Destruição de hospitais, colapso do saneamento, deslocamentos populacionais e falhas na vigilância epidemiológica podem transformar conflitos locais em ameaças à saúde global

Por Rodrigo Pinheiro

Quando uma guerra começa, a atenção internacional normalmente se concentra em territórios conquistados, capacidade militar, armamentos, energia e consequências econômicas.

Entretanto, existe uma dimensão menos visível dos conflitos modernos: a destruição das barreiras sanitárias que impedem doenças de se espalhar.

Hospitais deixam de funcionar. Sistemas de abastecimento de água são danificados. Redes de esgoto entram em colapso. Campanhas de vacinação são interrompidas. Laboratórios perdem capacidade operacional. Profissionais de saúde abandonam regiões inseguras e milhões de pessoas podem ser deslocadas.

Consequentemente, uma guerra não produz somente mortos e feridos pelo combate.

Ela também pode criar as condições para epidemias, agravamento de doenças crônicas, disseminação de microrganismos resistentes a medicamentos e profundas consequências para a saúde mental.

A própria Organização Mundial da Saúde considera saúde e paz diretamente relacionadas. Segundo a OMS, cerca de 80% de sua carga humanitária e 70% dos surtos aos quais responde ocorrem em situações frágeis ou afetadas por conflitos.

Portanto, compreender a guerra moderna exige também compreender sua dimensão biológica.

E isso conduz a uma pergunta importante:

um conflito regional prolongado poderia contribuir para o surgimento ou a disseminação de uma nova crise sanitária internacional?

A resposta exige cautela. Guerras não “criam automaticamente” novos vírus ou bactérias. Entretanto, podem destruir justamente os sistemas que detectam, contêm e tratam doenças antes que elas se transformem em crises maiores.

A guerra também destrói a infraestrutura invisível da saúde

Um sistema de saúde depende de muito mais do que hospitais.

Ele precisa de eletricidade, água potável, saneamento, laboratórios, medicamentos, transporte, profissionais capacitados, cadeias de frio para vacinas e sistemas de vigilância epidemiológica.

Além disso, depende de comunicação entre autoridades locais, governos nacionais e instituições internacionais.

Durante conflitos prolongados, várias dessas estruturas podem falhar simultaneamente.

Uma análise da OMS publicada em maio de 2026, envolvendo 19 países, mostrou que unidades de saúde localizadas em áreas de conflito eram seis vezes mais propensas a estar fora de operação. Quase uma em cada quatro havia sido diretamente afetada pelo conflito.

Esse dado ajuda a compreender por que a geopolítica sanitária precisa fazer parte das discussões sobre segurança internacional.

Quando um hospital é destruído, perde-se muito mais do que um edifício.

Perde-se capacidade de diagnóstico, vacinação, cirurgia, acompanhamento de gestantes, tratamento de doenças crônicas e identificação precoce de possíveis surtos.

Água e saneamento podem transformar-se em problemas epidemiológicos

Entre os maiores riscos está a destruição da infraestrutura de água e saneamento.

Bombardeios, falta de manutenção, interrupções elétricas e deslocamentos populacionais podem comprometer sistemas de tratamento de água e redes de esgoto.

Consequentemente, populações passam a utilizar fontes inseguras.

Segundo a OMS, a deterioração das condições de água, saneamento e higiene durante emergências pode provocar forte aumento de doenças diarreicas relacionadas à água.

O problema se torna ainda maior em campos de refugiados e abrigos improvisados.

Milhares de pessoas podem compartilhar espaços reduzidos, banheiros insuficientes e fontes limitadas de água.

Nessas condições, controlar doenças transmissíveis torna-se muito mais difícil.

Portanto, infraestrutura sanitária também é infraestrutura de segurança.

A guerra interrompe vacinação e prevenção

Outra consequência aparece quando programas regulares de saúde pública são interrompidos.

Vacinação infantil pode diminuir.

