aliança Irã Rússia

Defesa, tecnologia, sanções e moedas nacionais: como Irã e Rússia aprofundam sua cooperação e procuram construir mecanismos econômicos menos dependentes do sistema financeiro ocidental

Por Rodrigo Pinheiro

Durante décadas, Rússia e Irã mantiveram uma relação marcada por cooperação, desconfiança histórica e interesses circunstanciais. Entretanto, a pressão exercida por sanções ocidentais e as transformações geopolíticas dos últimos anos aproximaram Moscou e Teerã de maneira muito mais profunda.

A guerra na Ucrânia acelerou esse movimento. Além disso, os confrontos envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos transformaram tecnologias militares iranianas em objeto de interesse estratégico internacional.

Em janeiro de 2025, Rússia e Irã formalizaram um Tratado de Parceria Estratégica Abrangente com duração de 20 anos. O documento prevê cooperação em defesa, energia, comércio, infraestrutura financeira e utilização das moedas nacionais nas transações bilaterais.

Portanto, o chamado Eixo Teerã-Moscou não deve ser interpretado somente como uma aliança militar.

Existe uma dimensão econômica igualmente importante.

Os dois países procuram reduzir sua exposição a sanções, ampliar mecanismos próprios de pagamento e diminuir a necessidade de utilizar infraestruturas financeiras controladas ou influenciadas pelo Ocidente.

Contudo, é necessário fazer uma distinção fundamental.

Rússia e Irã não estão próximos de provocar o “fim do dólar”.

O que está acontecendo é diferente: países submetidos a sanções estão construindo circuitos comerciais paralelos, nos quais o dólar deixa de ser indispensável para determinadas operações.

Essa diferença é essencial para compreender a transformação atual da economia mundial.


De parceiros circunstanciais a parceiros estratégicos

A aproximação entre Rússia e Irã não surgiu em 2022.

Os dois países cooperaram anteriormente em diferentes questões regionais. Na Síria, por exemplo, Moscou e Teerã apoiaram o governo de Bashar al-Assad durante grande parte da guerra civil.

Entretanto, a invasão russa da Ucrânia alterou a escala dessa relação.

A Rússia passou a enfrentar sanções econômicas muito mais abrangentes.

O Irã, por sua vez, já acumulava décadas de experiência operando sob restrições financeiras e comerciais impostas principalmente pelos Estados Unidos.

Consequentemente, surgiu uma convergência.

Moscou possuía recursos, indústria militar, energia e poder diplomático.

Teerã possuía experiência em contornar isolamento econômico, tecnologias militares específicas e posição geográfica estratégica.

Assim, as necessidades dos dois países começaram a se complementar.


O tratado de 2025 consolidou essa aproximação

A assinatura do Tratado de Parceria Estratégica Abrangente representou um marco.

O acordo prevê cooperação militar e técnico-militar, exercícios conjuntos e coordenação diante de ameaças compartilhadas. Além disso, estabelece mecanismos para ampliar comércio, energia e investimentos.

Entretanto, existe um detalhe importante.

O tratado não estabelece uma cláusula automática de defesa mútua equivalente ao Artigo 5º da OTAN.

Portanto, chamar Rússia e Irã simplesmente de aliados militares pode produzir uma interpretação exagerada.

A relação é estratégica e militarmente relevante.

Contudo, ela não equivale juridicamente a uma aliança de defesa coletiva tradicional.

Essa nuance ficou evidente durante confrontos anteriores envolvendo Irã e Israel, quando Teerã demonstrou insatisfação com o nível de apoio efetivo oferecido por Moscou.


O campo de batalha tornou-se também um laboratório tecnológico

Existe outra dimensão dessa aproximação.

Os conflitos contemporâneos transformaram drones, guerra eletrônica, mísseis, sensores e sistemas antiaéreos em elementos centrais da estratégia militar.

Nesse cenário, o Irã desenvolveu uma capacidade particularmente relevante em drones de baixo custo.

