A disputa por influência no Sul Global cresce enquanto China, Rússia e outras potências ampliam sua presença em regiões historicamente vinculadas ao Ocidente

Por Rodrigo Pinheiro

A ordem internacional atravessa uma transformação que vai muito além das guerras atualmente concentradas no Oeste da Ásia e na Europa. Enquanto Estados Unidos e seus aliados precisam distribuir atenção diplomática, recursos militares e capacidade política entre diferentes crises, outras potências procuram ampliar sua presença em regiões estratégicas da África, da América Latina e da Ásia.

Esse movimento não significa que os Estados Unidos estejam simplesmente abandonando essas regiões. Washington continua sendo uma potência econômica, financeira, tecnológica e militar central. Entretanto, o cenário internacional tornou-se mais competitivo, e nenhum país parece possuir atualmente a mesma capacidade de monopolizar as escolhas políticas e econômicas do Sul Global.

China, Rússia, Índia, países do Golfo e outras potências emergentes oferecem novas possibilidades de comércio, financiamento, infraestrutura, energia e cooperação. Como resultado, governos africanos e latino-americanos encontram mais alternativas para negociar seus interesses.

Essa transformação cria uma oportunidade histórica, mas também apresenta uma armadilha. Afinal, o Sul Global utilizará essa competição para conquistar maior soberania ou apenas substituirá antigas dependências por novas?

O mundo não está apenas trocando uma potência por outra

Uma interpretação simplificada da atual transformação internacional afirma que os Estados Unidos estariam perdendo influência enquanto a China ocuparia progressivamente o espaço deixado por Washington. Embora exista uma redistribuição evidente de poder econômico e político, a realidade é mais complexa.

O crescimento da China, da Índia e de outras economias asiáticas ocorre simultaneamente ao fortalecimento diplomático de países como Brasil, Arábia Saudita, Indonésia, Emirados Árabes Unidos e África do Sul. Além disso, diversas nações africanas procuram ampliar sua margem de negociação internacional.

Portanto, talvez estejamos diante não da simples substituição de uma hegemonia por outra, mas da formação gradual de um sistema com vários centros relevantes de poder. É justamente nesse ambiente que o conceito de multipolaridade ganha importância.

Para África e América Latina, essa transformação pode representar uma mudança histórica. Quanto maior o número de parceiros disponíveis, maior tende a ser a capacidade de negociação dos países que antes dependiam de poucas fontes de financiamento, tecnologia e comércio.

O Sul Global não é um bloco homogêneo

Apesar de aparecer frequentemente como uma unidade no debate internacional, o chamado Sul Global reúne países profundamente diferentes. Brasil e Argentina possuem prioridades próprias; Índia e China cooperam em algumas instituições enquanto competem em outras; países africanos apresentam diferentes modelos políticos, econômicos e diplomáticos.

Por isso, o Sul Global não deve ser interpretado como uma nova aliança geopolítica tradicional. Trata-se de um conjunto diverso de países que compartilham, em diferentes graus, o interesse por maior participação nas decisões internacionais, desenvolvimento econômico e redução de determinadas assimetrias existentes na ordem global.

Essa diversidade pode gerar dificuldades de coordenação, mas também oferece uma vantagem: esses países não precisam necessariamente seguir uma única potência. Pelo contrário, podem estabelecer relações diferentes conforme seus próprios interesses.

É exatamente nesse ponto que surge uma das maiores oportunidades da nova ordem internacional.

A verdadeira mudança está na quantidade de opções

Durante diferentes momentos do século XX, muitos países em desenvolvimento possuíam opções limitadas para obter capital, tecnologia, infraestrutura ou acesso aos grandes mercados internacionais. Atualmente, esse cenário mudou consideravelmente.

Os Estados Unidos continuam oferecendo tecnologia, investimentos e acesso a um enorme mercado consumidor. A União Europeia permanece fundamental para comércio, financiamento e tecnologia. Entretanto, a China tornou-se uma potência industrial e financeira global, enquanto a Índia cresce rapidamente e países do Golfo aumentam seus investimentos internacionais.

Além disso, mecanismos vinculados ao BRICS e instituições como o Novo Banco de Desenvolvimento ampliam o conjunto de alternativas disponíveis. Consequentemente, países africanos e latino-americanos conseguem negociar com um número maior de parceiros.