Acompanhamento pré-natal pode desaparecer.

Tratamentos contra tuberculose podem ser interrompidos.

Pacientes com diabetes, câncer, doenças cardiovasculares ou outras condições crônicas podem perder acesso aos medicamentos.

Além disso, sistemas de vigilância epidemiológica podem deixar de identificar rapidamente novos surtos.

A OMS destaca que conflitos e deslocamentos interrompem serviços essenciais, inclusive vacinação e saúde materna, enquanto aumentam a exposição das populações a doenças.

Portanto, mesmo doenças anteriormente controladas podem voltar a representar perigo.

O exemplo da Síria demonstra o efeito prolongado

Guerras deixam consequências sanitárias durante muitos anos.

Na Síria, mais de uma década de conflito e subinvestimento enfraqueceu profundamente o sistema de saúde.

Em 2026, a OMS ainda apontava cólera, sarampo e outras doenças com potencial epidêmico entre os problemas existentes no país, juntamente com infraestrutura danificada e grandes necessidades humanitárias.

Esse exemplo revela uma característica importante.

O impacto sanitário de uma guerra não termina necessariamente quando diminuem os bombardeios.

Reconstruir hospitais, formar profissionais, restabelecer vacinação, recuperar saneamento e reconstruir confiança institucional pode exigir anos.

O Sudão mostra como guerra, fome e doença podem convergir

O Sudão oferece outro exemplo contemporâneo.

Em abril de 2026, a OMS classificou a situação do país como a maior crise humanitária mundial naquele momento. Cerca de 34 milhões de pessoas necessitavam de assistência, enquanto aproximadamente 21 milhões estavam sem acesso adequado a serviços de saúde.

Além disso, surtos de doenças e desnutrição continuavam crescendo em áreas atingidas pelos combates.

Esse tipo de situação demonstra que crises sanitárias raramente possuem uma única causa.

Guerra enfraquece hospitais.

Deslocamento aumenta aglomerações.

Fome reduz resistência imunológica.

Falta de água favorece determinadas doenças.

Ao mesmo tempo, a vigilância epidemiológica perde capacidade.

Consequentemente, diferentes vulnerabilidades começam a se reforçar.

Hospitais também se tornaram vítimas das guerras

Existe ainda um problema particularmente grave: ataques contra a própria infraestrutura médica.

A OMS registrou 1.426 ataques contra serviços de saúde em contextos de emergência e fragilidade durante 2025. Esses episódios atingiram profissionais, pacientes, hospitais e outros recursos essenciais.

A situação da Ucrânia demonstra a dimensão do problema.

Em maio de 2026, a OMS informou ter verificado mais de 3 mil ataques contra a saúde desde o início da invasão russa em larga escala, abrangendo unidades de atendimento, ambulâncias, profissionais e armazéns médicos.

Além do dano imediato, existe um efeito secundário.

Cada instalação perdida reduz a capacidade de responder à próxima emergência.

Existem protocolos sanitários mesmo durante uma guerra

É importante fazer uma distinção.

Não é correto afirmar que guerras modernas acontecem simplesmente “sem protocolos sanitários”.

Existem normas internacionais.

O Direito Internacional Humanitário estabelece proteção para feridos, doentes, profissionais médicos, hospitais e transportes sanitários.

A própria OMS mantém mecanismos destinados a documentar ataques contra a saúde e defender a continuidade dos serviços médicos.

O problema é outro.

A existência da norma não garante seu cumprimento.

Quando hospitais são atacados, corredores humanitários são interrompidos ou equipes médicas não conseguem trabalhar, a distância entre aquilo que deveria acontecer e aquilo que ocorre no terreno pode ser enorme.

Portanto, uma das grandes questões da geopolítica sanitária é justamente garantir que os protocolos continuem funcionando em ambientes de extrema violência.

E as possibilidades de “novas bactérias e vírus”?

