
O fim da neutralidade continental e a transformação da identidade política europeia
Por Rodrigo Pinheiro
Durante décadas, grande parte da Europa Ocidental construiu sua identidade política sobre uma convicção poderosa: a guerra entre grandes Estados havia deixado de ser um elemento central da vida europeia. Depois de duas guerras mundiais, integração econômica, instituições supranacionais e interdependência pareciam oferecer outro horizonte.
Entretanto, a guerra na Ucrânia abalou essa percepção.
Desde 2022, segurança territorial, fronteiras, capacidade militar e soberania voltaram ao centro do debate europeu. Além disso, países que durante décadas reduziram suas estruturas militares passaram a discutir rearmamento em escala inédita no período pós-Guerra Fria.
A Alemanha representa uma das mudanças mais simbólicas. A Polônia, por sua vez, transformou a defesa nacional em uma prioridade ainda mais intensa. Em 2026, o movimento continua: somente em 2025, a Alemanha encomendou cerca de €85 bilhões em equipamentos militares, segundo levantamento do Kiel Institute. A Polônia também mantém elevados investimentos e modernização acelerada de suas Forças Armadas.
Portanto, a transformação em curso não é apenas militar.
Ela é também psicológica, cultural, energética e identitária.
A Europa está redefinindo quem considera ameaça, o que entende por segurança e até onde pretende chegar para proteger seu espaço político.
Nesse sentido, surge uma questão fundamental: o continente está simplesmente reagindo à guerra ou construindo uma nova identidade coletiva baseada na percepção permanente de ameaça?
Da Europa da integração à Europa da segurança
Depois de 1945, as principais potências europeias buscaram substituir rivalidades militares pela integração.
Primeiramente, carvão e aço entraram no processo. Posteriormente, comércio, circulação de pessoas, moeda e instituições comuns aprofundaram a interdependência.
A lógica era relativamente simples.
Quanto mais integradas fossem as economias europeias, maior seria o custo de um novo conflito entre elas.
Além disso, a presença militar dos Estados Unidos e a estrutura da OTAN forneceram uma camada adicional de segurança.
Consequentemente, vários países europeus puderam reduzir o peso político da defesa durante o período posterior à Guerra Fria.
A queda da União Soviética fortaleceu ainda mais essa percepção.
Por algum tempo, parecia possível imaginar uma Europa na qual comércio e diplomacia substituiriam progressivamente a lógica militar.
Contudo, esse paradigma entrou em crise.
A guerra na Ucrânia rompeu uma percepção histórica
A invasão russa em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, alterou profundamente a percepção de segurança europeia.
De repente, tanques atravessavam fronteiras reconhecidas internacionalmente.
Cidades eram bombardeadas.
Milhões de pessoas deixavam suas casas.
Além disso, governos europeus passaram a discutir novamente munições, artilharia, defesa aérea, mobilização e capacidade industrial militar.
Assim, conceitos que pareciam pertencentes ao século XX retornaram ao vocabulário político cotidiano.
A mudança foi especialmente profunda porque ocorreu dentro do espaço geográfico europeu.
Portanto, a guerra não foi interpretada apenas como um conflito envolvendo Rússia e Ucrânia.
Para muitos governos e sociedades europeias, ela passou a representar uma pergunta muito maior:
até onde Moscou estaria disposta a avançar?
O medo da “invasão russa” e a construção social da ameaça
Aqui, a antropologia política oferece uma ferramenta importante.
Sociedades não respondem somente a ameaças materiais. Elas também respondem à maneira como essas ameaças são interpretadas, comunicadas e incorporadas à identidade coletiva.
Isso não significa que a ameaça militar russa seja imaginária.
A Rússia efetivamente invadiu a Ucrânia e empregou força militar para alterar fronteiras. Além disso, governos europeus vêm denunciando operações híbridas, sabotagem, espionagem e violações envolvendo seu espaço de segurança. Em setembro de 2026, por exemplo, autoridades alemãs atribuíram à Rússia uma tentativa de ataque com drone contra o aeroporto de Leipzig/Halle; Moscou negou envolvimento.