A família Shahed tornou-se internacionalmente conhecida durante a guerra na Ucrânia.

Inicialmente, o Irã forneceu sistemas à Rússia.

Posteriormente, Moscou desenvolveu capacidade própria de produção de drones derivados dessa arquitetura.

Portanto, ocorreu algo maior do que uma simples compra de armamentos.

Houve transferência, adaptação e industrialização tecnológica.


Por que os drones iranianos interessaram à Rússia?

O motivo está relacionado à economia da guerra.

Um míssil de alta precisão pode custar valores extremamente elevados.

Entretanto, um drone de ataque relativamente barato consegue obrigar o adversário a mobilizar radares, sistemas antiaéreos e interceptadores muito mais caros.

Consequentemente, surge uma assimetria econômica.

O atacante pode lançar grande quantidade de vetores baratos.

O defensor precisa decidir quais ameaças interceptar.

Além disso, ataques simultâneos podem tentar saturar sistemas defensivos.

Portanto, quantidade também passa a representar uma forma de tecnologia militar.


Irã, Israel e a aprendizagem operacional

Os confrontos entre Irã e Israel adicionaram outra camada.

Teerã empregou diferentes combinações de drones e mísseis em operações reais.

Consequentemente, cada confronto produz dados.

Quanto tempo determinado vetor demora para chegar ao alvo?

Como radares inimigos respondem?

Quais sistemas conseguem interceptá-lo?

Quantos vetores precisam ser lançados simultaneamente?

Além disso, quais componentes resistem melhor às contramedidas eletrônicas?

Essas informações possuem enorme valor militar.

Portanto, guerras modernas não apenas consomem tecnologia.

Elas também produzem conhecimento tecnológico.


Moscou também possui algo a oferecer

A transferência não ocorre em apenas uma direção.

A Rússia possui experiência avançada em defesa aérea, guerra eletrônica, mísseis, aviação e operações militares de larga escala.

Além disso, anos de guerra na Ucrânia produziram enorme volume de experiência operacional.

Consequentemente, uma parceria aprofundada pode permitir intercâmbio de conhecimentos em diferentes áreas.

Nesse sentido, Teerã e Moscou formam um ecossistema de aprendizado militar.

O Irã contribui com determinadas soluções assimétricas.

A Rússia contribui com capacidades convencionais e industriais de outra escala.

Portanto, a complementaridade militar ajuda a explicar a aproximação.


Entretanto, a relação não é totalmente simétrica

Apesar da convergência, Rússia e Irã possuem interesses próprios.

Moscou mantém relações com países árabes.

Também dialoga com Israel.

Além disso, precisa equilibrar diferentes interesses no Cáucaso, na Ásia Central e no Oriente Médio.

Teerã, por sua vez, busca preservar autonomia.

Portanto, não existe submissão automática de um país ao outro.

Essa característica diferencia uma parceria estratégica de uma aliança rígida.

Em alguns temas, os interesses convergem profundamente.

Em outros, surgem limites.


O verdadeiro ponto de convergência: resistência às sanções

Se existe uma experiência compartilhada entre Rússia e Irã, ela está na pressão econômica ocidental.

O Irã convive com sanções há décadas.

A Rússia passou a enfrentar um sistema muito mais amplo de restrições depois de 2022.

Consequentemente, os dois países possuem forte incentivo para construir mecanismos financeiros que funcionem sem depender integralmente de instituições ocidentais.

É justamente nesse ponto que a questão do dólar entra no debate.


O dólar é mais do que uma moeda

A hegemonia internacional do dólar não decorre somente do tamanho da economia norte-americana.

Ela está relacionada a uma estrutura muito mais ampla.

Comércio internacional, reservas cambiais, mercados financeiros, títulos públicos, bancos correspondentes e sistemas de pagamento estão profundamente conectados à moeda norte-americana.

