Com uma das maiores reservas mundiais, o Brasil entra no centro da disputa entre China, Estados Unidos e outras potências. O desafio não é apenas extrair terras raras, mas dominar processamento, tecnologia e indústria

Por Rodrigo Pinheiro

Durante séculos, o poder das nações esteve associado ao controle de recursos estratégicos. Carvão alimentou a Revolução Industrial, petróleo tornou-se elemento central da geopolítica do século XX e, agora, a transição energética, a digitalização e a modernização militar colocam outro conjunto de materiais no centro das disputas internacionais: os minerais críticos e, particularmente, as terras raras.

Nesse cenário, o Brasil possui uma vantagem geológica extraordinária. O país detém uma das maiores reservas conhecidas de terras raras do planeta e aparece consistentemente como a segunda maior reserva mundial, atrás da China. Estimativas amplamente utilizadas situam os recursos brasileiros em aproximadamente 21 milhões de toneladas.

Entretanto, possuir minério não significa possuir poder. A China demonstrou isso ao construir uma cadeia que vai muito além da mineração. Pequim concentra cerca de 70% da produção e aproximadamente 90% da capacidade mundial de processamento de terras raras, justamente uma das etapas tecnologicamente mais complexas e economicamente estratégicas da cadeia.

É nesse ponto que surge o verdadeiro dilema brasileiro.

O Brasil utilizará sua riqueza geológica para construir uma indústria tecnológica própria ou continuará fornecendo recursos para que outras potências produzam os componentes de maior valor agregado?

A resposta poderá definir uma parcela importante da soberania econômica brasileira nas próximas décadas.

O que são as terras raras?

Apesar do nome, terras raras não são necessariamente elementos extremamente raros na crosta terrestre. A dificuldade econômica está principalmente em encontrar depósitos com concentrações adequadas, extrair os minerais e, sobretudo, separar os diferentes elementos de maneira tecnicamente eficiente e ambientalmente segura.

O grupo é composto por 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Suas propriedades magnéticas, ópticas, eletrônicas e catalíticas fazem com que pequenas quantidades desses materiais sejam fundamentais para tecnologias extremamente sofisticadas.

Portanto, sua importância não está necessariamente no volume utilizado. Está na dificuldade de substituí-los em determinadas aplicações.

Um equipamento pode conter apenas uma pequena quantidade de determinado elemento e, ainda assim, depender completamente dele para funcionar com o desempenho necessário.

Neodímio: um pequeno elemento com enorme importância industrial

Entre os exemplos mais conhecidos está o neodímio. Combinado principalmente com ferro e boro, ele permite produzir ímãs permanentes extremamente potentes.

Esses superímãs aparecem em motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e diferentes aplicações industriais. Consequentemente, o neodímio ocupa posição importante na eletrificação da economia.

À medida que veículos elétricos, automação e geração renovável avançam, aumenta também a importância estratégica de cadeias capazes de produzir ímãs permanentes de alto desempenho.

E justamente aí aparece um problema para países que possuem reservas, mas não dominam as etapas industriais seguintes.

Praseodímio, disprósio e térbio ampliam a importância estratégica

O praseodímio aparece em ligas especiais e também pode participar da fabricação de ímãs de alto desempenho. Essas aplicações alcançam setores como indústria aeroespacial, mobilidade elétrica e equipamentos tecnológicos avançados.

O disprósio possui importância particular porque pode melhorar o desempenho de determinados ímãs em temperaturas elevadas. Isso interessa a aplicações industriais, energéticas e de defesa nas quais estabilidade térmica é fundamental.

Já o térbio aparece em materiais magnéticos, dispositivos ópticos, fósforos e outras aplicações especializadas. Assim, a relevância das terras raras não depende de um único elemento, mas de um conjunto de propriedades que diferentes indústrias aprenderam a explorar.

Lantânio, cério, európio e gadolínio mostram a diversidade da cadeia

O lantânio possui aplicações em catalisadores, vidros especiais, óptica e outras tecnologias industriais. O cério, por sua vez, é amplamente utilizado no polimento de vidros e em processos catalíticos.

O európio ganhou importância por suas propriedades luminescentes e aparece em fósforos utilizados em diferentes dispositivos. Já o gadolínio possui aplicações importantes em saúde, especialmente em determinados agentes de contraste para ressonância magnética, além de usos tecnológicos e nucleares.

Portanto, reduzir terras raras simplesmente à produção de baterias seria um erro.