Entretanto, existe uma segunda dimensão.
A ameaça também passa a organizar discursos políticos.
Governos utilizam mapas.
Jornais discutem cenários de guerra.
Generais aparecem com maior frequência no debate público.
Populações são orientadas a pensar sobre preparação e resiliência.
Consequentemente, aquilo que antes parecia excepcional começa a integrar a normalidade política.
O “outro” russo e a reconstrução do “nós” europeu
Toda identidade coletiva depende, em alguma medida, de uma definição de pertencimento.
Quem somos?
Quais valores compartilhamos?
Quais fronteiras estamos dispostos a defender?
Além disso, quem está fora desse espaço?
Em períodos de estabilidade, essas perguntas podem permanecer relativamente abstratas.
Contudo, crises tornam as fronteiras identitárias mais visíveis.
Nesse contexto, a Rússia passou a ocupar um papel crescente como o “outro” estratégico diante do qual parte da Europa redefine seu próprio “nós”.
O discurso deixa de ser apenas nacional.
Não se fala somente em segurança alemã, polonesa, francesa ou finlandesa.
Cada vez mais, fala-se em segurança europeia.
Assim, a ameaça externa pode produzir coesão interna.
Entretanto, esse processo também possui riscos.
A ameaça pode unir, mas também pode simplificar
Construir identidade política em torno de uma ameaça pode fortalecer solidariedade.
Por outro lado, também pode reduzir debates complexos a uma oposição binária.
“Europa versus Rússia.”
“Democracia versus autoritarismo.”
“Nós versus eles.”
Essas categorias possuem força política. Contudo, raramente explicam sozinhas toda a realidade.
A Europa continua internamente diversa.
Os países do Báltico possuem experiências históricas diferentes das de Portugal ou Espanha.
A Polônia percebe a Rússia de maneira distinta da Hungria.
Da mesma forma, Alemanha, França e Itália possuem trajetórias próprias de relacionamento econômico e diplomático com Moscou.
Portanto, não existe uma única mentalidade europeia.
Existe uma disputa sobre qual Europa deve emergir da crise.
Alemanha: a ruptura com décadas de contenção militar
Talvez nenhum país simbolize melhor essa transformação do que a Alemanha.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a sociedade alemã desenvolveu uma relação extremamente cautelosa com o poder militar.
Isso era compreensível.
O peso histórico do nazismo e da guerra produziu uma cultura política marcada por contenção, multilateralismo e resistência ao nacionalismo militar.
Além disso, durante décadas, Berlim privilegiou integração econômica e diplomacia.
Entretanto, a guerra na Ucrânia provocou uma ruptura.
O então chanceler Olaf Scholz descreveu a mudança como uma Zeitenwende, ou seja, uma virada de época.
Desde então, defesa e capacidade militar assumiram outro lugar no debate alemão.
A Alemanha está se rearmando
Essa mudança já aparece nos números.
Segundo o Kiel Institute, a Alemanha encomendou aproximadamente €85 bilhões em equipamentos militares durante 2025. O valor superou, naquele levantamento, os pedidos combinados de Reino Unido e Polônia.
Entretanto, o estudo também apresenta uma nuance importante.
O problema não está somente em quanto dinheiro é gasto.
Está também em que tipo de capacidade militar o investimento produz.
O Kiel Institute observou que a participação de tecnologias modernas nas aquisições alemãs caiu em comparação ao período anterior à guerra, enquanto a Polônia ampliou essa parcela.
Portanto, rearmamento não significa automaticamente modernização eficiente.
Essa distinção será central para o futuro da defesa europeia.
A transformação alemã é também cultural
Comprar equipamentos militares é relativamente simples quando comparado a transformar uma cultura estratégica.