Essa competição pode aumentar significativamente o poder de barganha do Sul Global. Contudo, isso somente acontecerá se esses países souberem transformar competição externa em desenvolvimento interno.

A China compreendeu rapidamente o valor do Sul Global

Pequim construiu uma estratégia internacional fortemente baseada em comércio, infraestrutura, financiamento e integração produtiva. A Iniciativa Cinturão e Rota tornou-se uma das principais manifestações dessa política, envolvendo investimentos e projetos relacionados a portos, ferrovias, estradas, energia e telecomunicações.

Além da dimensão econômica, existe uma narrativa política importante. A diplomacia chinesa procura apresentar sua ascensão como diferente das antigas relações coloniais estabelecidas entre potências europeias e países em desenvolvimento. Nesse discurso, soberania, não interferência, desenvolvimento e cooperação de benefício mútuo ocupam posição central.

Essa linguagem possui forte capacidade de atração em diferentes regiões do Sul Global, sobretudo em países marcados pela experiência colonial e por relações historicamente assimétricas com as grandes potências.

Entretanto, os interesses chineses também precisam ser considerados. A China necessita de energia, alimentos, minerais, mercados consumidores e segurança para suas rotas comerciais. Portanto, sua política externa, assim como a de qualquer outra grande potência, também procura defender interesses nacionais.

A África tornou-se estratégica para Pequim

A presença econômica chinesa no continente africano cresceu significativamente nas últimas décadas. Empresas chinesas passaram a participar de projetos relacionados a mineração, energia, telecomunicações, transporte e infraestrutura.

Ao mesmo tempo, a importância estratégica da África cresce. O continente possui uma população jovem, mercados consumidores em expansão e grandes reservas de recursos naturais fundamentais para a economia contemporânea. Cobalto, cobre, manganês, petróleo, gás e diferentes minerais críticos aumentam seu peso geoeconômico.

Por isso, a relação entre China e África não pode ser compreendida apenas como uma busca chinesa por matérias-primas. Existe também uma disputa de longo prazo por mercados, infraestrutura, cadeias produtivas e influência diplomática.

Para os países africanos, porém, a questão mais importante não deveria ser simplesmente escolher entre China e Ocidente. O verdadeiro desafio consiste em determinar quanto desenvolvimento doméstico será produzido pelas relações com essas potências.

Infraestrutura pode gerar autonomia ou dependência

Uma ferrovia pode reduzir drasticamente os custos de transporte. Um porto moderno pode aumentar exportações, enquanto novas usinas podem fornecer energia necessária para industrialização. Portanto, investimentos externos em infraestrutura podem transformar a estrutura econômica de um país.

Contudo, a origem do financiamento representa apenas uma parte da equação. É necessário observar quem controla os projetos, quais empresas fornecem equipamentos, quanto conhecimento tecnológico permanece no país e quantos empregos qualificados são gerados localmente.

Também é fundamental analisar a sustentabilidade da dívida e a integração dos projetos com a economia nacional. Uma infraestrutura construída exclusivamente para transportar recursos naturais até portos exportadores pode produzir um resultado muito diferente daquela conectada a polos industriais e cadeias produtivas domésticas.

Assim, o investimento estrangeiro não deve ser avaliado apenas pelo seu tamanho. Sua qualidade e seus efeitos estruturais são igualmente importantes.

O perigo de trocar Washington por Pequim

Essa talvez seja a principal armadilha do atual processo de multipolarização. Criticar uma dependência histórica em relação aos Estados Unidos e, posteriormente, construir dependência excessiva da China não produziria verdadeira soberania.

O mesmo raciocínio vale para Rússia, União Europeia ou qualquer outra potência. Quando um país depende excessivamente de apenas um mercado, uma tecnologia, um financiador ou um fornecedor estratégico, sua capacidade de decisão fica limitada.

Por isso, a verdadeira multipolaridade precisa significar diversificação de relações. Quanto maior o número de parceiros econômicos, tecnológicos e diplomáticos disponíveis, menor tende a ser a capacidade de uma única potência impor condições.

Soberania, portanto, não está necessariamente em afastar os Estados Unidos ou aproximar-se da China. Está em possuir alternativas suficientes para negociar com ambos.