Esses elementos atravessam cadeias de energia, mobilidade, eletrônica, telecomunicações, saúde, indústria aeroespacial e defesa.

É por isso que sua importância deixou de ser apenas mineral e passou a ser geoeconômica.

O Brasil possui uma vantagem geológica rara

O território brasileiro reúne diferentes ambientes geológicos favoráveis à ocorrência desses minerais. Depósitos associados a complexos alcalino-carbonatíticos, argilas de adsorção iônica e minerais como monazita ajudam a explicar o potencial nacional.

Goiás e Minas Gerais aparecem entre as regiões de maior interesse, embora o potencial brasileiro seja mais amplo.

Entretanto, conhecer integralmente essa riqueza ainda representa um desafio. O próprio debate atual sobre minerais críticos ressalta a necessidade de ampliar levantamento geológico, pesquisa mineral e conhecimento do subsolo brasileiro.

Isso significa que a vantagem potencial do Brasil pode ser ainda maior do que aquilo que atualmente conseguimos transformar em produção econômica.

Mas reserva não é produção

Esse é provavelmente o conceito mais importante para compreender toda a discussão.

Possuir milhões de toneladas no subsolo não significa controlar o mercado.

É necessário encontrar depósitos economicamente viáveis, obter licenciamento, construir minas, realizar beneficiamento, separar quimicamente os elementos, produzir óxidos de alta pureza e, posteriormente, fabricar materiais e componentes.

A diferença entre essas etapas é enorme.

Exportar material pouco processado produz determinado nível de receita. Produzir óxidos separados agrega mais valor. Produzir metais e ligas aumenta novamente o domínio tecnológico. Fabricar ímãs permanentes e componentes avançados coloca o país em outra posição industrial.

Portanto, a questão brasileira não deveria ser simplesmente quanto conseguimos extrair.

Deveria ser quanto da cadeia conseguimos dominar.

A China compreendeu isso antes do restante do mundo

A posição chinesa não surgiu simplesmente porque o país possui grandes reservas.

Durante décadas, Pequim desenvolveu mineração, separação química, metalurgia, fabricação de ímãs, fornecedores industriais, conhecimento técnico e escala produtiva.

O resultado é uma concentração extraordinária nas etapas de processamento. Estimativas utilizadas em 2026 continuam apontando aproximadamente 90% da capacidade mundial nessa fase da cadeia.

Isso oferece à China um instrumento geoeconômico muito mais poderoso do que possuir apenas jazidas.

Um país pode descobrir terras raras amanhã.

Entretanto, não consegue construir imediatamente laboratórios, especialistas, processos químicos, fornecedores, plantas industriais e conhecimento acumulado durante décadas.

A verdadeira barreira de entrada é tecnológica.

Por isso o Brasil tornou-se estratégico para o Ocidente

Estados Unidos e seus aliados procuram reduzir a concentração das cadeias de minerais críticos na China. Nesse processo, países com grandes recursos minerais e estabilidade institucional tornam-se particularmente atraentes.

O Brasil naturalmente entra nessa equação.

Além das terras raras, o país possui diferentes minerais importantes para transição energética, indústria e novas tecnologias.

Consequentemente, o território brasileiro passa a ter significado que ultrapassa a mineração.

Torna-se parte da discussão sobre segurança das cadeias produtivas internacionais.

O interesse estrangeiro cresceu rapidamente

Em 2026, a disputa internacional pelos minerais brasileiros tornou-se ainda mais visível. Investidores estrangeiros passaram a observar com atenção projetos de terras raras, níquel, grafite e outros minerais críticos.

A Serra Verde, em Goiás, possui importância especial porque é atualmente a única operação comercial de terras raras em funcionamento no Brasil, segundo reportagens recentes sobre o setor.

Isso ajuda a explicar por que projetos brasileiros despertam interesse internacional.

Para os Estados Unidos e outras economias ocidentais, criar fornecedores fora da China é uma questão de segurança econômica.

Para o Brasil, porém, a prioridade precisa ser diferente.

A questão é utilizar esse interesse para construir capacidade industrial nacional.

O Brasil não pode transformar-se em um simples “almoxarifado mineral”

Existe um risco histórico evidente.

O Brasil conhece profundamente o modelo baseado em exportação de recursos naturais.

Durante diferentes períodos, açúcar, ouro, café, borracha, minério de ferro, soja e petróleo ocuparam posições fundamentais na economia.

Essas atividades geraram riqueza. Entretanto, exportar recursos naturais nunca garantiu automaticamente desenvolvimento tecnológico.