Além disso, grande parte das commodities internacionais continua sendo precificada em dólares.

Consequentemente, utilizar o dólar significa, em muitos casos, utilizar instituições que possuem alguma conexão com o sistema financeiro dos Estados Unidos.

Isso oferece a Washington uma ferramenta poderosa.

As sanções financeiras.


Quando o sistema financeiro vira instrumento geopolítico

Sanções podem restringir acesso a bancos, ativos, crédito e transações.

Portanto, países atingidos procuram alternativas.

Essa busca não significa necessariamente que considerem outra moeda melhor do que o dólar.

Significa que precisam continuar comercializando mesmo quando o acesso ao sistema tradicional é restringido.

Rússia e Irã encontram-se exatamente nessa situação.

Consequentemente, a desdolarização possui, para eles, uma dimensão defensiva.

Reduzir o dólar significa reduzir um ponto de vulnerabilidade.


Rússia e Irã querem pagamentos independentes de terceiros

O próprio tratado estratégico deixa essa intenção explícita.

O artigo 20 prevê o desenvolvimento de uma infraestrutura moderna de pagamentos independente de terceiros, além da expansão dos pagamentos bilaterais em moedas nacionais e da cooperação direta entre instituições financeiras.

Essa disposição possui enorme significado político.

Ela transforma o sistema financeiro em elemento da soberania nacional.

Se duas economias conseguem comercializar sem utilizar uma moeda de terceiro país, diminuem sua exposição a determinadas formas de pressão externa.

Entretanto, isso não significa eliminar completamente o dólar.

Significa criar alternativas.


Desdolarização não significa fim do dólar

Esse ponto precisa ficar muito claro.

Existe diferença entre desdolarização parcial e substituição global do dólar.

Rússia e Irã podem ampliar transações em rublos e riais.

Rússia e China podem negociar utilizando moedas nacionais.

Outros países também podem desenvolver sistemas semelhantes.

Contudo, o dólar continua possuindo liquidez, profundidade financeira e ampla aceitação internacional.

Portanto, sua substituição completa exigiria uma transformação muito maior.

O movimento atual aponta para outra direção.

Em vez de uma única moeda desaparecer, o sistema pode tornar-se progressivamente mais fragmentado e multipolar.


Um mundo de vários circuitos financeiros

Imagine a economia global dividida em diferentes redes.

Dentro de uma delas, empresas utilizam dólares.

Em outra, yuan.

Em determinadas relações bilaterais, moedas nacionais.

Além disso, bancos centrais podem conectar seus próprios sistemas de pagamento.

Esse cenário não exige destruir a arquitetura anterior.

Ele simplesmente reduz sua exclusividade.

Consequentemente, o dólar poderia continuar dominante enquanto sua participação relativa diminuísse em determinadas regiões e operações.

Essa é uma hipótese muito mais realista do que prever seu desaparecimento.


Sanções aceleraram aquilo que pretendiam impedir?

Existe um paradoxo importante.

As sanções dificultam o comércio dos países atingidos.

Entretanto, também oferecem um forte incentivo para que esses países criem alternativas.

Quanto maior for o risco de exclusão financeira, maior será o interesse em possuir outro sistema.

Portanto, sanções podem produzir dois efeitos simultaneamente.

Primeiramente, aumentam o custo econômico imediato do país sancionado.

Contudo, no longo prazo, podem acelerar investimentos em infraestrutura financeira alternativa.

Rússia e Irã ilustram esse processo.


O eixo econômico também passa pela energia

A cooperação não está restrita a pagamentos.

Rússia e Irã possuem enormes reservas energéticas.

Além disso, discutem projetos de petróleo, gás e energia nuclear.

Em 2025, Moscou e Teerã chegaram a um entendimento preliminar envolvendo fornecimento futuro de até 55 bilhões de metros cúbicos anuais de gás russo ao Irã. Também discutiram financiamento russo para projetos nucleares e investimentos em campos petrolíferos iranianos.