A Rússia utiliza instrumentos diferentes

A estratégia russa no Sul Global possui características diferentes da chinesa. Moscou não dispõe da mesma capacidade financeira e industrial de Pequim, porém possui ativos importantes em setores como energia, fertilizantes, mineração, defesa e tecnologia nuclear.

Além disso, relações estabelecidas durante o período soviético ainda possuem significado político em determinadas regiões africanas. A Rússia também utiliza intensamente uma narrativa de soberania nacional e resistência à hegemonia ocidental.

Esse discurso encontra receptividade em sociedades marcadas pelo colonialismo europeu e por intervenções externas. Entretanto, novamente, a narrativa política não deve substituir a análise econômica.

Uma parceria pode ser apresentada como alternativa ao Ocidente e, ainda assim, produzir relações assimétricas. Por isso, países africanos precisam avaliar qualquer cooperação externa a partir de seus próprios objetivos de desenvolvimento.

O discurso anticolonial voltou ao centro da geopolítica

A memória do colonialismo continua exercendo influência sobre a política africana. Fronteiras, instituições e estruturas econômicas do continente foram profundamente moldadas pelas antigas potências coloniais, e essas experiências permanecem presentes no imaginário político de diversas sociedades.

China e Rússia compreenderam a força desse sentimento e frequentemente apresentam suas relações com países africanos como parcerias baseadas em soberania e respeito mútuo. Esse discurso pode fortalecer sua presença diplomática.

Contudo, o verdadeiro teste ocorre na estrutura econômica criada por essas relações. Se países africanos continuarem exportando recursos naturais e importando produtos industrializados de maior valor agregado, parte da antiga lógica centro-periferia poderá permanecer.

O desenvolvimento exige mais do que encontrar novos compradores.

A África precisa transformar recursos em indústria

O continente africano possui recursos essenciais para diversas tecnologias contemporâneas. Minerais utilizados em baterias, eletrônicos, infraestrutura energética e equipamentos industriais estão presentes em diferentes países da região.

Entretanto, existe uma diferença enorme entre extrair uma matéria-prima e dominar sua cadeia produtiva. Minerar representa apenas uma etapa; refinar aumenta o valor agregado, produzir componentes amplia ainda mais esse valor e dominar tecnologia transforma completamente a posição de um país dentro da economia internacional.

Portanto, o verdadeiro despertar africano dependerá da capacidade de transformar riqueza natural em capacidade produtiva, científica e tecnológica.

A questão fundamental não é somente quem compra os recursos africanos, mas quanto da riqueza gerada permanece dentro da própria África.

A América Latina enfrenta o mesmo dilema

A situação latino-americana possui várias semelhanças. A região concentra petróleo, cobre, lítio, alimentos, água, biodiversidade e enorme potencial energético. Além disso, possui importantes mercados consumidores.

Entretanto, grande parte de sua inserção internacional continua vinculada à exportação de commodities. Nesse cenário, o crescimento econômico da China trouxe oportunidades extraordinárias, principalmente para países capazes de fornecer alimentos, energia e minerais.

Ao mesmo tempo, surge um risco estrutural. Se a América Latina simplesmente exportar matérias-primas para a Ásia e importar produtos industriais sofisticados, poderá preservar uma relação econômica semelhante à antiga estrutura centro-periferia, apenas substituindo o principal destino das exportações.

Por isso, ampliar comércio é importante, mas utilizar esse comércio para financiar transformação produtiva é ainda mais importante.

O Brasil está no centro dessa transformação

Nenhum país latino-americano representa melhor essa oportunidade do que o Brasil. O país possui território continental, população superior a 200 milhões de habitantes, grande mercado interno, capacidade agrícola, petróleo, minerais, biodiversidade e uma matriz elétrica com forte participação de fontes renováveis.

Além disso, mantém relações importantes com praticamente todos os grandes polos internacionais. A China ocupa posição central no comércio brasileiro, enquanto Estados Unidos e União Europeia continuam relevantes para investimentos, tecnologia e relações econômicas.

Brasil também mantém canais com Rússia, Índia, países africanos, Oriente Médio e demais integrantes do BRICS. Essa diversidade cria uma posição diplomática incomum.

O país não precisa necessariamente escolher um único polo. Pelo contrário, sua principal vantagem pode estar justamente na capacidade de conversar com todos.

A relação com a China precisa produzir transformação interna

A China tornou-se fundamental para a economia brasileira, especialmente como destino de commodities como soja, minério de ferro e petróleo. Essa relação gera receitas e amplia mercados, porém também apresenta uma questão estratégica.

