
Guerras prolongadas, dependência de insumos e novas disputas geopolíticas mostram por que o Brasil precisa transformar recursos naturais em capacidade industrial e tecnológica
Por Rodrigo Pinheiro
Durante décadas, o Brasil aprofundou sua participação na economia global contando com cadeias internacionais relativamente estáveis. Fertilizantes, componentes eletrônicos, máquinas, produtos químicos, medicamentos e diversas tecnologias passaram a circular por redes produtivas distribuídas entre vários países.
Esse modelo trouxe benefícios econômicos. Entretanto, também criou dependências que se tornam mais evidentes quando o sistema internacional entra em crise.
A pandemia já havia demonstrado como uma interrupção logística distante poderia afetar fábricas e consumidores brasileiros. Posteriormente, a guerra na Ucrânia aumentou a preocupação com energia, fertilizantes e commodities. Agora, a instabilidade no Oeste da Ásia adiciona outro elemento de incerteza.
Embora essas guerras ocorram a milhares de quilômetros do território brasileiro, seus efeitos podem chegar rapidamente ao país. O impacto aparece nos preços da energia, nos fretes marítimos, nos seguros, nos fertilizantes e em diferentes produtos importados.
Portanto, a pergunta estratégica não é se o Brasil conseguirá permanecer geograficamente distante das guerras. A verdadeira questão é saber quanto da economia brasileira continuará vulnerável a acontecimentos externos que o país não controla.
A vulnerabilidade brasileira começa fora de suas fronteiras
O Brasil possui dimensões continentais, enorme produção agrícola, grandes reservas minerais, petróleo, recursos hídricos e uma das maiores biodiversidades do planeta. Ainda assim, permanece dependente do exterior em diferentes cadeias produtivas estratégicas.
Essa aparente contradição revela um problema histórico.
O país consegue produzir e exportar grandes volumes de recursos naturais. Entretanto, em muitos setores, ainda precisa importar máquinas, componentes, produtos químicos, tecnologias e insumos necessários para transformar esses mesmos recursos.
Portanto, possuir matéria-prima não significa automaticamente possuir soberania industrial.
Para alcançar maior autonomia, o Brasil precisa dominar etapas mais sofisticadas das cadeias produtivas. Além disso, precisa combinar indústria, ciência, infraestrutura, energia e tecnologia dentro de uma estratégia nacional de longo prazo.
Quando uma guerra distante chega ao preço brasileiro
Uma crise no Oeste da Ásia pode atingir o Brasil sem que exista qualquer confronto militar próximo ao território nacional.
Inicialmente, o aumento da tensão geopolítica eleva a percepção de risco. Consequentemente, seguradoras podem aumentar os custos relacionados à navegação em determinadas regiões.
Caso navios precisem alterar rotas, o tempo de viagem também aumenta. Com isso, cresce o consumo de combustível e, posteriormente, o custo do transporte.
Além disso, conflitos envolvendo grandes produtores ou importantes corredores energéticos podem pressionar os preços internacionais do petróleo e do gás.
O efeito, portanto, percorre uma longa cadeia até chegar ao Brasil.
Quando energia e transporte ficam mais caros, empresas pagam mais para produzir e movimentar mercadorias. Parte desse aumento pode chegar ao consumidor ou reduzir a margem das empresas brasileiras.
Assim, uma guerra regional pode transformar-se em inflação logística internacional.
Energia é apenas uma parte do problema
A vulnerabilidade não termina no petróleo.
O gás natural possui importância significativa para diferentes processos industriais e para a produção de determinados fertilizantes nitrogenados. Além disso, derivados de petróleo aparecem em cadeias petroquímicas, transportes e inúmeras atividades econômicas.
Consequentemente, um choque energético pode espalhar seus efeitos por vários setores.
Se a energia fica mais cara, determinados fertilizantes também podem sofrer pressão. Se combustíveis e fretes aumentam, transportar produtos agrícolas se torna mais caro. Ao mesmo tempo, componentes industriais importados podem chegar ao país com custos maiores.