Portanto, energia e finanças caminham juntas.

Quanto maior for o comércio energético bilateral, maior será a necessidade de sistemas capazes de liquidar essas operações.

Consequentemente, infraestrutura física e financeira passam a se reforçar.


Corredores comerciais também fazem parte dessa estratégia

Existe ainda uma dimensão logística.

Rússia e Irã ocupam posições geográficas complementares.

O território russo conecta Europa e Ásia.

O Irã oferece acesso ao Golfo Pérsico e ao Oceano Índico.

Portanto, corredores que conectam Rússia, Cáucaso, Irã e Índia podem reduzir distâncias e criar alternativas às rotas tradicionais.

Nesse contexto, o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul possui importância especial.

Ele não substitui todo o comércio marítimo tradicional.

Entretanto, amplia opções.

Novamente, aparece a mesma lógica:

reduzir dependências criando redundância.


A pressão dos EUA e da OTAN aproxima Moscou e Teerã

Rússia e Irã possuem diferenças históricas.

Contudo, ambos interpretam a atual ordem internacional como excessivamente concentrada no Ocidente.

Além disso, os dois países criticam sanções unilaterais e a expansão da influência político-militar norte-americana.

Em março de 2025, representantes de China, Rússia e Irã reuniram-se em Pequim e defenderam o fim das sanções unilaterais relacionadas à questão nuclear iraniana, além de diálogo político como caminho para resolver disputas.

Portanto, a aproximação possui também uma narrativa comum.

Ela apresenta a multipolaridade como alternativa à hegemonia.


Resistência é uma palavra central na comunicação iraniana

Na comunicação política iraniana, a ideia de resistência possui grande importância.

Ela aparece tanto no campo militar quanto no econômico.

A lógica é simples.

Se sanções procuram produzir dependência ou mudança de comportamento, construir capacidade doméstica e relações alternativas torna-se parte da estratégia de resistência.

Consequentemente, drones, mísseis, energia, moedas nacionais e novos parceiros podem ser apresentados como elementos da mesma política.

Do ponto de vista iraniano, portanto, soberania militar e soberania financeira estão conectadas.


Moscou utiliza uma linguagem semelhante sobre soberania

A Rússia também passou a enfatizar fortemente o conceito de soberania econômica.

Moscou defende pagamentos em moedas nacionais como forma de reduzir exposição a interferências externas.

Essa tendência não aparece somente na relação com o Irã.

Em setembro de 2026, por exemplo, representantes russos afirmaram que 96% do comércio bilateral Rússia-Índia já era liquidado em rublos e rúpias, demonstrando como Moscou expandiu mecanismos semelhantes para outros parceiros.

Portanto, a estratégia russa é mais ampla.

O Irã faz parte de uma arquitetura crescente de pagamentos alternativos.


E onde entra a China?

Pequim ocupa posição decisiva nesse processo.

Sem a China, qualquer tentativa de criar uma arquitetura econômica realmente multipolar teria escala muito menor.

A razão é simples.

A China possui uma das maiores economias do planeta.

É uma potência industrial.

Além disso, ocupa posição central no comércio internacional.

Portanto, o yuan possui uma capacidade de internacionalização que o rublo e o rial não possuem individualmente.

Isso não significa que Pequim queira destruir imediatamente o sistema do dólar.

Sua posição é mais cautelosa.


Pequim prefere reforma à ruptura

A comunicação chinesa geralmente enfatiza multilateralismo, reforma da governança internacional e maior participação do Sul Global.

Em 2025, Xi Jinping defendeu dentro do BRICS maior cooperação entre os membros, multilateralismo e uma ordem internacional mais representativa.

Da mesma forma, Wang Yi defendeu reformas da governança global capazes de refletir de maneira mais equilibrada os interesses das economias emergentes.

Portanto, Pequim não precisa declarar uma guerra contra o dólar.