Como transformar a demanda chinesa em desenvolvimento industrial brasileiro?

A resposta passa por investimentos produtivos. Empresas chinesas possuem forte capacidade em veículos elétricos, baterias, energia solar, equipamentos industriais, infraestrutura e telecomunicações, enquanto o Brasil possui mercado, recursos minerais, energia e capacidade científica.

Existe, portanto, complementaridade. Porém, o melhor resultado para o Brasil não está simplesmente em importar produtos chineses. Está em atrair fábricas, desenvolver fornecedores nacionais, ampliar pesquisa conjunta, formar profissionais e incorporar tecnologia.

Quando o investimento externo cria capacidade produtiva doméstica, ele pode contribuir para a soberania.

A visão de Pequim sobre a nova ordem multipolar

A diplomacia chinesa apresenta a transformação internacional como uma oportunidade para construir uma ordem mais representativa, na qual países em desenvolvimento possuam maior participação nas decisões globais.

Esse discurso se conecta às críticas históricas sobre a distribuição de poder em instituições como FMI, Banco Mundial e Conselho de Segurança das Nações Unidas. Para grande parte do Sul Global, ampliar representação nessas estruturas representa uma demanda antiga.

Entretanto, uma ordem verdadeiramente multipolar também precisa evitar a concentração excessiva de poder dentro do próprio Sul Global. Caso contrário, existiria o risco de substituir uma hierarquia por outra.

A multipolaridade somente será efetiva se produzir maior autonomia para vários países, e não apenas transferir influência de uma grande potência para outra.

O afastamento relativo dos EUA abre espaço para novos atores

Os Estados Unidos continuam profundamente presentes na economia e na política internacional. Portanto, não existe um abandono completo da África ou da América Latina.

Contudo, Washington precisa administrar simultaneamente diferentes prioridades estratégicas. Europa, Indo-Pacífico e Oeste da Ásia disputam atenção política, militar e diplomática. Em momentos de grandes crises internacionais, essa concentração pode abrir mais espaço para outros atores.

China procura ocupar parte desse espaço através de comércio e infraestrutura. Rússia utiliza energia, defesa e diplomacia. Índia amplia gradualmente sua presença, enquanto Turquia e países do Golfo também desenvolvem relações mais profundas com África e outras regiões.

Consequentemente, o que está surgindo não é exatamente um vazio. É um ambiente de competição crescente pela influência sobre o Sul Global.

O verdadeiro poder está em ser cortejado por vários lados

Para África e América Latina, essa competição pode ser extremamente vantajosa se for administrada corretamente. Em vez de escolher um único parceiro, países podem negociar simultaneamente com diferentes polos.

Um governo pode receber investimento chinês em infraestrutura, buscar tecnologia norte-americana, negociar com empresas europeias, ampliar comércio com Índia e atrair capital dos países do Golfo. Ao mesmo tempo, pode fortalecer relações econômicas com seus próprios vizinhos.

Quanto maior essa rede, maior tende a ser sua liberdade de decisão. Por isso, autonomia estratégica não significa isolamento, mas capacidade de diversificar alianças.

O melhor cenário para o Sul Global não é ser disputado por duas potências. É conseguir negociar com várias sem se tornar dependente de nenhuma.

A diplomacia de resistência precisa mudar

Durante décadas, a ideia de resistência no Sul Global esteve associada principalmente à oposição ao colonialismo e, posteriormente, à hegemonia norte-americana.

No século XXI, entretanto, esse conceito precisa evoluir. Resistência não deveria significar simplesmente rejeitar o Ocidente e aproximar-se automaticamente de seus concorrentes.

Uma política realmente soberana precisa permitir que determinado país coopere com Washington quando houver interesse, negocie com Pequim quando for vantajoso e mantenha relações com Moscou, Nova Déli, Bruxelas ou qualquer outro centro quando existirem benefícios concretos.

Em outras palavras, autonomia significa possuir capacidade de escolha.

O Brasil possui condições para atuar como ponte

Nesse ambiente, o Brasil apresenta características raras. O país participa do BRICS e do G20, mantém relações relevantes com China e Estados Unidos, possui vínculos históricos com a África e ocupa posição central na América do Sul.