Portanto, segurança energética, segurança industrial e segurança alimentar estão cada vez mais conectadas.
O agronegócio brasileiro é poderoso, mas também possui vulnerabilidades
O agronegócio representa uma das maiores vantagens competitivas brasileiras.
O país conquistou posições importantes na produção e exportação de soja, milho, café, carnes, açúcar, celulose e diferentes produtos agrícolas. Além disso, o setor gera empregos, movimenta cadeias industriais e contribui significativamente para as exportações nacionais.
Entretanto, existe um paradoxo.
O Brasil possui enorme capacidade agrícola, mas depende fortemente do exterior para determinados insumos essenciais, sobretudo fertilizantes.
Em períodos de estabilidade internacional, essa dependência pode ser tratada apenas como uma questão comercial. Contudo, durante guerras, sanções ou interrupções logísticas, ela adquire uma dimensão estratégica.
Portanto, proteger o agronegócio também significa fortalecer determinadas capacidades industriais brasileiras.
Agricultura e indústria não são adversárias
Durante muito tempo, parte do debate econômico brasileiro colocou agricultura e indústria como setores concorrentes.
Essa oposição é cada vez menos compatível com a realidade.
Uma agricultura altamente produtiva depende de máquinas, fertilizantes, defensivos, sementes, biotecnologia, sensores, satélites, softwares, inteligência artificial, drones e sistemas avançados de logística.
Consequentemente, quanto mais tecnológico se torna o campo, maior se torna sua relação com a indústria.
O Brasil poderia utilizar justamente a escala de seu agronegócio para estimular novas cadeias industriais.
Máquinas agrícolas autônomas, drones, fertilizantes, bioinsumos, equipamentos de precisão, sensores e softwares representam mercados nos quais agricultura, ciência e indústria podem avançar juntas.
Portanto, fortalecer a indústria brasileira não significa enfraquecer o agronegócio. Pelo contrário, pode aumentar sua competitividade e reduzir vulnerabilidades externas.
A indústria de base volta a ser uma questão estratégica
Guerras prolongadas estão obrigando diversos países a reconsiderar a importância da capacidade produtiva doméstica.
No Brasil, esse debate deveria incluir setores como química, petroquímica, siderurgia, máquinas e equipamentos, eletrônica, energia, fertilizantes e tecnologias de defesa.
Entretanto, soberania industrial não significa produzir absolutamente tudo dentro do território nacional.
Essa seria uma interpretação equivocada.
Nenhuma grande economia contemporânea é completamente autossuficiente. Estados Unidos, China e países europeus também dependem de cadeias internacionais.
A diferença está na capacidade de identificar quais dependências representam riscos estratégicos.
O Brasil precisa decidir quais produtos deve produzir internamente, quais fornecedores precisa diversificar e em quais áreas deve manter capacidade tecnológica própria.
Essa estratégia permite combinar integração internacional com segurança econômica.
Eficiência não pode ser o único critério
Durante décadas, empresas organizaram suas cadeias produtivas principalmente em busca do menor custo.
Comprar determinado componente do fornecedor internacional mais barato parecia racional. Concentrar a produção em poucos países também poderia aumentar a eficiência.
Entretanto, crises recentes demonstraram que uma cadeia extremamente eficiente pode ser igualmente frágil.
Se um produto essencial depende de um único fornecedor, qualquer conflito pode interromper o abastecimento. Da mesma forma, se grande parte das importações depende de uma única rota marítima, uma crise regional pode provocar custos adicionais.
Por isso, empresas e governos passaram a considerar outra variável: resiliência.
O produto mais barato nem sempre representa a alternativa mais segura.
A China transformou indústria em instrumento de poder
A experiência chinesa oferece uma referência importante para esse debate.
Durante décadas, Pequim combinou abertura comercial, atração de investimentos estrangeiros, infraestrutura, formação profissional, crédito, ciência e política industrial.
Inicialmente, a China participou de etapas relativamente simples das cadeias produtivas internacionais. Posteriormente, começou a avançar para atividades mais sofisticadas.