Basta ampliar gradualmente alternativas.

Essa estratégia é muito menos disruptiva.

Além disso, é potencialmente mais sustentável.


China, Rússia e Irã não formam uma OTAN alternativa

Outro cuidado analítico é necessário.

É tentador observar China, Rússia e Irã e imaginar um bloco completamente integrado.

Entretanto, a realidade é mais complexa.

Os três países cooperam em diferentes áreas.

Também compartilham críticas ao unilateralismo e às sanções.

Contudo, possuem interesses nacionais distintos.

A China depende profundamente do comércio mundial.

A Rússia possui sua própria agenda de segurança.

O Irã enfrenta prioridades regionais específicas.

Portanto, não estamos necessariamente diante de uma aliança única e disciplinada.

Estamos diante de uma convergência estratégica em determinados temas.


O BRICS amplia essa convergência econômica

A entrada do Irã no BRICS adicionou outra dimensão.

O grupo reúne economias com diferentes sistemas políticos, interesses e alianças.

Consequentemente, não deve ser interpretado como uma coalizão militar antiocidental.

Entretanto, existe um debate real sobre maior utilização de moedas nacionais e desenvolvimento de instrumentos financeiros próprios.

Em agosto de 2026, o presidente do Banco Central iraniano afirmou que Teerã buscava ingressar no Novo Banco de Desenvolvimento e ampliar comércio em moedas nacionais, embora o próprio NDB ainda não tivesse confirmado sua entrada.

Portanto, o movimento iraniano em direção às instituições do BRICS faz parte de uma estratégia econômica mais ampla.


O objetivo não precisa ser criar uma “moeda BRICS”

Grande parte do debate público concentra-se na possibilidade de uma moeda comum.

Entretanto, essa não é a única forma de reduzir dependência do dólar.

Na prática, mecanismos bilaterais podem avançar muito antes.

Brasil e China podem utilizar reais e yuans em determinadas operações.

Rússia e Índia podem utilizar rublos e rúpias.

Rússia e Irã podem utilizar suas moedas nacionais.

Além disso, bancos centrais podem desenvolver sistemas interoperáveis.

Consequentemente, a desdolarização pode ocorrer de maneira gradual e descentralizada.

Não precisa existir uma única moeda substituta.


O Brasil está no centro desse debate

Para o Brasil, essa transformação apresenta oportunidades.

Entretanto, também exige prudência.

O país possui relações econômicas importantes com Estados Unidos, China, União Europeia, Rússia e diferentes economias emergentes.

Portanto, seu maior ativo não é escolher um único bloco.

É possuir capacidade de negociar com vários polos simultaneamente.

Essa flexibilidade aumenta autonomia.

Além disso, pode reduzir custos financeiros em determinadas operações.


Comércio em moedas nacionais pode beneficiar o Brasil

Em determinadas circunstâncias, utilizar moedas nacionais pode reduzir etapas de conversão.

Uma empresa brasileira que negocia com um parceiro estrangeiro normalmente pode precisar converter reais em dólares e, posteriormente, realizar outra conversão.

Se existir infraestrutura adequada para liquidação direta, algumas operações podem tornar-se mais eficientes.

Além disso, empresas podem reduzir exposição a determinadas oscilações cambiais intermediárias.

Contudo, surgem novos riscos.

Liquidez, volatilidade e disponibilidade de instrumentos de hedge precisam ser consideradas.

Portanto, moedas nacionais são ferramentas.

Não são soluções mágicas.


Diversificação não significa abandonar o dólar

Esse ponto é particularmente importante para o Brasil.

O país não precisa escolher entre dólar e yuan.

Também não precisa escolher entre Estados Unidos e BRICS.

Uma estratégia de autonomia procura justamente evitar essa dicotomia.

O Brasil pode utilizar dólares quando isso for economicamente eficiente.

Pode ampliar operações em reais e moedas de parceiros quando houver vantagens.