A Alemanha precisa responder a questões que durante décadas permaneceram secundárias.
Qual deve ser o papel das Forças Armadas?
Quanto a sociedade aceita gastar em defesa?
Até que ponto Berlim deve assumir liderança militar na Europa?
Além disso, como conciliar essa liderança com sua memória histórica?
Essas perguntas demonstram que a Zeitenwende não ocorre somente nos quartéis.
Ela acontece na sociedade.
Portanto, o verdadeiro rearmamento alemão também é psicológico.
Polônia: quando a memória histórica encontra a segurança contemporânea
Se a Alemanha representa uma mudança cultural profunda, a Polônia apresenta outra trajetória.
A percepção polonesa sobre a Rússia está profundamente ligada à experiência histórica.
Partições territoriais, dominação imperial, Segunda Guerra Mundial e décadas sob influência soviética deixaram marcas políticas duradouras.
Consequentemente, Varsóvia interpreta a guerra na Ucrânia a partir de uma memória histórica diferente daquela existente em grande parte da Europa Ocidental.
Para a Polônia, segurança territorial nunca deixou completamente de ser uma questão existencial.
Por isso, o rearmamento polonês não representa apenas uma reação momentânea.
Ele também reflete uma visão estratégica consolidada.
A Polônia transforma defesa em prioridade nacional
Desde 2022, Varsóvia acelerou fortemente suas aquisições militares.
Além disso, buscou equipamentos de diferentes fornecedores, incluindo Estados Unidos e Coreia do Sul.
O país investiu em tanques, artilharia, defesa aérea e aviação.
Em 2026, os elevados gastos militares continuam pressionando as contas públicas. Para 2027, o governo polonês projetou despesas de defesa superiores a 4,5% do PIB, em um cenário no qual entregas de equipamentos militares contribuem significativamente para o déficit fiscal.
Portanto, a Polônia está fazendo uma escolha.
Está aceitando custos econômicos relevantes para aumentar rapidamente sua capacidade militar.
Alemanha e Polônia representam duas Europas?
Não exatamente.
Entretanto, elas representam duas experiências históricas diferentes dentro do mesmo processo.
A Alemanha parte de uma cultura de contenção militar e precisa reconstruir capacidade.
A Polônia parte de uma cultura de vulnerabilidade geográfica e acelera uma estratégia que já considerava necessária.
Consequentemente, ambas caminham em direção ao fortalecimento militar, mas chegam a esse destino por caminhos distintos.
Essa diferença importa.
A política de defesa não nasce somente de cálculos técnicos.
Ela também nasce da memória coletiva.
A crise energética revelou outra vulnerabilidade
Entretanto, a transformação europeia não ocorre apenas no campo militar.
Existe também uma dimensão energética.
Durante décadas, parte importante da Europa construiu relações econômicas profundas com a Rússia.
O gás russo ocupou posição particularmente importante.
A lógica era baseada na interdependência.
A Rússia precisava das receitas europeias.
A Europa precisava de energia relativamente competitiva.
Portanto, acreditava-se que o comércio poderia funcionar como elemento estabilizador.
A guerra colocou essa premissa em xeque.
Da interdependência à dependência estratégica
Depois de 2022, a energia deixou de ser tratada apenas como questão econômica.
Ela passou a ser analisada como questão de segurança.
A União Europeia respondeu com o REPowerEU, ampliando importações alternativas, reduzindo consumo e acelerando a diversificação.
O resultado foi significativo.
Segundo a Comissão Europeia, o volume de gás russo importado caiu de aproximadamente 152 bilhões de metros cúbicos em 2021 para 36 bilhões em 2025.
Contudo, a dependência não desapareceu imediatamente.
Dados da agência europeia ACER mostram que, em 2026, o gás russo ainda corresponde a aproximadamente 12% da demanda de gás da União Europeia, considerando gás canalizado e GNL.
Portanto, a ruptura é profunda, mas ainda está em andamento.