Hoje, empresas chinesas disputam posições relevantes em veículos elétricos, baterias, telecomunicações, energia solar, inteligência artificial, equipamentos industriais e diversas tecnologias.
Essa trajetória demonstra algo importante.
A integração internacional chinesa não significou abandonar a construção de capacidades domésticas. Pelo contrário, Pequim utilizou o comércio internacional como instrumento para fortalecer sua própria estrutura produtiva.
A visão de Pequim sobre soberania industrial
Para a estratégia chinesa, crescimento econômico e capacidade industrial estão diretamente relacionados à segurança nacional.
Por isso, o país procura manter presença relevante em cadeias consideradas estratégicas. Além disso, investe pesadamente em infraestrutura, pesquisa, formação de profissionais e desenvolvimento tecnológico.
Isso não significa que a China tenha eliminado suas vulnerabilidades.
Entretanto, uma base industrial ampla oferece maior capacidade de adaptação quando o ambiente internacional se deteriora.
O Brasil não precisa copiar integralmente o modelo chinês. Contudo, pode aprender com um princípio fundamental: integração internacional funciona melhor quando o país também possui capacidade produtiva própria.
O Irã demonstra o custo da dependência sob sanções
A experiência iraniana oferece outra perspectiva.
Décadas de sanções restringiram o acesso do país a determinadas tecnologias, mercados e fontes de financiamento. Consequentemente, Teerã precisou desenvolver capacidades nacionais em áreas consideradas essenciais.
A indústria de defesa tornou-se um dos exemplos mais conhecidos.
Diante das dificuldades para adquirir livremente determinados sistemas estrangeiros, o país investiu em drones, mísseis e outras tecnologias militares.
Entretanto, a experiência iraniana também apresenta uma advertência.
Desenvolver autonomia depois que o acesso ao exterior já foi restringido pode ser extremamente caro.
Portanto, a lição para o Brasil não é buscar isolamento. É exatamente o contrário: construir capacidades estratégicas enquanto o país ainda possui amplo acesso aos mercados internacionais.
A Rússia enfrentou problema semelhante
As sanções impostas à Rússia, sobretudo depois da invasão da Ucrânia em 2022, também obrigaram Moscou a reorganizar diferentes cadeias econômicas.
O comércio foi redirecionado para novos mercados, fornecedores foram substituídos e sistemas financeiros alternativos ganharam importância.
Além disso, determinados setores intensificaram esforços para substituir importações.
Contudo, a experiência russa revelou novamente um problema fundamental.
Tecnologias complexas não são substituídas rapidamente.
Semicondutores, equipamentos industriais avançados, máquinas de precisão e diferentes componentes tecnológicos dependem de ecossistemas construídos ao longo de muitos anos.
Portanto, soberania industrial não pode ser improvisada quando a crise já começou.
O Brasil possui uma vantagem extraordinária
Apesar das vulnerabilidades, o Brasil parte de uma posição privilegiada.
O país possui território continental, grande mercado consumidor, água, alimentos, petróleo, minério de ferro, bauxita, níquel, lítio e diferentes minerais estratégicos.
Além disso, dispõe de enorme potencial hidrelétrico, eólico, solar e de biocombustíveis.
Poucas economias possuem simultaneamente tantos recursos.
Portanto, o principal desafio brasileiro não é encontrar riqueza natural.
É transformar essa riqueza em capacidade produtiva, tecnológica e industrial.
Exportar recursos naturais não deveria ser o final da cadeia
Existe uma diferença enorme entre extrair uma matéria-prima e dominar as tecnologias construídas a partir dela.
O lítio representa um bom exemplo.
Extrair o mineral gera valor econômico. Entretanto, processá-lo acrescenta outra etapa. Produzir materiais para baterias adiciona conhecimento e tecnologia. Fabricar células e sistemas de armazenamento aumenta ainda mais o valor agregado.
O mesmo princípio pode ser aplicado a outras cadeias.
Minério de ferro pode alimentar produtos siderúrgicos mais sofisticados. Petróleo pode sustentar cadeias petroquímicas. A agricultura pode estimular biotecnologia, bioinsumos e indústria alimentícia avançada.
