoeconômicas para o Brasil e o Sul Global

As escolhas brasileiras possuem implicações mais amplas. Em um mundo marcado pela fragmentação das cadeias globais e pela ascensão de blocos como os BRICS, a ausência de uma estratégia desenvolvimentista reduz a capacidade de negociação do país.

Além disso, a dependência excessiva de mercados tradicionais limita a margem de manobra na transição energética e tecnológica. Ao não diversificar parcerias e fontes de financiamento, o Brasil corre o risco de ficar à margem das novas rotas de crescimento do Sul Global.

Por outro lado, uma adesão estratégica à BRI, articulada com um PND soberano, poderia fortalecer a reindustrialização e ampliar a autonomia produtiva.


Caminhos para um desenvolvimento nacional soberano

Superar o impasse exige uma revisão do modelo econômico. Isso não implica rejeitar o mercado, mas sim equilibrar liberalismo e nacional-desenvolvimentismo. O Estado precisa reassumir o papel de planejador, articulando investimentos públicos e privados em setores estratégicos.

Nesse sentido, um PND revisado, alinhado a metas de reindustrialização, inovação e integração logística, torna-se essencial. A participação em iniciativas internacionais, como as Rotas da Seda, deve ocorrer de forma seletiva, com cláusulas de transferência tecnológica e controle do endividamento.

Assim, o desenvolvimento deixa de ser subordinado e passa a ser estratégico.


Conclusão: entre a inércia liberal e a oportunidade histórica

O excesso de liberalismo no Brasil tem custado caro. Ao priorizar ajustes de curto prazo e abertura irrestrita, o país adiou a construção de um projeto nacional de desenvolvimento. Como resultado, perdeu oportunidades estratégicas, entre elas a integração soberana às Rotas da Seda chinesas.

Em um cenário global cada vez mais competitivo e multipolar, a neutralidade econômica não existe. O Brasil precisa escolher entre manter a inércia liberal ou construir um caminho desenvolvimentista, capaz de combinar soberania, industrialização e inserção internacional ativa.

Portanto, o debate sobre liberalismo e desenvolvimento não é ideológico, mas estratégico. Ele define se o país continuará como exportador primário dependente ou se assumirá um papel protagonista no Sul Global do século XXI.

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