
Como eventos extremos, degradação ambiental e ocupação de áreas vulneráveis podem ampliar os desastres no segundo semestre de 2026
Por Rodrigo Pinheiro
O Brasil entra no segundo semestre de 2026 diante de um cenário climático que exige atenção especial. As projeções oficiais mais recentes indicam manutenção e intensificação do El Niño ao longo do segundo semestre, com elevada probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão. Portanto, o debate já não deve se limitar à ocorrência do fenômeno. A questão central passa a ser como o país pretende reduzir seus impactos sobre cidades, infraestrutura, recursos naturais e, principalmente, vidas humanas.
Entretanto, o El Niño não atua isoladamente. Desmatamento, queimadas, ocupação de encostas, impermeabilização do solo, crescimento urbano desordenado e deficiência na infraestrutura de drenagem aumentam a vulnerabilidade territorial. Além disso, as mudanças climáticas podem potencializar eventos extremos. O próprio INPE destaca que o El Niño pode intensificar extremos associados ao aquecimento global.
Nesse contexto, sensoriamento remoto, inteligência geográfica, monitoramento meteorológico e sistemas de alerta antecipado deixam de representar apenas instrumentos científicos. Eles passam a integrar uma política concreta de proteção da população.
Assim, o desafio brasileiro consiste em abandonar uma cultura predominantemente reativa. Em outras palavras, não basta reconstruir depois da tragédia. É necessário identificar riscos, monitorar ameaças, preparar comunidades e, quando necessário, retirar preventivamente pessoas das áreas ameaçadas.
El Niño 2026: por que o segundo semestre exige atenção
O El Niño corresponde à fase quente do fenômeno El Niño-Oscilação Sul, o ENOS. Em termos gerais, ele ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial apresentam aquecimento anômalo. Consequentemente, modificam-se padrões de circulação atmosférica capazes de influenciar chuvas e temperaturas em diversas partes do planeta.
No caso de 2026, o cenário merece acompanhamento contínuo. Em junho, nota técnica conjunta elaborada por INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM apontou probabilidade superior a 95% de persistência das condições de El Niño ao longo do segundo semestre. O documento também indicou potencial para intensidade forte ou muito forte. Posteriormente, no fim de julho, novo boletim oficial apontou manutenção e intensificação do fenômeno.
Todavia, uma previsão climática não equivale à previsão exata de um desastre.
Esse ponto é fundamental.
Não é cientificamente adequado afirmar que determinada cidade sofrerá uma inundação catastrófica apenas porque existe El Niño. Da mesma forma, não se pode determinar antecipadamente o número de vítimas de um evento que ainda não aconteceu.
O que a ciência permite fazer é diferente. Ela permite identificar probabilidades, acompanhar indicadores, reconhecer áreas vulneráveis e preparar respostas antes que os extremos ocorram.
Portanto, prevenção exige trabalhar com risco, e não esperar pela certeza.
Variáveis ambientais: quando diferentes riscos se encontram
Um desastre raramente decorre de uma única variável. Pelo contrário, sua gravidade geralmente resulta da interação entre ameaça natural, exposição humana e vulnerabilidade territorial.
Uma chuva extrema sobre uma área preservada e pouco ocupada produz determinado impacto. Contudo, a mesma precipitação sobre uma encosta densamente ocupada e sem drenagem pode provocar consequências muito mais graves.
Da mesma maneira, uma estiagem prolongada pode produzir efeitos diferentes conforme a disponibilidade hídrica, a infraestrutura existente e a capacidade de resposta do poder público.
Assim, o problema não está somente no fenômeno meteorológico.
Está também no território sobre o qual esse fenômeno atua.
O efeito combinado entre El Niño e degradação ambiental
A degradação ambiental modifica a capacidade natural do território de absorver impactos.
Quando ocorre remoção da vegetação, por exemplo, alteram-se processos relacionados à infiltração da água, proteção do solo e evapotranspiração. Além disso, determinadas transformações no uso da terra podem favorecer erosão, escoamento superficial e aumento da vulnerabilidade ambiental.
Nas cidades, existe outro agravante. A expansão de asfalto, concreto e edificações impermeabiliza grandes superfícies.
Consequentemente, a água da chuva encontra menos áreas de infiltração. Ela escoa rapidamente para sistemas de drenagem que, muitas vezes, não suportam volumes extremos.