Com terras raras, repetir esse modelo seria particularmente problemático.

Se o Brasil extrair minerais e exportar produtos pouco processados enquanto outros países realizam separação, metalurgia, produção de ímãs e fabricação de equipamentos, a maior parcela tecnológica da cadeia permanecerá no exterior.

Nesse cenário, possuiríamos o recurso, mas não controlaríamos sua tecnologia.

As exportações brasileiras para a China revelam esse dilema

Os números de 2025 ajudam a compreender a transformação em andamento. No primeiro semestre daquele ano, as vendas brasileiras de produtos de terras raras para a China atingiram aproximadamente US$ 6,7 milhões, triplicando em relação ao valor comparável utilizado pelo relatório do Conselho Empresarial Brasil-China.

O crescimento chama atenção, mas o valor absoluto ainda é pequeno diante da escala do comércio bilateral entre Brasil e China.

Isso demonstra que o Brasil possui potencial extraordinário, porém sua participação econômica nessa cadeia ainda está em estágio inicial.

Portanto, o desafio não consiste simplesmente em multiplicar toneladas exportadas.

O objetivo deveria ser aumentar drasticamente o valor tecnológico incorporado a cada tonelada.

O minério vale menos do que o conhecimento aplicado sobre ele

Imagine uma cadeia simplificada.

O Brasil extrai o mineral e vende o concentrado. Outro país realiza a separação química, produz óxidos de elevada pureza, transforma esses materiais em ligas e fabrica ímãs permanentes.

Posteriormente, esses ímãs entram em motores elétricos, equipamentos industriais ou sistemas tecnológicos que podem ser vendidos novamente ao Brasil.

Nesse processo, a mesma matéria-prima atravessa diferentes etapas e acumula valor.

Quem domina as últimas etapas também domina conhecimento, empregos especializados, propriedade intelectual e capacidade estratégica.

Portanto, soberania mineral não significa impedir exportações.

Significa evitar que a exportação seja o final da nossa estratégia industrial.

Os Estados Unidos enxergam o Brasil como peça da segurança mineral

Para Washington, reduzir a dependência das cadeias chinesas tornou-se uma prioridade estratégica. Terras raras são utilizadas tanto em tecnologias civis quanto em sistemas relacionados à defesa e à indústria aeroespacial.

Consequentemente, fornecedores alternativos ganham importância.

Essa aproximação pode beneficiar o Brasil através de financiamento, tecnologia, mercado e investimento.

Entretanto, Brasília precisa negociar com clareza.

A segurança mineral norte-americana não é necessariamente igual ao interesse industrial brasileiro.

Os Estados Unidos desejam fornecedores confiáveis.

O Brasil precisa desejar algo adicional: tornar-se produtor de tecnologia.

É nessa diferença que está a negociação.

Investimento estrangeiro pode ser oportunidade, desde que exista contrapartida

Capital internacional será necessário para acelerar diversos projetos brasileiros.

Isso não representa automaticamente perda de soberania.

Pelo contrário, investimento estrangeiro pode financiar infraestrutura, mineração, plantas industriais, pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

Entretanto, o resultado depende das condições.

O Brasil pode utilizar incentivos públicos, financiamento e acesso às reservas para estimular processamento local, contratação de fornecedores brasileiros, pesquisa nacional e formação de profissionais.

Além disso, pode incentivar joint ventures e transferência tecnológica.

Nesse cenário, capital estrangeiro ajuda a construir capacidade brasileira.

O objetivo precisa ser chegar aos ímãs

Essa talvez seja a melhor maneira de resumir a política industrial necessária.

Não basta chegar à mina.

Precisamos avançar para o beneficiamento.

Depois, para a separação química.

Em seguida, para óxidos de elevada pureza, metais e ligas.

Finalmente, precisamos participar da fabricação de ímãs permanentes e componentes utilizados pela indústria.

Quanto mais etapas permanecerem no Brasil, maior será a geração de conhecimento e valor agregado.

Além disso, cria-se um ecossistema de fornecedores e profissionais que pode atender outros setores industriais.

A discussão sobre soberania avançou em 2026

O tema ganhou relevância política justamente porque o interesse internacional cresceu.

Em 2 de setembro de 2026, o Senado aprovou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e a criação de um Conselho Nacional para a Industrialização desses minerais. O texto aprovado enfatiza pesquisa, desenvolvimento tecnológico, mineração sustentável e industrialização, além de prever instrumentos de incentivo. A proposta segue para sanção presidencial.