A Europa decidiu encerrar sua dependência do gás russo
Em janeiro de 2026, os Estados-membros da União Europeia aprovaram formalmente a retirada gradual das importações de gás russo.
A implementação começou em março.
Além disso, o cronograma prevê o fim das importações russas de GNL até o final de 2026 e a eliminação do gás russo por gasodutos até 2027, respeitando períodos de transição previstos para contratos existentes.
Essa decisão representa mais do que uma mudança de fornecedor.
Ela revela uma transformação no conceito europeu de segurança.
Anteriormente, comprar energia barata poderia ser considerado racional mesmo quando o fornecedor apresentava divergências políticas.
Agora, porém, dependência econômica passou a ser interpretada como vulnerabilidade estratégica.
O paradoxo da autonomia energética
Entretanto, existe um paradoxo.
Ao reduzir a dependência russa, a Europa precisa encontrar outras fontes.
Consequentemente, o gás natural liquefeito ganhou importância extraordinária.
Segundo a ACER, o GNL passou a responder por quase metade do abastecimento de gás da União Europeia.
Isso aumenta a diversificação.
Contudo, também aumenta a exposição aos mercados internacionais de GNL.
Portanto, uma vulnerabilidade pode ser reduzida enquanto outra surge.
A dependência de um gasoduto específico diminui.
Por outro lado, cresce a sensibilidade a preços internacionais, disponibilidade de navios, terminais e crises em outras regiões produtoras.
Assim, autonomia não significa autarquia.
Significa administrar dependências de forma mais segura.
O fim da neutralidade continental
A expressão “fim da neutralidade” precisa ser compreendida em sentido político e estratégico, e não jurídico.
A Europa nunca foi inteiramente neutra.
A OTAN existe desde 1949.
Além disso, vários países europeus sempre participaram ativamente da arquitetura militar ocidental.
Entretanto, existia uma espécie de neutralidade psicológica pós-Guerra Fria.
Para grande parte da população, uma guerra convencional envolvendo grandes forças militares parecia remota.
Essa percepção diminuiu.
Além disso, dois países historicamente associados à neutralidade militar modificaram suas posições após a invasão da Ucrânia: Finlândia e Suécia ingressaram na OTAN.
Portanto, o continente passou por uma mudança simbólica profunda.
A neutralidade deixou de ser percebida automaticamente como proteção.
A Europa volta a pensar em poder
Esse talvez seja o elemento mais importante da transformação.
Durante décadas, a União Europeia projetou sua influência principalmente por meio de comércio, regulamentação, diplomacia, ajuda externa e poder econômico.
Era a ideia de uma potência normativa.
A Europa buscava influenciar comportamentos por regras.
Entretanto, a guerra trouxe novamente uma pergunta clássica das relações internacionais:
quem protege as regras quando alguém decide violá-las pela força?
Consequentemente, poder militar voltou ao centro da discussão.
Isso não significa que diplomacia tenha perdido importância.
Pelo contrário.
Significa que parte da Europa passou a considerar que diplomacia e capacidade de dissuasão precisam coexistir.
O papel dos Estados Unidos também está mudando
Existe outro elemento decisivo.
A Europa precisa discutir sua defesa enquanto Washington exige maior participação europeia na própria segurança continental.
Em 2026, autoridades norte-americanas voltaram a pressionar os aliados para que assumam maior responsabilidade pela defesa convencional da Europa, enquanto os Estados Unidos direcionam atenção crescente para outras regiões estratégicas, sobretudo o Indo-Pacífico.
Consequentemente, o rearmamento europeu responde a duas inseguranças simultâneas.
A primeira está relacionada à Rússia.
A segunda envolve a possibilidade de depender excessivamente dos Estados Unidos.
Portanto, o debate europeu começa a migrar de uma pergunta simples — “quanto devemos gastar?” — para outra muito mais complexa:
quem deve ser responsável pela segurança da Europa?