Esse ponto precisa ser tratado com rigor científico.

Guerras não fazem surgir deliberadamente “novos vírus” simplesmente porque hospitais foram destruídos.

Além disso, não existe fundamento para presumir automaticamente que um surto ocorrido durante um conflito tenha origem artificial ou militar.

Entretanto, guerras podem criar condições favoráveis para emergência, reemergência, evolução e disseminação de agentes infecciosos.

Isso acontece por diferentes mecanismos.

Quando milhões de pessoas são deslocadas, microrganismos podem alcançar novas populações.

Quando vacinação diminui, doenças anteriormente controladas encontram novos grupos suscetíveis.

Quando saneamento colapsa, patógenos transmitidos pela água encontram condições favoráveis.

Além disso, quando sistemas de vigilância deixam de funcionar, um surto pode circular por mais tempo antes de ser identificado.

Portanto, o risco real não precisa envolver qualquer cenário de ficção científica.

Pode começar simplesmente com uma doença conhecida encontrando um sistema de saúde destruído.

Microrganismos também evoluem durante crises

Vírus e bactérias estão permanentemente sujeitos a processos evolutivos.

Mutações ocorrem naturalmente.

Quanto maior a circulação de determinado agente, maiores são as oportunidades para surgirem variantes.

Entretanto, isso não significa que toda mutação produza um microrganismo mais perigoso.

Na maioria das vezes, não produz.

Por isso, a preocupação científica está menos em imaginar um “supervírus da guerra” e mais em evitar grandes cadeias de transmissão sem vigilância adequada.

Quanto mais rapidamente um surto é identificado, maior é a possibilidade de interromper sua expansão.

Em uma guerra, justamente essa capacidade pode desaparecer.

Resistência antimicrobiana merece atenção especial

Existe ainda outra ameaça: a resistência aos antimicrobianos.

Bactérias podem desenvolver resistência a antibióticos, especialmente quando esses medicamentos são utilizados de maneira inadequada.

Durante conflitos, sistemas médicos trabalham sob enorme pressão.

Pacientes com ferimentos complexos precisam de tratamentos prolongados. Hospitais podem enfrentar falta de medicamentos, problemas de higiene e dificuldades laboratoriais.

Além disso, deslocamentos podem transportar microrganismos resistentes entre regiões.

Consequentemente, a resistência antimicrobiana deve ser considerada parte da segurança sanitária internacional.

Ela não precisa produzir uma pandemia repentina para causar enormes danos.

Pode avançar silenciosamente.

Contaminação química também faz parte da geopolítica sanitária

Nem toda crise biológica começa com um microrganismo.

Conflitos podem danificar refinarias, instalações industriais, depósitos de combustível, redes de água e outras infraestruturas.

Incêndios de grandes proporções podem lançar poluentes no ambiente.

Além disso, destruição urbana produz poeira e partículas potencialmente nocivas.

Água e solo também podem sofrer contaminação.

Portanto, a saúde ambiental precisa fazer parte da análise dos conflitos modernos.

Os efeitos podem aparecer imediatamente ou permanecer durante anos.

A destruição ambiental atravessa fronteiras

Ar, água e ecossistemas não respeitam fronteiras políticas.

Determinados poluentes podem viajar pela atmosfera.

Rios atravessam diferentes territórios.

Pessoas deslocadas atravessam fronteiras.

Animais também se movimentam.

Consequentemente, uma emergência ambiental localizada pode adquirir dimensão regional.

Esse é outro motivo pelo qual saúde pública e geopolítica estão cada vez mais conectadas.

Nenhum Estado consegue administrar sozinho todos os riscos sanitários produzidos por uma guerra extensa.

Saúde humana, animal e ambiental estão conectadas

A ciência contemporânea utiliza cada vez mais o conceito de Uma Só Saúde — One Health.

A ideia é relativamente simples.

Saúde humana, saúde animal e equilíbrio ambiental possuem relações profundas.