Por isso, uma tempestade intensa pode rapidamente se transformar em alagamento ou enxurrada.
Além disso, a redução da cobertura vegetal contribui para intensificar ilhas de calor urbanas. Portanto, planejamento ambiental e planejamento urbano não podem continuar separados.
Queimadas: um risco que ultrapassa a floresta
As queimadas também precisam entrar nessa equação.
Primeiramente, o fogo destrói vegetação e biodiversidade. Entretanto, seus efeitos ultrapassam a área diretamente atingida.
A fumaça pode percorrer grandes distâncias. Dessa maneira, partículas e poluentes atmosféricos alcançam centros urbanos distantes dos focos originais.
Consequentemente, aumenta a preocupação com pessoas vulneráveis, sobretudo crianças, idosos e indivíduos com problemas respiratórios.
Além disso, períodos de seca favorecem a propagação do fogo. Portanto, monitorar simultaneamente umidade, temperatura, cobertura vegetal e focos de calor torna-se indispensável.
É justamente nesse ponto que a inteligência geográfica assume importância estratégica.
A geografia do desastre: o risco não é distribuído igualmente
Eventos climáticos atingem um território socialmente desigual.
Essa afirmação ajuda a compreender por que uma mesma tempestade produz consequências tão distintas dentro da mesma cidade.
Famílias instaladas em regiões dotadas de drenagem, infraestrutura e edificações resistentes possuem maior capacidade de proteção. Em contrapartida, populações residentes em encostas instáveis, várzeas e áreas sujeitas a inundações enfrentam exposição significativamente maior.
Além disso, famílias de baixa renda possuem menor capacidade financeira para abandonar temporariamente uma residência, contratar transporte, reconstruir patrimônio ou permanecer em outro local durante uma emergência.
Portanto, vulnerabilidade climática também é vulnerabilidade social.
Esse entendimento precisa orientar as políticas públicas.
Encostas, várzeas e ocupação urbana desordenada
Durante décadas, muitas cidades brasileiras cresceram sem planejamento territorial compatível com sua expansão populacional.
Consequentemente, áreas inadequadas à ocupação passaram a receber moradias.
Encostas são um exemplo crítico.
Quando chuvas persistentes saturam o solo, sua estabilidade pode diminuir. Caso a região também apresente desmatamento, cortes irregulares do terreno ou drenagem inadequada, o risco aumenta.
As várzeas apresentam outro problema.
Elas fazem parte da dinâmica natural dos rios. Entretanto, quando são intensamente urbanizadas, uma cheia que anteriormente ocuparia uma área natural passa a atingir residências, ruas e equipamentos públicos.
Dessa forma, o desastre aparentemente “natural” revela decisões acumuladas de ocupação territorial.
O segundo semestre de 2026 e o conceito de estresse climático múltiplo
O cenário brasileiro deve ser analisado a partir da possibilidade de múltiplos riscos simultâneos.
Isso significa que o país pode enfrentar diferentes tipos de eventos em regiões distintas.
Enquanto determinada área pode apresentar excesso de precipitação, outra pode enfrentar estiagem. Paralelamente, ondas de calor e incêndios podem pressionar sistemas ambientais e de saúde.
Por essa razão, não existe uma única política de adaptação adequada para todo o território brasileiro.
O Brasil possui dimensões continentais. Portanto, a estratégia precisa considerar diferenças climáticas, geográficas, ambientais e socioeconômicas.
Além disso, as previsões precisam ser continuamente atualizadas. Afinal, modelos climáticos trabalham com probabilidades que evoluem conforme novas observações ficam disponíveis.
Do desastre anunciado à prevenção planejada
Durante muito tempo, a gestão pública brasileira concentrou enorme energia na resposta posterior ao desastre.
O problema dessa lógica é evidente.
Quando o Estado começa a atuar somente depois da inundação ou do deslizamento, parte do dano já ocorreu.
Casas foram destruídas. Estradas foram interrompidas. Pessoas ficaram isoladas. Em situações extremas, vidas foram perdidas.
Por isso, a política moderna de defesa civil precisa inverter prioridades.
Prevenir deve vir antes de responder.
O próprio Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil 2025–2035 trabalha com cinco eixos: prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação. O plano também busca integrar União, estados, Distrito Federal e municípios na gestão de riscos e desastres.
Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil 2025–2035
O PN-PDC representa um avanço institucional importante.