O nascimento de um novo “nós” europeu
É nesse ponto que defesa, identidade e antropologia política se encontram.
A União Europeia possui moeda comum para muitos de seus membros.
Possui instituições.
Possui legislação compartilhada.
Além disso, possui fronteiras internas relativamente abertas.
Entretanto, construir uma identidade coletiva é muito mais difícil.
Crises podem acelerar esse processo.
Quando diferentes sociedades percebem uma ameaça comum, surge maior incentivo para construir narrativas compartilhadas.
“Nossa fronteira.”
“Nossa segurança.”
“Nossa energia.”
“Nossa defesa.”
Consequentemente, o vocabulário político muda.
O projeto europeu deixa de ser apresentado somente como projeto de prosperidade.
Passa também a ser apresentado como projeto de proteção.
O perigo de construir identidade apenas pelo medo
Contudo, existe um problema.
Uma sociedade não deveria depender permanentemente de um inimigo para saber quem é.
Quando identidade coletiva se constrói exclusivamente pela oposição ao “outro”, existe risco de militarização excessiva do debate.
Além disso, divergências internas podem ser interpretadas como falta de lealdade.
O medo também pode facilitar simplificações políticas.
Portanto, a Europa enfrenta um desafio delicado.
Ela precisa desenvolver capacidade de defesa sem transformar insegurança permanente em fundamento único de sua identidade.
Precisa fortalecer soberania sem abandonar diplomacia.
Além disso, precisa construir unidade sem eliminar diferenças nacionais.
Esse equilíbrio será difícil.
Rearmamento também significa disputa por recursos
Existe ainda uma dimensão econômica.
Defesa custa dinheiro.
Tanques, drones, sistemas antiaéreos, munições, satélites e infraestrutura militar exigem investimentos elevados.
Consequentemente, governos precisam decidir como financiar essas despesas.
Aumentar gastos militares pode significar maior endividamento.
Também pode exigir aumento de impostos.
Em outros casos, pode disputar recursos com políticas sociais, infraestrutura ou transição energética.
A Polônia já demonstra parte desse dilema por meio de déficits elevados associados, entre outros fatores, às entregas de equipamentos militares.
Portanto, a nova política de segurança terá consequências sociais.
A indústria de defesa volta ao centro da política industrial
Por outro lado, o rearmamento também pode estimular produção industrial.
Uma Europa que pretende ampliar sua autonomia militar precisa produzir mais equipamentos.
Isso exige siderurgia, eletrônica, inteligência artificial, drones, sensores, semicondutores e sistemas de comunicação.
Além disso, exige mão de obra qualificada.
Consequentemente, defesa passa a dialogar com política industrial.
A pergunta deixa de ser apenas quantas armas comprar.
Passa a ser também:
onde elas serão produzidas?
Essa questão possui enorme importância para a autonomia estratégica europeia.
A crise europeia é também uma crise de paradigma
O antigo paradigma poderia ser resumido da seguinte maneira:
interdependência econômica + integração política + proteção norte-americana = estabilidade europeia.
Esse modelo não desapareceu completamente.
Entretanto, seus pilares estão sendo questionados.
A interdependência energética com a Rússia revelou riscos.
A integração política enfrenta divergências internas.
Além disso, a dependência militar dos Estados Unidos passou a ser debatida com maior intensidade.
Consequentemente, surge um novo paradigma em formação:
diversificação energética + rearmamento + autonomia estratégica + cooperação atlântica.
Ainda não sabemos qual será seu formato definitivo.
Porém, a transformação já está acontecendo.
O que o Brasil pode aprender com essa transformação?
À primeira vista, a experiência europeia parece distante da realidade brasileira.
O Brasil não enfrenta atualmente uma guerra convencional em suas fronteiras.
Além disso, possui uma tradição diplomática distinta e vive em um ambiente regional comparativamente pacífico.
Entretanto, algumas lições europeias são relevantes.
A primeira envolve identidade nacional.