Mudanças ambientais podem alterar o contato entre seres humanos e animais.

Deslocamentos populacionais também podem modificar essas interações.

Além disso, destruição de habitats e sistemas de produção pode criar novas interfaces epidemiológicas.

Portanto, vigilância sanitária moderna precisa observar simultaneamente pessoas, animais e ambiente.

Essa abordagem torna-se ainda mais importante em regiões desestruturadas por conflitos.

Laboratórios em zonas de guerra exigem proteção

Outro ponto sensível envolve instalações laboratoriais.

Hospitais, universidades e laboratórios de saúde pública podem armazenar amostras biológicas para diagnóstico, pesquisa e vigilância.

Em situações de guerra, essas instalações precisam de planos de contingência.

Energia de emergência, armazenamento seguro, controle de acesso, descarte adequado e transferência de materiais podem ser necessários.

Entretanto, esse tema também exige responsabilidade comunicacional.

A simples existência de um laboratório em uma região de conflito não significa existência de programa de armas biológicas.

Confundir laboratórios civis com instalações militares pode alimentar desinformação justamente quando autoridades precisam compartilhar dados epidemiológicos.

Desinformação pode tornar uma crise sanitária ainda pior

Durante guerras, informação também se transforma em instrumento estratégico.

Rumores sobre epidemias podem produzir pânico.

Acusações sem evidências sobre armas biológicas podem aumentar tensões.

Ao mesmo tempo, governos podem minimizar problemas sanitários por razões políticas.

Consequentemente, confiança torna-se um recurso essencial.

OMS, autoridades sanitárias nacionais, universidades e instituições independentes precisam compartilhar informações verificáveis.

Sem confiança pública, campanhas de vacinação e medidas de controle podem perder eficácia.

Portanto, comunicação sanitária também é parte da defesa contra epidemias.

Saúde mental: a epidemia silenciosa da guerra

Existe ainda uma consequência que frequentemente recebe menos atenção.

A guerra produz trauma psicológico em enorme escala.

Bombardeios, perda de familiares, deslocamento, insegurança alimentar, violência e destruição da vida cotidiana podem provocar ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e outras condições.

Crianças representam um grupo particularmente vulnerável.

Entretanto, profissionais de saúde, soldados, refugiados e civis também podem carregar consequências psicológicas durante décadas.

Assim, reconstruir um país depois da guerra exige muito mais do que reconstruir pontes e hospitais.

É necessário reconstruir pessoas e comunidades.

A visão da OMS: não existe saúde sustentável sem paz

A posição institucional da OMS parte de uma relação direta entre saúde, estabilidade e paz.

Sua Global Health and Peace Initiative foi criada justamente para lidar com essa conexão.

Segundo a organização, conflitos podem interromper sistemas de saúde e cadeias de suprimentos médicos, provocar êxodo de profissionais, favorecer epidemias e ampliar fome e vulnerabilidade.

Em outras palavras, proteger hospitais não é apenas uma obrigação humanitária.

É uma medida de segurança sanitária.

Quando um sistema médico continua funcionando, ele protege inclusive países que estão fora do conflito.

Isso ocorre porque doenças detectadas rapidamente têm menor possibilidade de ultrapassar fronteiras.

Uma epidemia local pode tornar-se problema internacional

O mundo atual possui enorme conectividade.

Aeronaves atravessam continentes em poucas horas.

Mercadorias circulam entre portos diariamente.

Milhões de pessoas viajam internacionalmente.

Consequentemente, nenhum grande surto deve ser analisado apenas como problema local.

Isso não significa que toda epidemia inevitavelmente se transformará em pandemia.

Entretanto, significa que vigilância epidemiológica em um país protege também outros países.

Por isso, destruir a capacidade sanitária de uma região produz externalidades globais.

Responsabilidade sanitária também é responsabilidade internacional

Se conflitos podem gerar consequências além das fronteiras, existe uma responsabilidade coletiva.