O plano possui vigência de dez anos e estrutura uma estratégia nacional para reduzir vulnerabilidades. Além disso, incorpora políticas de ordenamento territorial, saúde, meio ambiente, mudanças climáticas, educação, assistência social e infraestrutura.
Entre seus objetivos estão a ampliação do mapeamento de áreas de risco, o aperfeiçoamento dos sistemas de monitoramento e alerta e a integração de informações sobre desastres.
Consequentemente, existe uma base institucional para transformar informação científica em ação pública.
Entretanto, planos nacionais somente produzem resultados quando chegam ao território.
É no município que a sirene precisa funcionar.
É no bairro que a rota de fuga precisa existir.
É na comunidade que a população precisa conhecer o procedimento de evacuação.
União, estados e municípios: quem deve fazer o quê?
A prevenção exige coordenação federativa. Entretanto, coordenação não significa sobreposição de responsabilidades.
Cada esfera possui funções diferentes e complementares.
Governo Federal: inteligência nacional e capacidade de coordenação
A União precisa garantir integração dos sistemas nacionais de monitoramento.
Além disso, órgãos especializados devem compartilhar informações meteorológicas, hidrológicas, geológicas e ambientais.
Instituições como INPE, INMET, CEMADEN, CENSIPAM, ANA e Serviço Geológico do Brasil possuem capacidades distintas. Entretanto, quando essas informações são integradas, o poder de antecipação aumenta significativamente.
O Governo Federal também possui capacidade logística extraordinária para situações de grande escala.
Por isso, em emergências severas, pode ser necessário mobilizar recursos nacionais para apoiar estados e municípios.
Além disso, o Congresso Nacional possui papel relevante na estruturação orçamentária e legislativa necessária para prevenção e resposta.
Estados: transformar previsão regional em capacidade operacional
Os governos estaduais ocupam uma posição intermediária estratégica.
Eles precisam conectar informações nacionais às realidades municipais.
Nesse sentido, radares meteorológicos, centros estaduais de monitoramento e estruturas de Defesa Civil tornam-se essenciais.
Além disso, os estados podem fortalecer políticas de zoneamento ecológico-econômico e apoiar municípios que possuem pouca capacidade técnica.
Outro instrumento fundamental são os planos de contingência.
Esses documentos precisam ser atualizados regularmente. Afinal, o território muda.
Novas ocupações aparecem. Áreas anteriormente desabitadas recebem construções. Encostas sofrem intervenções. Rios são canalizados.
Portanto, um mapa de risco antigo pode deixar de representar adequadamente a realidade.
Municípios: onde a prevenção encontra a população
É na escala municipal que grande parte da prevenção precisa se materializar.
Primeiramente, as prefeituras devem conhecer detalhadamente suas áreas vulneráveis.
Isso exige mapeamento georreferenciado.
Além disso, o Plano Diretor precisa incorporar efetivamente a gestão de riscos.
Não faz sentido permitir novas construções em áreas classificadas tecnicamente como de risco muito alto.
Da mesma forma, bairros vulneráveis precisam possuir rotas de evacuação, pontos seguros e comunicação acessível.
Nesse contexto, os Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil podem aproximar planejamento técnico e população.
Afinal, uma tecnologia de alerta somente salva vidas quando a mensagem chega às pessoas e elas sabem como reagir.
Inteligência geográfica: antecipar para proteger
A revolução tecnológica alterou profundamente nossa capacidade de compreender o território.
Satélites observam continuamente grandes extensões do planeta.
Radares acompanham sistemas meteorológicos.
Estações medem precipitação, temperatura e outras variáveis ambientais.
Sensores monitoram rios.
Além disso, sistemas computacionais processam enormes volumes de dados.
Quando essas informações são reunidas em Sistemas de Informações Geográficas, surge uma ferramenta poderosa para gestão de riscos.
É possível cruzar, por exemplo:
- previsão de chuva;
- declividade do terreno;
- histórico de deslizamentos;
- cobertura vegetal;
- ocupação urbana;
- densidade populacional;
- condições do solo;
- nível dos rios;
- infraestrutura viária;
- localização de hospitais e abrigos.
Consequentemente, o gestor deixa de enxergar apenas o fenômeno meteorológico.
Ele passa a enxergar o risco territorial.