Sociedades precisam saber quais interesses consideram estratégicos.
A segunda envolve soberania.
Um país soberano não precisa produzir absolutamente tudo. Contudo, precisa compreender quais dependências externas podem comprometer sua capacidade de decisão.
Finalmente, existe uma terceira lição: cooperação internacional e autonomia não são conceitos necessariamente opostos.
Soberania não significa isolamento
Esse ponto é fundamental para o Brasil.
Existe uma falsa escolha entre integração internacional e soberania.
Um país pode cooperar intensamente com outros Estados e, simultaneamente, preservar capacidade própria.
A Europa está aprendendo isso na energia.
Durante décadas, parte do continente confundiu eficiência econômica com segurança estratégica.
Agora, procura diversificar fornecedores.
O Brasil precisa aplicar raciocínio semelhante a áreas estratégicas.
Energia, fertilizantes, defesa, tecnologia, semicondutores, infraestrutura digital e cadeias alimentares merecem atenção.
Portanto, soberania moderna significa capacidade de escolha.
O Brasil também precisa construir um “nós”
A experiência europeia oferece ainda uma reflexão antropológica.
O Brasil possui enorme diversidade regional, cultural, racial e econômica.
Essa diversidade constitui uma riqueza.
Entretanto, ela também exige uma narrativa nacional capaz de produzir pertencimento sem apagar diferenças.
A Europa tenta construir unidade diante de uma ameaça externa.
O Brasil não precisa esperar uma ameaça militar para fortalecer sua identidade coletiva.
Pode fazê-lo a partir de objetivos comuns.
Desenvolvimento.
Redução das desigualdades.
Proteção da Amazônia.
Industrialização.
Ciência.
Defesa da soberania.
Integração sul-americana.
Assim, identidade nacional pode nascer de um projeto compartilhado, e não necessariamente do medo.
A principal lição: soberania precisa existir antes da crise
A guerra na Ucrânia demonstrou como decisões tomadas durante décadas podem limitar escolhas futuras.
Dependências energéticas não são revertidas em semanas.
Capacidade militar não é reconstruída instantaneamente.
Indústrias estratégicas também não aparecem por decreto.
Além disso, identidade coletiva não surge automaticamente quando uma crise começa.
Portanto, planejamento estratégico precisa ocorrer antes da emergência.
Essa talvez seja a lição mais importante para o Brasil.
Conclusão: uma Europa diferente está surgindo
A guerra na Ucrânia acelerou uma transformação que provavelmente continuará muito depois do encerramento do conflito.
A Alemanha reconsidera sua relação histórica com o poder militar.
A Polônia fortalece rapidamente suas capacidades de defesa.
A União Europeia reduz sua dependência energética russa e, simultaneamente, busca novos fornecedores.
Além disso, o continente debate autonomia estratégica em um momento no qual os Estados Unidos pressionam os aliados a assumirem maior responsabilidade por sua própria defesa.
Portanto, não estamos observando apenas um rearmamento.
Estamos observando uma transformação de mentalidade.
A Europa que acreditava ter superado definitivamente a política das grandes guerras voltou a discutir fronteiras, exércitos, energia, indústria militar e preparação social.
Entretanto, o desafio mais profundo permanece aberto.
A Europa precisará decidir se sua nova identidade será construída principalmente pelo medo de um inimigo ou pela definição positiva de interesses, valores e responsabilidades comuns.
Essa distinção será decisiva.
Porque sociedades podem se unir diante do medo.
Contudo, somente projetos coletivos conseguem permanecer unidos quando o medo diminui.
Para o Brasil, essa experiência oferece uma advertência importante.
Soberania não deve nascer apenas quando uma crise começa.
Ela precisa ser construída antes, por meio de capacidade produtiva, energia, defesa, tecnologia, diplomacia e, sobretudo, de um projeto nacional suficientemente forte para produzir identidade sem exigir a fabricação permanente de um inimigo.