Além disso, sua tradição diplomática valoriza multilateralismo, negociação e solução pacífica de controvérsias. Esses elementos podem permitir ao Brasil atuar como interlocutor entre diferentes partes da ordem internacional.

Entretanto, liderança não surge apenas de tamanho territorial ou tradição diplomática. Um país lidera quando consegue oferecer algo aos demais.

Portanto, o Brasil precisa transformar sua capacidade de diálogo em projetos concretos de desenvolvimento.

Liderança brasileira precisa produzir resultados

Se o Brasil pretende ampliar sua influência no Sul Global, precisa oferecer mais do que discursos sobre multipolaridade. Integração energética, infraestrutura, ciência, agricultura, saúde, educação, tecnologia e financiamento podem formar uma agenda concreta de cooperação.

A América do Sul deveria ocupar posição central nessa estratégia. O continente possui recursos extraordinários, porém ainda apresenta baixa integração física e produtiva.

Ferrovias, corredores bioceânicos, hidrovias, redes elétricas, infraestrutura digital e cadeias industriais regionais poderiam aumentar significativamente a competitividade da região.

Assim, liderança brasileira deixaria de ser apenas uma aspiração diplomática e passaria a produzir benefícios econômicos perceptíveis para os países vizinhos.

A América do Sul pode aumentar seu próprio poder geoeconômico

A região reúne petróleo, gás, lítio, cobre, minério de ferro, água, alimentos e biodiversidade. Entretanto, grande parte desses recursos ainda participa de cadeias produtivas globais de maneira fragmentada.

Uma integração regional mais profunda poderia alterar essa situação. Argentina, Bolívia e Chile possuem importantes reservas de lítio, enquanto o Brasil dispõe de mercado, indústria, energia e capacidade científica. Outros países possuem recursos complementares.

Em vez de simplesmente exportar matérias-primas individualmente, a região poderia desenvolver cadeias de maior valor agregado.

Essa integração aumentaria o poder de negociação da América do Sul diante de China, Estados Unidos, Europa e demais parceiros.

Brasil e África possuem espaço para uma nova aproximação

A relação com o continente africano também oferece grande potencial. Brasil e África estão conectados pelo Atlântico Sul e por profundos vínculos históricos e culturais.

Agricultura tropical, biocombustíveis, saúde pública, mineração, aviação, educação e energia representam áreas nas quais a cooperação pode crescer.

Além disso, o Brasil não carrega a mesma herança colonial europeia em sua relação diplomática com o continente. Essa característica pode facilitar determinados diálogos.

Contudo, vantagem simbólica não é suficiente. Para construir uma parceria relevante, o Brasil precisa apresentar projetos, investimentos, tecnologia e cooperação de longo prazo.

O Brasil pode construir uma linguagem própria

Cada grande potência apresenta uma narrativa internacional. A China enfatiza desenvolvimento, soberania e cooperação. Os Estados Unidos costumam destacar democracia, mercados e segurança. A Rússia utiliza fortemente discursos relacionados à soberania e à resistência à hegemonia ocidental.

O Brasil pode desenvolver uma abordagem própria, combinando desenvolvimento, soberania, democracia, redução da pobreza, segurança alimentar, sustentabilidade e multilateralismo.

Essa combinação pode possuir forte capacidade de diálogo com sociedades africanas e latino-americanas.

Entretanto, para que essa narrativa tenha credibilidade, precisa estar acompanhada de resultados internos. Um país que deseja defender desenvolvimento no exterior precisa demonstrar capacidade de produzir desenvolvimento dentro de suas próprias fronteiras.

O BRICS amplia as opções, mas não deve substituir o restante do mundo

A expansão do BRICS aumenta a capacidade de articulação entre economias emergentes. Além disso, instituições como o Novo Banco de Desenvolvimento oferecem fontes adicionais de financiamento.

Isso pode beneficiar o Brasil e outros integrantes do Sul Global. Contudo, seria um erro transformar o BRICS em substituto de todas as relações com Estados Unidos, Europa, Japão e demais economias desenvolvidas.

O interesse brasileiro está justamente na combinação dessas possibilidades. O país pode fortalecer o BRICS enquanto preserva relações econômicas e tecnológicas profundas com o Ocidente.

Multipolaridade significa ampliar opções, e não trocar um alinhamento automático por outro.