Além disso, pode manter reservas diversificadas.

Consequentemente, a estratégia mais racional não é substituir uma dependência por outra.

É aumentar o número de opções disponíveis.


Rússia e Irã oferecem oportunidades, mas também riscos

O Brasil pode ampliar relações comerciais com diferentes parceiros.

Entretanto, empresas brasileiras precisam considerar cuidadosamente regimes de sanções internacionais e exposição ao sistema financeiro norte-americano.

Uma operação economicamente atraente pode gerar riscos jurídicos ou financeiros caso envolva entidades sancionadas.

Portanto, diversificação comercial precisa vir acompanhada de compliance internacional rigoroso.

Autonomia estratégica não significa ignorar riscos.

Significa conhecê-los antes de tomar decisões.


A experiência iraniana oferece uma advertência

O Irã demonstra tanto o potencial quanto os limites da resistência econômica.

Por um lado, o país desenvolveu mecanismos para continuar comercializando sob fortes sanções.

Por outro, os custos são elevados.

Em 2026, a economia iraniana enfrentou inflação severa, forte pressão cambial e queda do comércio exterior em meio à guerra e ao endurecimento das sanções.

Portanto, desenvolver alternativas ao sistema financeiro internacional não elimina automaticamente os efeitos do isolamento.

Essa é uma lição importante.

Autonomia não pode ser confundida com isolamento.


A experiência russa mostra outra realidade

A Rússia possui uma economia maior e recursos energéticos extraordinários.

Além disso, conseguiu redirecionar parte importante de seu comércio para parceiros asiáticos.

Consequentemente, Moscou demonstrou maior capacidade de adaptação do que muitos analistas inicialmente esperavam.

Entretanto, isso também produziu custos.

Rotas comerciais mudaram.

Descontos sobre commodities apareceram.

Além disso, determinados setores passaram a depender mais de poucos compradores.

Portanto, escapar de uma dependência pode criar outra.


A multipolaridade financeira está realmente avançando?

Sim, mas lentamente.

A tendência de maior utilização de moedas nacionais é real.

Também existe expansão de sistemas alternativos de pagamento.

Além disso, sanções incentivam países a procurar infraestruturas menos vulneráveis à jurisdição ocidental.

Contudo, nenhuma dessas tendências significa que o dólar perderá sua posição dominante imediatamente.

A transformação provavelmente ocorrerá por camadas.

Primeiro, pagamentos bilaterais.

Depois, financiamento comercial.

Posteriormente, maior utilização de moedas alternativas em investimentos.

Finalmente, talvez surjam novas arquiteturas multilaterais.

Portanto, estamos diante de um processo, não de um evento.


O Eixo Teerã-Moscou é militar, financeiro e logístico

Essa talvez seja a principal conclusão.

Observar apenas drones produz uma análise incompleta.

Observar apenas moedas também.

A aproximação entre Rússia e Irã combina diferentes dimensões.

Defesa.

Energia.

Finanças.

Logística.

Diplomacia.

Cada uma reforça as demais.

Uma rota comercial alternativa precisa de pagamentos.

Pagamentos precisam de bancos.

Bancos precisam de relações políticas.

Além disso, essas relações precisam de alguma capacidade de proteção.

Consequentemente, surge uma arquitetura estratégica mais ampla.


O desafio ao dólar é parte de um desafio maior

O verdadeiro debate não é simplesmente monetário.

A questão é quem define as regras do sistema internacional.

Durante décadas, Estados Unidos e seus aliados exerceram enorme influência sobre instituições financeiras, tecnologia, segurança e comércio.

Rússia, China, Irã e diferentes países do Sul Global defendem maior distribuição desse poder.

Entretanto, suas propostas não são idênticas.

Portanto, a multipolaridade não produzirá necessariamente uma nova hegemonia única.

Ela pode produzir um sistema mais fragmentado.

Várias moedas.

Vários sistemas de pagamento.