Além disso, a biodiversidade brasileira pode alimentar uma bioeconomia baseada em ciência e produtos de maior valor.
Portanto, industrializar não significa abandonar as vantagens naturais brasileiras.
Significa transformá-las em vantagens tecnológicas.
Fertilizantes precisam entrar na estratégia nacional
A dependência brasileira de fertilizantes demonstra claramente como segurança industrial e segurança alimentar podem se encontrar.
O país importa parcela elevada dos fertilizantes utilizados pelo agronegócio. Consequentemente, problemas envolvendo grandes fornecedores, energia ou logística internacional podem pressionar os custos agrícolas.
Isso não significa que o Brasil precise produzir imediatamente todo o fertilizante que consome.
A estratégia pode combinar diferentes soluções.
Produção nacional economicamente viável, fornecedores diversificados, estoques estratégicos, pesquisa em novas tecnologias e maior eficiência no uso dos fertilizantes podem funcionar simultaneamente.
Dessa maneira, o país reduz riscos sem abandonar o comércio internacional.
Sem tecnologia, não existe verdadeira reindustrialização
Construir fábricas é importante, mas não suficiente.
Se equipamentos, softwares, componentes e propriedade intelectual continuarem totalmente concentrados no exterior, parte importante da dependência permanece.
Portanto, uma nova política industrial brasileira precisa estar diretamente conectada à ciência.
Universidades, centros de pesquisa, empresas, startups e instituições financeiras precisam participar desse processo.
Além disso, o Brasil precisa formar engenheiros, pesquisadores, técnicos e profissionais capazes de desenvolver e operar tecnologias avançadas.
Uma indústria sofisticada não nasce de uma fábrica isolada.
Ela nasce de um ecossistema de conhecimento.
Semicondutores mostram a dimensão do desafio
Praticamente toda economia moderna depende de semicondutores.
Automóveis, máquinas agrícolas, telecomunicações, equipamentos médicos, servidores, sistemas militares e inteligência artificial utilizam chips.
Consequentemente, essa cadeia adquiriu enorme importância estratégica.
O Brasil dificilmente precisa tentar competir imediatamente em todas as etapas mais avançadas da indústria mundial de semicondutores.
Entretanto, pode identificar segmentos nos quais possui mercado, capacidade científica e possibilidade real de desenvolvimento.
A soberania industrial precisa ser ambiciosa, mas também precisa ser racional.
Defesa também pode produzir tecnologia civil
A indústria de defesa não deve ser analisada apenas através da produção de armamentos.
Tecnologias militares frequentemente possuem aplicações civis.
Aeronáutica, radares, materiais avançados, satélites, comunicações, cibersegurança e inteligência artificial são exemplos.
O Brasil já possui competências importantes em algumas dessas áreas.
Portanto, preservar uma base industrial de defesa também pode contribuir para desenvolver conhecimento aplicado em outros setores da economia.
A questão central não é militarizar o desenvolvimento.
É utilizar tecnologias de uso dual para ampliar capacidades nacionais.
Energia pode ser uma vantagem industrial brasileira
Enquanto diferentes regiões enfrentam vulnerabilidades energéticas, o Brasil possui uma matriz relativamente diversificada.
Hidrelétricas, petróleo, biocombustíveis, energia eólica e energia solar oferecem uma combinação estratégica.
Além disso, a transição energética internacional pode abrir novos mercados.
Empresas interessadas em reduzir emissões procuram locais capazes de oferecer energia competitiva e relativamente limpa.
Consequentemente, o Brasil pode utilizar sua matriz energética como instrumento de atração industrial.
Entretanto, para aproveitar essa oportunidade, precisa combinar energia com infraestrutura, tecnologia, capital humano e segurança jurídica.
O Sul Global está buscando maior autonomia
As transformações geopolíticas também afetam outros países emergentes.
China, Índia, países africanos, Estados do Oriente Médio e economias do Sudeste Asiático procuram diversificar mercados, parceiros, fornecedores e mecanismos financeiros.