Existe uma armadilha financeira

O aumento da competição entre potências pode trazer grande volume de investimentos para África e América Latina. Entretanto, projetos mal estruturados podem produzir endividamento, dependência tecnológica e baixa integração com empresas nacionais.

Por isso, governos precisam desenvolver maior capacidade técnica para negociar contratos. Projetos de infraestrutura devem estimular fornecedores locais, gerar empregos qualificados e contribuir para cadeias produtivas nacionais.

Além disso, financiamentos precisam ser sustentáveis no longo prazo. O objetivo não deve ser apenas receber capital, mas utilizar esse capital para ampliar capacidade econômica doméstica.

Essa diferença separa investimento estratégico de simples dependência financeira.

Existe também uma armadilha tecnológica

Mesmo países com grande infraestrutura física podem permanecer dependentes se não dominarem tecnologias essenciais. Software, equipamentos industriais, semicondutores, sistemas digitais e propriedade intelectual possuem importância crescente.

Por isso, investimentos estrangeiros deveriam estar acompanhados de pesquisa, formação profissional e desenvolvimento científico.

Universidades, institutos tecnológicos, empresas e governo precisam participar desse processo.

Sem conhecimento próprio, um país pode possuir fábricas e infraestrutura, mas continuar dependendo de tecnologias desenvolvidas em outros centros.

E existe a antiga armadilha das commodities

África e América Latina possuem enorme riqueza natural. Contudo, essa vantagem pode tornar-se uma limitação quando países se acomodam na exportação de produtos de baixo valor agregado.

A história econômica demonstra que possuir recursos naturais não garante desenvolvimento. O verdadeiro diferencial aparece quando esses recursos alimentam cadeias industriais, científicas e tecnológicas.

O Brasil conhece bem esse desafio. Açúcar, ouro, café, borracha e, posteriormente, soja, minério e petróleo produziram importantes ciclos econômicos.

Entretanto, nenhum desses produtos resolveu automaticamente os problemas estruturais do país.

Por isso, possuir aquilo que o mundo deseja comprar representa uma vantagem. Transformar essa vantagem em indústria e conhecimento representa desenvolvimento.

A competição entre potências pode financiar essa transformação

Aqui está uma das maiores oportunidades brasileiras. China deseja mercado, alimentos, energia e recursos. Estados Unidos possuem interesse em preservar relações estratégicas na região. Europa busca parceiros para transição energética, enquanto Índia amplia sua demanda por alimentos, energia e minerais.

Ao mesmo tempo, países do Golfo possuem capital e interesse crescente em agricultura, infraestrutura e energia.

Isso coloca o Brasil em uma posição privilegiada para negociar. Em vez de oferecer simplesmente acesso a recursos e mercados, o país pode buscar contrapartidas relacionadas a investimentos produtivos, transferência tecnológica, pesquisa, infraestrutura e processamento local.

Quanto maior a competição entre parceiros, maior pode ser o poder de negociação brasileiro.

O erro seria transformar política externa em torcida

Grande parte do debate geopolítico contemporâneo tenta reduzir as escolhas a uma disputa binária: China ou Estados Unidos, BRICS ou G7, Ocidente ou Oriente.

Essa lógica não favorece o Brasil.

O interesse nacional brasileiro exige relações profundas com diferentes centros econômicos. Isso significa cooperar quando existe convergência e preservar autonomia quando surgem divergências.

O Brasil pode fortalecer relações com Pequim sem romper com Washington. Pode ampliar o BRICS sem abandonar Europa e Japão. Também pode cooperar com Rússia, Índia, África e Oriente Médio sem transformar essas relações em alianças automáticas.

Essa flexibilidade é uma das maiores vantagens diplomáticas brasileiras.

Autonomia não significa ausência de princípios

Diversificação também não significa neutralidade diante de qualquer acontecimento internacional. O Brasil possui princípios diplomáticos históricos relacionados à soberania, ao direito internacional, ao multilateralismo e à solução pacífica de controvérsias.

Esses princípios podem orientar posicionamentos sem obrigar o país a aceitar alinhamentos permanentes.

Portanto, autonomia estratégica significa preservar capacidade de decisão. O país pode assumir posições firmes quando necessário, mas essas decisões devem partir de seus próprios interesses e princípios.

Nenhuma potência externa deveria determinar antecipadamente como o Brasil deve se posicionar em todas as crises internacionais.