Sensoriamento remoto e monitoramento de precisão
O sensoriamento remoto permite acompanhar extensas regiões sem necessidade de presença física permanente.
Satélites podem detectar alterações na cobertura vegetal, focos de calor, expansão urbana e diferentes características da superfície.
Além disso, séries históricas permitem comparar mudanças ao longo do tempo.
Essa capacidade é especialmente relevante na Amazônia e em outras regiões de difícil acesso.
Contudo, a tecnologia não substitui equipes de campo.
Pelo contrário, as duas estruturas devem trabalhar juntas.
O satélite identifica uma anomalia. Em seguida, técnicos podem validar a situação local. Depois disso, sistemas de decisão podem avaliar o risco e determinar ações.
Portanto, tecnologia e presença territorial são complementares.
Inteligência Artificial aplicada à prevenção de desastres
A Inteligência Artificial amplia ainda mais essa capacidade.
Algoritmos podem processar simultaneamente milhares de variáveis.
Além disso, sistemas preditivos conseguem reconhecer padrões difíceis de identificar manualmente.
Imagine uma encosta monitorada continuamente.
O sistema recebe previsão de chuva, histórico pluviométrico, características geológicas, umidade do solo e dados topográficos.
Caso determinados indicadores ultrapassem limites previamente estabelecidos, o sistema pode elevar automaticamente o nível de risco.
Consequentemente, equipes técnicas recebem um alerta antes da ocorrência do desastre.
Esse intervalo pode representar horas.
Entretanto, em situações críticas, algumas horas podem representar a diferença entre evacuação segura e tragédia.
Sistemas de alerta antecipado: informação precisa no momento certo
Um sistema de alerta eficiente precisa cumprir três requisitos.
Primeiramente, precisa detectar o risco.
Em seguida, deve comunicar rapidamente a ameaça.
Finalmente, a população precisa saber o que fazer.
Se qualquer etapa falhar, todo o sistema perde eficiência.
Por isso, alertas podem utilizar diferentes canais.
SMS, mensagens de emergência, rádio, televisão, aplicativos, sirenes e comunicação comunitária podem operar simultaneamente.
Além disso, a mensagem deve ser simples.
“Risco alto de deslizamento. Saia imediatamente pela rota indicada e dirija-se ao ponto de apoio.”
Em uma emergência, clareza salva tempo.
Evacuação preventiva: retirar pessoas antes da tragédia
Talvez uma das decisões mais difíceis para qualquer autoridade seja determinar uma evacuação preventiva.
A razão é compreensível.
Evacuar centenas ou milhares de pessoas envolve transporte, abrigo, segurança, alimentação e assistência médica.
Além disso, previsões possuem margens de incerteza.
Entretanto, essa incerteza não pode justificar inércia diante de risco extremo.
Quando diferentes modelos convergem, sensores indicam deterioração e especialistas classificam determinada área como de alto risco, a evacuação preventiva pode ser a medida mais responsável.
O objetivo não é provocar pânico.
O objetivo é impedir mortes.
Como deve funcionar um deslocamento provisório estratégico
Uma evacuação não começa quando o ônibus chega.
Ela começa meses antes.
Primeiramente, autoridades precisam identificar as áreas críticas.
Depois disso, devem calcular quantas pessoas vivem nesses locais.
Em seguida, precisam definir rotas seguras.
Também devem localizar escolas, ginásios e outras estruturas capazes de funcionar temporariamente como abrigos.
Além disso, é necessário prever alimentação, água potável, medicamentos, banheiros, energia e segurança.
Pessoas com deficiência exigem atenção específica.
Idosos também.
Da mesma forma, crianças, gestantes e pessoas hospitalizadas demandam protocolos diferenciados.
Portanto, deslocamento preventivo exige planejamento logístico detalhado.
Infraestrutura resiliente: prevenir também significa reconstruir cidades
Tecnologia de previsão é indispensável. Contudo, ela não resolve sozinha problemas estruturais.
Uma cidade que alaga todos os anos precisa de obras.
Uma encosta permanentemente instável precisa de intervenção.
Uma comunidade instalada em área impossível de proteger pode precisar de reassentamento digno.
Portanto, adaptação climática também significa investimento em infraestrutura.
Entre as medidas possíveis estão sistemas modernos de drenagem, contenção de encostas, recuperação de vegetação, parques inundáveis e ampliação de áreas permeáveis.