Vários centros tecnológicos.

Além disso, diferentes alianças e corredores comerciais.


O Brasil precisa pensar como potência intermediária

Nesse cenário, o Brasil possui uma posição privilegiada.

Não está submetido às mesmas sanções de Rússia ou Irã.

Também não enfrenta isolamento financeiro.

Além disso, mantém relações importantes com praticamente todos os grandes polos econômicos.

Portanto, pode exercer uma estratégia diferente.

Em vez de entrar em uma política de resistência, o Brasil pode buscar autonomia por diversificação.

Essa abordagem é mais compatível com sua tradição diplomática e com seus interesses econômicos.


O Brasil pode ganhar com um mundo menos dependente de uma única moeda?

Potencialmente, sim.

Mais opções de pagamento podem aumentar concorrência financeira.

Além disso, empresas brasileiras podem encontrar mecanismos mais eficientes para negociar com determinados parceiros.

O real também pode ganhar maior utilização regional em circunstâncias específicas.

Contudo, o benefício dependerá da qualidade das instituições brasileiras.

Uma moeda internacionalmente relevante precisa de confiança.

Também precisa de estabilidade macroeconômica.

Além disso, investidores precisam encontrar mercados líquidos e regras previsíveis.

Portanto, soberania monetária começa dentro do próprio país.


O maior risco seria transformar multipolaridade em alinhamento automático

O Brasil não deveria interpretar a ascensão de novos polos como obrigação de abandonar parceiros tradicionais.

Estados Unidos continuam sendo uma potência econômica, tecnológica e financeira fundamental.

A China é o principal parceiro comercial brasileiro.

A União Europeia permanece extremamente relevante.

Além disso, Índia, Rússia, Oriente Médio e África oferecem oportunidades.

Portanto, a vantagem brasileira está justamente na pluralidade.

Quanto mais portas abertas, maior a autonomia.


Conclusão: Teerã e Moscou estão construindo alternativas, não enterrando o dólar

A consolidação da parceria entre Rússia e Irã representa uma transformação relevante da geopolítica contemporânea.

O tratado estratégico de 2025 institucionalizou cooperação em defesa, energia, comércio e finanças. Além disso, prevê explicitamente pagamentos em moedas nacionais e infraestrutura financeira menos dependente de terceiros.

No campo militar, tecnologias iranianas de drones ganharam importância para a estratégia russa.

Ao mesmo tempo, a experiência russa em guerra eletrônica, defesa aérea e operações convencionais cria possibilidades de cooperação em sentido inverso.

No campo econômico, sanções incentivaram ambos a desenvolver mecanismos alternativos.

Consequentemente, defesa e finanças passaram a integrar a mesma estratégia de soberania.

Entretanto, isso ainda não representa o fim da hegemonia do dólar.

Representa algo mais gradual e, talvez, mais importante no longo prazo:

o surgimento de alternativas capazes de reduzir sua exclusividade.

A China acrescenta escala a esse processo.

O BRICS acrescenta institucionalidade.

Além disso, países como Índia e Brasil acrescentam diversidade.

Portanto, o futuro pode não ser um sistema sem dólar.

Pode ser um sistema no qual nenhuma moeda consiga exercer sozinha o mesmo grau de centralidade observado anteriormente.

Para o Brasil, essa transformação deve ser encarada como oportunidade, mas não como escolha ideológica.

Diversificar moedas pode ser útil.

Diversificar mercados também.

Ampliar parceiros é estratégico.

Contudo, substituir dependência de Washington por dependência de Pequim, Moscou ou qualquer outro centro de poder apenas mudaria o endereço da vulnerabilidade.

A verdadeira soberania brasileira está na capacidade de negociar com todos sem depender excessivamente de nenhum.

Esse talvez seja o principal ensinamento do Eixo Teerã-Moscou para um mundo que caminha, de maneira lenta e desigual, em direção a uma arquitetura cada vez mais multipolar.

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