Esse avanço é mais relevante para a análise atual do que a referência do material-base ao PL 1733/2026 como se a criação de uma estatal já fosse o eixo consolidado da política.

O debate legislativo evoluiu.

E a direção mais importante passou a ser justamente industrializar os minerais críticos no Brasil.

O Estado brasileiro começa a perceber o valor da cadeia

Outra mudança recente reforça essa direção.

Em agosto de 2026, o Conselho Monetário Nacional reduziu para 3% ao ano os juros de determinadas linhas do programa Brasil Soberano destinadas a investimentos e aquisição de máquinas e equipamentos na cadeia de minerais críticos e estratégicos.

As condições especiais alcançam empresas industriais e de base tecnológica envolvidas em beneficiamento, refino e transformação mineral dentro do Brasil.

Esse detalhe é importante.

A política deixa de olhar exclusivamente para a mineração e começa a incentivar as etapas industriais seguintes.

É justamente essa mudança que pode transformar vantagem geológica em vantagem econômica.

Brasil e Índia oferecem uma terceira possibilidade

Talvez uma das movimentações mais interessantes de 2026 tenha ocorrido fora da polarização entre Washington e Pequim.

Em fevereiro, Brasil e Índia assinaram um memorando de entendimento sobre cooperação em elementos de terras raras e minerais críticos. O acordo prevê cooperação, pesquisa, desenvolvimento, intercâmbio técnico e temas relacionados à mineração e tecnologia.

Essa aproximação possui grande significado estratégico.

A Índia também procura reduzir sua dependência das cadeias dominadas pela China e ampliar sua capacidade em minerais críticos.

Para o Brasil, isso cria uma alternativa interessante.

Não precisamos organizar nossa política mineral exclusivamente em torno da escolha entre Estados Unidos e China.

Diversificação é uma forma de soberania

O Brasil pode cooperar com empresas norte-americanas.

Pode manter relações comerciais com a China.

Pode desenvolver tecnologia com a Índia.

Também pode negociar com Europa, Japão, Coreia do Sul e outros países interessados em diversificar cadeias produtivas.

Quanto maior o número de parceiros, maior tende a ser nossa capacidade de negociação.

Portanto, a estratégia brasileira deveria evitar dependência excessiva de qualquer potência.

Isso vale para Washington.

Também vale para Pequim.

Soberania significa possuir opções.

A relação com a China precisa ser preservada

A China é o maior parceiro comercial do Brasil e possui profunda participação em setores importantes da economia brasileira.

Portanto, transformar terras raras em instrumento de alinhamento automático contra Pequim seria uma estratégia arriscada.

Além disso, a própria China possui conhecimento industrial que poderia participar de projetos brasileiros.

O Brasil não precisa aderir integralmente à estratégia norte-americana de contenção tecnológica chinesa para desenvolver sua própria cadeia mineral.

Pode negociar com ambos.

O objetivo brasileiro deve ser simples: maximizar desenvolvimento nacional.

A relação com os Estados Unidos também oferece oportunidades

Da mesma forma, seria equivocado rejeitar automaticamente capital e tecnologia norte-americanos apenas porque Washington possui interesses estratégicos.

Toda grande potência possui interesses.

A questão é se os interesses brasileiros conseguem ser incorporados aos acordos.

Se investimentos norte-americanos financiarem processamento dentro do Brasil, desenvolvimento tecnológico, fornecedores nacionais e produção de componentes, poderão contribuir significativamente para nossa industrialização.

A diplomacia brasileira precisa transformar competição internacional em poder de barganha.

O maior risco é a primarização

O cenário mais preocupante seria relativamente simples.

Empresas estrangeiras chegam.

Extraem minerais.

Realizam beneficiamento mínimo.

Exportam o material.

Outros países processam, desenvolvem tecnologia e fabricam os componentes sofisticados.

Depois, o Brasil importa os produtos industrializados.

Esse modelo reproduziria uma estrutura econômica conhecida.

Seríamos ricos em recursos, porém dependentes em tecnologia.

Por isso, uma política mineral sem política industrial seria incompleta.

Existe também um risco ambiental real

A industrialização das terras raras possui desafios ambientais relevantes.

A mineração e, principalmente, determinadas etapas de processamento podem produzir resíduos químicos e exigir grandes quantidades de água e reagentes.

Além disso, alguns depósitos podem estar associados a minerais contendo tório e urânio, o que exige controle técnico adequado.

Portanto, defender industrialização nacional não significa defender mineração sem regras.

É justamente o contrário.