Nesse contexto, o chamado Sul Global ganha maior relevância.
Esses países não possuem necessariamente os mesmos interesses.
Contudo, muitos compartilham uma preocupação: reduzir vulnerabilidades diante de decisões tomadas por grandes centros de poder.
O Brasil pode aproveitar esse movimento para ampliar relações econômicas e tecnológicas.
O BRICS é uma ferramenta, não uma estratégia completa
O BRICS oferece ao Brasil acesso político e econômico a importantes mercados emergentes.
Além disso, pode facilitar investimentos, financiamento e novas parcerias.
Entretanto, participar do BRICS não substitui uma política industrial brasileira.
China, Índia e outros parceiros podem fornecer capital e tecnologia. Contudo, o Brasil precisa definir quais capacidades pretende desenvolver dentro de seu território.
Caso contrário, existe o risco de substituir antigas dependências por novas.
Portanto, relações com o Sul Global devem fortalecer a autonomia brasileira, e não apenas alterar a origem das importações.
O Brasil não precisa escolher entre Estados Unidos e China
A autonomia brasileira depende justamente da capacidade de manter diferentes canais abertos.
Estados Unidos continuam sendo relevantes para investimentos, tecnologia e comércio. A China possui enorme importância como parceiro comercial. A União Europeia também representa mercado, capital e tecnologia.
Ao mesmo tempo, Índia, países árabes, África e outros integrantes do Sul Global oferecem novas possibilidades.
Consequentemente, o Brasil não deveria organizar sua estratégia externa em torno da escolha de um único polo.
Quanto maior for sua rede de parceiros, maior tende a ser sua capacidade de negociação.
Soberania significa possuir opções
Essa talvez seja a definição mais importante.
Um país altamente dependente aceita determinadas condições porque possui poucas alternativas.
Um país com maior autonomia consegue negociar porque possui opções.
Portanto, soberania não significa fechar a economia.
Também não significa rejeitar investimentos estrangeiros.
Significa possuir capacidade suficiente para decidir o que produzir, o que importar, de quem comprar, para quem vender e quais tecnologias desenvolver internamente.
Nesse cenário, integração internacional deixa de ser sinônimo de dependência.
Passa a ser uma escolha estratégica.
O Brasil precisa pensar além do calendário eleitoral
Indústrias complexas não são construídas em poucos anos.
Uma cadeia de semicondutores exige tempo.
Uma estratégia de fertilizantes também.
Da mesma forma, formar engenheiros, desenvolver tecnologias e criar fornecedores nacionais são processos de longo prazo.
Portanto, uma política industrial consistente precisa sobreviver às mudanças de governo.
O país necessita de objetivos estratégicos que atravessem diferentes administrações, acompanhados por metas, indicadores e avaliações de resultado.
Sem continuidade, grandes projetos industriais podem permanecer permanentemente incompletos.
Quais cadeias deveriam receber atenção prioritária?
O Brasil precisa identificar objetivamente onde estão suas maiores vulnerabilidades e oportunidades.
Fertilizantes e indústria química merecem atenção devido à relação direta com a produção agrícola. Semicondutores e eletrônica são importantes porque atravessam praticamente toda a economia moderna.
Energia, armazenamento e tecnologias de transição energética também possuem grande potencial. Ao mesmo tempo, biotecnologia, saúde, defesa, cibersegurança, máquinas e transformação de minerais críticos podem integrar uma estratégia nacional mais ampla.
Entretanto, escolher setores prioritários não significa protegê-los indefinidamente.
Política industrial precisa gerar produtividade, inovação, conhecimento e competitividade.
Estado, empresas e universidades precisam atuar juntos
Nenhum desses atores conseguirá realizar sozinho uma transformação industrial.
O Estado pode coordenar políticas, melhorar infraestrutura, apoiar pesquisa, facilitar crédito de longo prazo e oferecer previsibilidade regulatória.
As empresas precisam transformar essas condições em inovação, produtividade e capacidade exportadora.
Universidades e centros de pesquisa, por sua vez, podem desenvolver conhecimento e formar profissionais.