As partes envolvidas precisam proteger instalações médicas.

Organizações internacionais precisam manter sistemas de vigilância.

Países vizinhos precisam compartilhar informações.

Além disso, ajuda humanitária precisa preservar água, saneamento, vacinação e atendimento médico.

Essas ações não são acessórios de uma negociação de paz.

Elas são mecanismos de prevenção de crises maiores.

Portanto, saúde pública deveria ocupar posição mais relevante nas discussões sobre segurança internacional.

O mundo de 2026 já enfrenta enorme pressão sanitária

A preocupação não é apenas teórica.

Para 2026, a OMS estima que aproximadamente 239 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária em meio a conflitos, choques climáticos e surtos de doenças.

A organização também aponta severas limitações financeiras na resposta a essas emergências.

Consequentemente, novas guerras não começam em um sistema internacional com capacidade sanitária ilimitada.

Elas surgem enquanto recursos humanitários já estão sob pressão.

Esse detalhe aumenta o risco.

Quanto mais crises simultâneas, mais difícil distribuir profissionais, medicamentos, vacinas e financiamento.

E onde o Brasil entra nessa discussão?

O território brasileiro está distante de grande parte das atuais zonas de guerra.

Entretanto, distância geográfica não representa imunidade sanitária.

A experiência recente demonstrou como uma emergência epidemiológica pode atravessar fronteiras rapidamente.

Além disso, o Brasil possui enorme circulação internacional de pessoas e mercadorias.

Portanto, preparação sanitária precisa fazer parte da estratégia nacional.

Não porque uma nova pandemia seja inevitável.

Mas porque a possibilidade de novas emergências continuará existindo.

O SUS é um ativo estratégico brasileiro

Nesse contexto, o Sistema Único de Saúde possui importância que ultrapassa a assistência médica cotidiana.

Uma rede nacional de saúde permite detectar padrões epidemiológicos, realizar campanhas de vacinação e coordenar respostas.

Além disso, instituições brasileiras de pesquisa e vigilância possuem experiência acumulada no enfrentamento de doenças infecciosas.

Portanto, fortalecer o SUS também significa fortalecer a segurança nacional.

Saúde pública não deveria ser analisada apenas como despesa social.

Ela também é infraestrutura estratégica.

O Brasil precisa fortalecer sua soberania sanitária

Existe ainda uma dimensão industrial.

Durante uma emergência internacional, diferentes países podem disputar medicamentos, vacinas, equipamentos médicos, reagentes laboratoriais e insumos farmacêuticos.

Consequentemente, dependência externa excessiva pode tornar-se vulnerabilidade.

O Brasil precisa preservar e ampliar capacidade nacional em áreas estratégicas.

Isso inclui produção de vacinas, medicamentos essenciais, equipamentos hospitalares, diagnósticos e determinados insumos farmacêuticos.

Também inclui pesquisa científica.

Assim como existe soberania energética e alimentar, existe soberania sanitária.

Vigilância epidemiológica precisa incorporar novas tecnologias

Preparação também depende de informação.

Sequenciamento genômico permite acompanhar variantes e agentes infecciosos.

Sensoriamento ambiental pode identificar determinados riscos.

Inteligência artificial pode ajudar a encontrar padrões em grandes conjuntos de dados.

Além disso, integração entre hospitais, laboratórios e autoridades pode acelerar alertas.

Entretanto, tecnologia não substitui profissionais.

Ela amplia sua capacidade.

Portanto, o Brasil precisa combinar inovação tecnológica com uma rede territorial robusta de saúde pública.

Fronteiras também são linhas de defesa epidemiológica

O Brasil possui uma das maiores fronteiras terrestres do planeta.

Além disso, mantém intensa circulação aérea e marítima.

Consequentemente, vigilância sanitária em aeroportos, portos e regiões fronteiriças possui importância estratégica.