Um país soberano precisa possuir capacidade para explorar seus recursos sem transformar determinadas regiões em zonas de sacrifício ambiental.

Comunidades locais precisam participar dos benefícios

Outro problema recorrente em economias extrativas ocorre quando a riqueza sai de determinada região enquanto os impactos ambientais permanecem.

Uma estratégia diferente precisa distribuir benefícios.

Municípios produtores devem receber infraestrutura.

Trabalhadores precisam de qualificação.

Universidades locais podem participar de pesquisa.

Fornecedores regionais devem entrar nas cadeias produtivas.

Além disso, monitoramento ambiental precisa acompanhar toda a operação.

Assim, mineração deixa de funcionar como enclave exportador e passa a integrar uma estratégia territorial de desenvolvimento.

A questão nuclear exige responsabilidade

A presença potencial de tório e urânio associados a alguns depósitos exige tratamento técnico rigoroso.

Isso não significa que toda mineração de terras raras seja automaticamente uma atividade radioativa de alto risco.

As características variam conforme o depósito.

Entretanto, quando radionuclídeos naturais estão presentes, resíduos e rejeitos precisam de gestão adequada.

Portanto, o Brasil precisa desenvolver simultaneamente capacidade mineral, química e ambiental.

Soberania tecnológica inclui capacidade de controlar os riscos da própria tecnologia.

O Brasil precisa formar especialistas

Existe ainda um gargalo menos visível.

Engenheiros químicos.

Geólogos.

Metalurgistas.

Especialistas em materiais.

Químicos.

Pesquisadores.

Técnicos industriais.

Sem capital humano, não existe cadeia tecnológica independente.

Por isso, universidades e institutos de pesquisa precisam fazer parte da estratégia desde o início.

Não basta financiar empresas mineradoras.

É necessário financiar conhecimento.

Universidades podem ser parte da política industrial

O Brasil possui universidades e centros de pesquisa capazes de participar desse esforço.

Entretanto, pesquisa acadêmica precisa encontrar caminhos para chegar à indústria.

Laboratórios podem desenvolver métodos de separação.

Pesquisadores podem estudar novos materiais.

Empresas podem transformar essas descobertas em processos industriais.

Além disso, programas públicos podem aproximar universidades, mineradoras, fabricantes de materiais e usuários finais.

Essa integração é fundamental porque a competição internacional pelas terras raras é, antes de tudo, uma competição por conhecimento acumulado.

O desafio não termina no processamento químico

Mesmo dominar a separação dos elementos não encerra a cadeia.

Depois vêm metalurgia, ligas especiais, pós magnéticos, ímãs permanentes e componentes.

Posteriormente, esses componentes entram em motores, geradores, equipamentos médicos, sistemas eletrônicos e tecnologias de defesa.

Portanto, uma política realmente ambiciosa deveria conectar minerais críticos a outros programas industriais brasileiros.

Mobilidade elétrica.

Energia eólica.

Indústria aeroespacial.

Defesa.

Eletrônica.

Equipamentos médicos.

Essa integração multiplica o valor estratégico dos recursos.

Terras raras podem ajudar na reindustrialização brasileira

O Brasil enfrenta há décadas o desafio da perda relativa de participação da indústria de transformação na economia.

Os minerais críticos oferecem uma oportunidade para reconstruir algumas cadeias industriais através de uma vantagem que o país já possui: recursos naturais.

Entretanto, a estratégia precisa evitar repetir a industrialização baseada exclusivamente em proteção de mercado.

Competitividade também importa.

Empresas precisam produzir com qualidade, escala e capacidade de exportação.

O objetivo deveria ser transformar o Brasil em fornecedor global de produtos de maior valor agregado, e não apenas proteger uma cadeia incapaz de competir internacionalmente.

Precisamos pensar em décadas, não em mandatos

Uma mina pode levar anos para entrar em operação.

Uma planta de separação também.

Formar especialistas demora.

Construir fornecedores industriais demora ainda mais.

Portanto, uma estratégia para terras raras não pode mudar completamente a cada eleição.

O Brasil precisa de planejamento de longo prazo.

Regras ambientais claras.

Segurança jurídica.

Pesquisa.

Financiamento.

Infraestrutura.

Além disso, metas industriais mensuráveis.

Sem continuidade, outros países avançarão enquanto o potencial brasileiro continuará no subsolo.

O mundo já percebeu o valor do Brasil

O interesse crescente de investidores estrangeiros demonstra que a oportunidade é real.