Quando esses três ambientes permanecem separados, tecnologias desenvolvidas no país frequentemente não chegam ao mercado.
Portanto, aproximá-los é uma das condições fundamentais para uma nova política industrial.
O custo da dependência também precisa entrar na conta
Toda política industrial possui custos.
Entretanto, permanecer dependente também custa.
Quando fertilizantes aumentam de preço, existe um custo para o agronegócio.
Quando uma fábrica interrompe produção por falta de componentes, existe outro.
Quando o país exporta matéria-prima e posteriormente importa produtos sofisticados derivados dela, também existe uma diferença de valor agregado.
Consequentemente, o debate não deveria perguntar apenas quanto custa industrializar.
Precisa perguntar também:
quanto custa continuar vulnerável?
A instabilidade do Oeste da Ásia deve funcionar como alerta
O Brasil não controla as decisões tomadas em Teerã, Washington, Tel Aviv, Moscou ou Pequim.
Também não controla as principais rotas marítimas localizadas do outro lado do planeta.
Entretanto, pode controlar parte importante de sua preparação.
Pode diversificar fornecedores, fortalecer infraestrutura, desenvolver tecnologias e ampliar estoques estratégicos quando necessário.
Além disso, pode utilizar seu mercado interno para estimular novas cadeias produtivas.
Portanto, crises externas devem servir como alerta para vulnerabilidades internas.
O Brasil possui escala para buscar maior autonomia
Poucos países possuem um mercado interno superior a 200 milhões de habitantes e, simultaneamente, grandes reservas minerais, produção de alimentos, recursos energéticos e território continental.
Além disso, o Brasil possui universidades, centros de pesquisa e empresas reconhecidas internacionalmente em diferentes setores.
Portanto, o país não começa do zero.
O desafio está em conectar essas capacidades dentro de um projeto nacional.
Agronegócio, indústria, energia, ciência, defesa, infraestrutura e diplomacia não deveriam funcionar como políticas completamente separadas.
Quando trabalham de forma coordenada, podem aumentar significativamente o poder econômico brasileiro.
Conclusão: soberania industrial precisa ser construída antes da próxima crise
As guerras no Oeste da Ásia podem parecer distantes do cotidiano brasileiro. Entretanto, seus efeitos atravessam cadeias internacionais e podem chegar ao país através de energia, fertilizantes, fretes, seguros, componentes e tecnologias.
Consequentemente, a vulnerabilidade brasileira não depende apenas da distância geográfica em relação aos conflitos. Ela depende, sobretudo, da estrutura produtiva nacional.
O agronegócio continuará sendo uma das maiores vantagens competitivas brasileiras. Contudo, pode tornar-se ainda mais forte se o país desenvolver maior capacidade para produzir seus insumos, máquinas e tecnologias.
Da mesma forma, possuir grandes reservas minerais representa uma vantagem. Porém, transformar esses recursos em produtos industriais sofisticados gera muito mais conhecimento, empregos e autonomia.
A energia brasileira também oferece uma oportunidade extraordinária. Entretanto, precisa ser utilizada para sustentar novas cadeias produtivas e atrair atividades de maior valor agregado.
Ao mesmo tempo, relações com China, Estados Unidos, União Europeia, BRICS e demais países do Sul Global devem ampliar as opções brasileiras, e não criar novas dependências.
As experiências de Rússia e Irã demonstram como países pressionados externamente procuram desenvolver alternativas depois que a crise já começou.
O Brasil possui uma vantagem muito maior: pode preparar-se antes de ser obrigado a fazê-lo.
Portanto, soberania industrial não significa isolamento econômico. Significa produzir nacionalmente aquilo que é estratégico, importar aquilo que é economicamente racional e diversificar aquilo que não podemos controlar.
Em um mundo marcado por guerras prolongadas, sanções e fragmentação geopolítica, essa capacidade deixa de ser apenas uma questão industrial.
Ela se transforma em uma política de desenvolvimento, segurança e soberania nacional.
O Brasil não pode controlar as guerras do mundo. Entretanto, pode decidir quanto deseja depender delas.