Isso não significa simplesmente fechar fronteiras durante uma emergência.

Medidas desse tipo precisam de evidências científicas.

O objetivo é possuir capacidade para detectar riscos rapidamente e tomar decisões proporcionais.

Quanto melhor a informação, menor a necessidade de respostas improvisadas.

Preparação é muito mais barata do que improvisação

Esse talvez seja um dos maiores ensinamentos das crises sanitárias modernas.

Estoque estratégico custa dinheiro.

Laboratórios custam dinheiro.

Vigilância epidemiológica custa dinheiro.

Formação profissional também.

Entretanto, o colapso sanitário custa muito mais.

Além das vidas perdidas, epidemias interrompem trabalho, educação, turismo, comércio e cadeias produtivas.

Consequentemente, preparação não deveria ser interpretada apenas como gasto.

Ela é uma forma de seguro nacional.

O Brasil pode transformar saúde em instrumento diplomático

Existe também uma oportunidade.

O país possui tradição em vacinação, saúde pública e cooperação internacional.

Portanto, pode ampliar sua atuação em iniciativas sanitárias do Sul Global.

Parcerias com América Latina, África, BRICS e outras regiões podem envolver produção de medicamentos, treinamento, pesquisa e vigilância epidemiológica.

Isso fortalece a saúde global.

Ao mesmo tempo, amplia a presença diplomática brasileira.

Assim, ciência e saúde podem funcionar como instrumentos de cooperação internacional.

O grande desafio é impedir que uma guerra produza a próxima emergência sanitária

Guerras modernas demonstram que segurança militar e segurança sanitária não podem mais ser analisadas separadamente.

Quando hospitais deixam de funcionar, doenças ganham espaço.

Quando saneamento desaparece, contaminações aumentam.

Quando populações são deslocadas, sistemas de saúde ficam sobrecarregados.

Quando vacinação e vigilância são interrompidas, agentes infecciosos encontram novas oportunidades de circulação.

Além disso, quando informações epidemiológicas deixam de ser compartilhadas, o restante do mundo perde tempo precioso.

Portanto, proteger a saúde durante uma guerra também significa proteger populações que vivem muito longe dela.

Conclusão: a próxima crise global pode começar onde ninguém está olhando

As imagens mais visíveis de uma guerra são tanques, mísseis, soldados e cidades destruídas.

Entretanto, algumas das consequências mais perigosas podem ser silenciosas.

Um sistema de água que deixa de funcionar.

Uma campanha de vacinação interrompida.

Um laboratório incapaz de realizar diagnósticos.

Um hospital destruído.

Uma bactéria resistente que começa a circular sem monitoramento.

Ou um surto conhecido que permanece semanas sem ser detectado.

Nenhum desses acontecimentos significa automaticamente o nascimento de uma nova pandemia.

Contudo, todos reduzem as barreiras que normalmente impedem uma emergência local de crescer.

É justamente aí que biologia, história e geopolítica se encontram.

A OMS demonstra que grande parte das emergências sanitárias internacionais já ocorre em contextos frágeis ou afetados por conflitos. Ao mesmo tempo, ataques contra serviços de saúde continuam acontecendo em grande escala.

Portanto, saúde pública precisa ocupar espaço central nas discussões sobre guerra e segurança.

Para o Brasil, a lição é igualmente clara.

O país precisa fortalecer o SUS, ampliar vigilância epidemiológica, preservar capacidade científica, produzir insumos estratégicos e manter sistemas eficientes de resposta a emergências.

Além disso, precisa participar ativamente da cooperação sanitária internacional.

O Brasil não pode impedir sozinho que guerras ocorram.

Entretanto, pode preparar-se para que uma crise distante não encontre o país vulnerável.

Em um mundo conectado, proteger a saúde durante uma guerra não é apenas salvar quem está no campo de batalha. É impedir que o campo de batalha exporte sua crise para o restante do planeta.

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