Em agosto de 2026, fundos internacionais continuavam avaliando projetos brasileiros enquanto o debate político sobre controle estrangeiro e soberania ganhava intensidade.

Além disso, lideranças empresariais brasileiras passaram a tratar minerais críticos como uma das principais disputas econômicas desta geração.

Portanto, a questão já não é saber se haverá interesse externo.

Haverá.

A questão é determinar em quais condições o Brasil permitirá que esse interesse se transforme em exploração econômica.

O erro seria escolher entre nacionalismo improdutivo e extrativismo passivo

O debate não deveria ser reduzido a dois extremos.

De um lado, entregar indiscriminadamente os recursos a qualquer empresa estrangeira.

Do outro, bloquear capital e tecnologia externos em nome de uma soberania abstrata.

Existe um caminho intermediário muito mais racional.

O Brasil pode atrair investimentos enquanto estabelece objetivos nacionais claros.

Pode permitir participação estrangeira enquanto incentiva processamento doméstico.

Pode exportar enquanto desenvolve sua própria indústria.

Além disso, pode cooperar internacionalmente enquanto protege áreas estratégicas.

Essa combinação exige Estado competente, setor privado competitivo e política industrial inteligente.

A soberania está no domínio da cadeia

No século XX, possuir petróleo representava enorme poder estratégico.

Entretanto, países que dominavam refino, petroquímica, engenharia e tecnologia capturavam uma parcela ainda maior do valor.

Com terras raras, ocorre algo semelhante.

Possuir a jazida é importante.

Dominar a química é melhor.

Produzir materiais avançados é ainda mais valioso.

Fabricar componentes estratégicos transforma completamente a posição internacional do país.

Portanto, a pergunta não deveria ser apenas quantas toneladas existem no subsolo brasileiro.

Deveria ser:

quantas etapas da cadeia tecnológica o Brasil conseguirá controlar?

O “ouro do século XXI” precisa permanecer parcialmente transformado no Brasil

Chamar terras raras de “ouro do século XXI” é uma metáfora, mas ela ajuda a compreender a importância do momento.

Esses elementos participam de tecnologias que definirão setores industriais das próximas décadas.

O Brasil possui uma vantagem geológica extraordinária.

Entretanto, geologia sozinha não produz soberania.

A China demonstra que o verdadeiro poder está em combinar recursos, conhecimento, processamento, indústria e mercado.

O Brasil precisa aprender essa lição.

Conclusão: o Brasil não pode exportar o futuro junto com o minério

As terras raras colocam o Brasil diante de uma oportunidade que poucas nações possuem.

Temos grandes reservas, diversidade geológica, mercado interno, capacidade científica, energia e relações diplomáticas com praticamente todos os grandes polos internacionais.

Ao mesmo tempo, Estados Unidos, China, Índia, Europa e outras economias procuram garantir acesso a minerais estratégicos.

Essa competição aumenta o valor geopolítico brasileiro.

Entretanto, também aumenta o risco de decisões equivocadas.

Se o Brasil simplesmente acelerar a mineração para atender à demanda internacional, poderá aumentar exportações sem alterar sua posição estrutural na economia mundial. Continuaremos fornecendo recursos enquanto outros países dominam processamento, tecnologia e produtos sofisticados.

Por outro lado, fechar-se ao capital internacional também não parece uma solução eficiente. Desenvolver uma cadeia competitiva exigirá investimentos, tecnologia, cooperação e acesso aos mercados globais.

A estratégia brasileira precisa combinar os dois elementos.

Abrir-se para o mundo sem entregar o controle sobre o próprio desenvolvimento.

Isso significa utilizar capital estrangeiro para construir capacidade doméstica, exigir contrapartidas quando houver incentivos públicos, fortalecer pesquisa, desenvolver processamento químico, formar especialistas e avançar progressivamente para ligas, ímãs e componentes.

Também significa preservar relações com China, Estados Unidos, Índia e outros parceiros sem permitir que nenhum deles transforme os minerais brasileiros em instrumento de dependência política.

O Brasil não precisa escolher para qual potência entregará suas terras raras.

Precisa escolher qual país deseja tornar-se utilizando suas terras raras.

Se apenas extrairmos e exportarmos, teremos uma nova commodity.

Se dominarmos conhecimento, processamento e indústria, teremos uma plataforma de desenvolvimento.

A verdadeira riqueza não está somente nas 21 milhões de toneladas que repousam sob o território brasileiro. Está na capacidade de transformar essa geologia em ciência, tecnologia, indústria, empregos qualificados e soberania nacional.

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