O Sul Global pode deixar de ser objeto e tornar-se sujeito

Durante grande parte da história moderna, África e América Latina foram frequentemente tratadas como territórios de disputa entre potências externas.

Hoje, essa lógica pode começar a mudar.

População, mercados consumidores, alimentos, energia, minerais estratégicos e capacidade diplomática aumentam progressivamente o peso dessas regiões. Entretanto, protagonismo internacional não será concedido por Washington, Pequim ou Moscou.

Ele precisará ser construído.

Para isso, países do Sul Global necessitam de instituições fortes, infraestrutura, educação, indústria, ciência e capacidade de negociação. Sem essas bases, continuarão sendo territórios disputados por grandes potências.

Com elas, poderão estabelecer suas próprias estratégias.

O chamado “vácuo de poder” é, na verdade, um espaço de competição

Por isso, a expressão “vácuo de poder deixado pelos EUA” funciona bem como provocação, mas precisa ser interpretada corretamente.

Não existe um espaço internacional vazio esperando a chegada de uma nova potência. Estados Unidos continuam presentes, enquanto China avança, Rússia procura preservar influência, Índia cresce e outras potências regionais ampliam sua atuação.

O que está ocorrendo é uma redistribuição gradual de influência.

Essa transformação pode beneficiar África e América Latina porque aumenta o número de parceiros interessados nessas regiões. Entretanto, somente países capazes de negociar estrategicamente conseguirão converter essa competição em autonomia.

Caso contrário, a disputa externa simplesmente criará novas formas de dependência.

O Brasil pode ajudar a construir uma multipolaridade mais equilibrada

O Brasil não possui a capacidade financeira chinesa, a projeção militar norte-americana ou o arsenal estratégico russo. Entretanto, possui outros ativos importantes: território, população, recursos naturais, mercado, capacidade agrícola, diplomacia e relações com diferentes regiões do mundo.

Além disso, consegue participar de fóruns distintos sem necessariamente transformar um deles em inimigo do outro.

Essa característica oferece espaço para uma diplomacia de articulação. O Brasil pode aproximar países, defender reformas institucionais, promover integração regional e ampliar a participação do Sul Global na governança internacional.

Porém, liderança não significa comandar. Significa criar condições para que outros países também encontrem vantagens na cooperação.

Conclusão: oportunidade ou armadilha dependerá das escolhas do Sul Global

O atual processo de transformação da ordem internacional oferece uma oportunidade extraordinária para África e América Latina. China, Rússia, Índia, Estados Unidos, Europa e potências do Golfo disputam mercados, recursos, alianças e influência. Como consequência, muitos países em desenvolvimento possuem hoje um conjunto de alternativas maior do que em diferentes períodos anteriores.

Entretanto, mais alternativas não produzem automaticamente mais soberania. Se países simplesmente substituírem uma dependência por outra, a multipolaridade mudará os atores sem modificar a estrutura. Exportar matérias-primas para um novo comprador, importar tecnologia de outro fornecedor ou contrair dívida com uma nova potência não representa necessariamente desenvolvimento.

A verdadeira transformação ocorrerá quando essas relações internacionais forem utilizadas para construir capacidades dentro dos próprios países. Indústria, ciência, infraestrutura, tecnologia, educação, energia e instituições fortes são os elementos que transformam recursos naturais e importância geográfica em poder nacional.

Para o Brasil, esse cenário oferece uma oportunidade especialmente relevante. O país possui relações com praticamente todos os grandes polos internacionais e não precisa transformar sua política externa em uma escolha entre Washington e Pequim. Sua maior vantagem está justamente em negociar com diferentes parceiros, fortalecer a América do Sul, aprofundar relações com a África e utilizar o BRICS sem abandonar outros espaços internacionais.

Assim, o verdadeiro despertar do Sul Global não acontecerá quando uma nova potência simplesmente ocupar o espaço antes dominado por outra. Ele acontecerá quando países africanos, latino-americanos e demais economias emergentes possuírem capacidade suficiente para negociar com todas elas sem entregar a nenhuma o poder de determinar seu futuro.

Para o Brasil, liderança no novo mundo multipolar não deve significar escolher um lado. Deve significar possuir força econômica, capacidade diplomática e autonomia suficientes para construir pontes entre vários lados — sempre colocando o desenvolvimento nacional no centro da estratégia.

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