Além disso, rios urbanos precisam ser tratados como componentes ambientais, e não simplesmente como canais para receber água e resíduos.
O papel da legislação
A prevenção também depende de normas.
O poder público precisa impedir novas ocupações em áreas tecnicamente incompatíveis com habitação.
Entretanto, simplesmente proibir não basta.
Políticas habitacionais precisam oferecer alternativas.
Caso contrário, famílias sem condições financeiras continuarão buscando terrenos mais baratos justamente onde o risco é maior.
Por isso, política ambiental, política urbana e política habitacional precisam funcionar conjuntamente.
Da mesma forma, crimes ambientais precisam receber fiscalização adequada.
Prevenir desmatamentos ilegais e queimadas criminosas também integra uma estratégia nacional de resiliência.
Uma governança climática baseada em ciência
O Brasil não precisa administrar riscos climáticos por improvisação.
O país possui universidades, centros de pesquisa, satélites, meteorologistas, geógrafos, engenheiros, geólogos e especialistas em defesa civil.
Além disso, o PN-PDC 2025–2035 estabelece uma arquitetura nacional de prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação.
O desafio está em transformar conhecimento técnico em política permanente.
Isso significa investir antes do desastre.
Significa atualizar mapas.
Significa treinar equipes.
Significa educar comunidades.
Sobretudo, significa compreender que recursos destinados à prevenção não representam desperdício.
Eles representam proteção patrimonial e humana.
O custo da omissão pode ser medido em vidas
Existe uma mudança conceitual que o Brasil precisa consolidar.
Desastres não devem ser tratados exclusivamente como fatalidades inevitáveis.
O fenômeno meteorológico pode ser natural. Entretanto, a dimensão da tragédia depende profundamente da vulnerabilidade existente.
Uma tempestade não escolhe onde existem casas irregulares.
Uma cheia não decide quais cidades impermeabilizaram suas várzeas.
Um deslizamento não define onde uma comunidade deveria ter sido reassentada.
Essas são questões relacionadas ao planejamento territorial.
Consequentemente, reduzir desastres também significa reduzir vulnerabilidades construídas historicamente.
O segundo semestre de 2026 precisa marcar uma mudança de paradigma
As projeções para o El Niño tornam o segundo semestre de 2026 um período particularmente importante para testar a capacidade brasileira de antecipação.
Entretanto, seria equivocado transformar previsão científica em discurso fatalista.
Não existe razão para afirmar antecipadamente que uma catástrofe específica acontecerá.
Existe, porém, razão suficiente para preparação.
Os boletins oficiais apontam intensificação do El Niño durante o segundo semestre. Portanto, União, estados e municípios precisam acompanhar continuamente os prognósticos e adaptar suas respostas conforme as condições evoluírem.
Essa distinção entre alarmismo e prevenção é fundamental.
Alarmismo anuncia tragédias como certezas.
Prevenção identifica riscos e trabalha para impedir que eles se transformem em tragédias.
Conclusão: antecipar é a forma mais eficiente de salvar vidas
O Brasil possui capacidade científica para conhecer melhor seus riscos do que possuía décadas atrás.
Satélites observam o território.
Radares acompanham tempestades.
Sensores monitoram rios.
Sistemas geográficos identificam populações vulneráveis.
A Inteligência Artificial amplia a capacidade de processamento.
Além disso, o Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil estabelece uma estrutura institucional voltada à prevenção e à redução de vulnerabilidades.
Portanto, o problema central já não é simplesmente saber se possuímos tecnologia.
A pergunta é: conseguiremos transformar informação em decisão antes que o desastre aconteça?
O El Niño de 2026 representa um importante teste dessa capacidade.
Por isso, o segundo semestre deve mobilizar monitoramento, planejamento urbano, defesa civil, infraestrutura e comunicação pública.
Quando os modelos apontarem risco elevado, autoridades precisam agir.
Quando determinada comunidade estiver ameaçada, o alerta precisa chegar.
Quando a permanência representar perigo extremo, o deslocamento preventivo deve ser considerado.
Sobretudo, o Brasil precisa compreender que a melhor operação de emergência é aquela que consegue impedir a emergência.
Prever, planejar, comunicar e proteger.
Esses quatro verbos devem orientar uma política moderna de resiliência climática.
Porque, diante de eventos extremos, a tecnologia somente cumpre sua função quando a informação chega a tempo de proteger vidas.
