
Autonomia estratégica, rivalidade com a China e aproximação com os Estados Unidos colocam Nova Déli no centro do debate sobre o futuro do BRICS
Por Rodrigo Pinheiro
A expansão do BRICS transformou profundamente a natureza do grupo. O que começou como uma articulação entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul tornou-se uma plataforma muito mais ampla, reunindo países com interesses econômicos, sistemas políticos e prioridades geopolíticas diferentes.
Entretanto, quanto maior o grupo se torna, mais difícil fica construir consenso.
Nesse cenário, nenhum país representa melhor as contradições internas do BRICS do que a Índia.
Nova Déli mantém relações estratégicas com Rússia e China dentro do grupo. Ao mesmo tempo, participa do QUAD ao lado de Estados Unidos, Japão e Austrália. Além disso, mantém relações econômicas profundas com o Ocidente e possui uma rivalidade histórica e territorial com Pequim.
Portanto, a Índia ocupa uma posição incomum.
Ela está simultaneamente dentro de estruturas associadas à ascensão do mundo multipolar e dentro de mecanismos estratégicos próximos aos Estados Unidos.
Essa postura costuma ser definida pela própria diplomacia indiana como autonomia estratégica.
Contudo, à medida que o BRICS se expande e incorpora países como o Irã, essa autonomia começa a produzir uma pergunta incômoda:
a Índia funciona como uma ponte entre diferentes polos de poder ou como um entrave à transformação do BRICS em uma força geopolítica mais coesa?
A resposta é decisiva não apenas para Nova Déli.
Ela também interessa ao Brasil e a todo o Sul Global.
A Índia não quer destruir o BRICS
Antes de analisar as divergências, é necessário afastar uma interpretação exagerada.
Não existem evidências sólidas de que a Índia esteja preparando sua saída do BRICS.
Pelo contrário, o país exerce a presidência do grupo em 2026 e continua promovendo reuniões, iniciativas comerciais e negociações entre os membros. Em agosto, por exemplo, Nova Déli conduziu a reunião dos ministros de Comércio do BRICS, que avançou em temas como financiamento para pequenas empresas, cadeias globais de valor mais resilientes e a Estratégia de Parceria Econômica do BRICS para 2030.
Portanto, a questão central não é uma suposta decisão indiana de abandonar o grupo.
O problema é mais sofisticado.
A Índia quer influenciar qual BRICS existirá no futuro.
Nova Déli prefere uma organização voltada à reforma da governança internacional, cooperação econômica, desenvolvimento e maior representação do Sul Global.
Entretanto, demonstra maior cautela diante da transformação do BRICS em um bloco explicitamente antiocidental.
É justamente aí que surgem as tensões.
Autonomia estratégica: a chave para compreender a Índia
A política externa indiana não pode ser compreendida através da lógica tradicional de alinhamento automático.
Nova Déli procura preservar liberdade de ação.
Isso significa cooperar com Washington em determinados assuntos, negociar com Moscou em outros e, simultaneamente, participar de organizações ao lado de Pequim.
Essa estratégia pode parecer contraditória.
Entretanto, do ponto de vista indiano, existe coerência.
A prioridade não é fidelidade permanente a determinado bloco.
A prioridade é o interesse nacional indiano.
Consequentemente, a Índia pode comprar energia russa, participar do BRICS, fortalecer relações com os Estados Unidos e integrar o QUAD sem considerar essas posições necessariamente incompatíveis.
Essa é a essência de sua autonomia estratégica.
O primeiro grande problema: Índia e China são parceiras e rivais
A principal tensão estrutural dentro do BRICS está na relação entre as duas maiores potências asiáticas do grupo.
China e Índia possuem populações gigantescas, economias de grande escala e ambições internacionais crescentes.
Além disso, ambas procuram ampliar sua influência no Sul Global.
Contudo, também possuem uma longa disputa fronteiriça e competem por influência na Ásia.
Portanto, Nova Déli observa com atenção qualquer movimento que possa aumentar excessivamente a liderança chinesa dentro do BRICS.
Essa preocupação cresceu com a expansão do grupo.
A expansão do BRICS mudou o equilíbrio interno
A entrada de novos membros ampliou significativamente o alcance político do BRICS.
Entretanto, também trouxe novos interesses para dentro da organização.
Irã e Emirados Árabes Unidos, por exemplo, possuem posições distintas em diferentes questões regionais.
Ao mesmo tempo, China e Rússia tendem a defender mudanças mais profundas na estrutura internacional dominada pelo Ocidente.
A Índia possui uma abordagem mais cautelosa.
Para Nova Déli, ampliar a representação do Sul Global pode ser positivo. Contudo, isso não significa necessariamente transformar o BRICS em uma coalizão de confronto com Estados Unidos e Europa.
Essa diferença é fundamental.
Nova Déli teme um BRICS excessivamente dependente de Pequim
A economia chinesa é muito maior do que a de diversos membros do grupo.
Além disso, a China possui enorme capacidade financeira, industrial e comercial.
Consequentemente, existe uma assimetria natural dentro do BRICS.
Para a Índia, permitir que essa assimetria se transforme em liderança política incontestável de Pequim seria problemático.
Nova Déli deseja um BRICS multipolar internamente.
Ou seja, não basta defender um mundo com vários centros de poder.
O próprio grupo também precisa possuir vários centros de influência.
Essa distinção ajuda a explicar grande parte do comportamento indiano.
O segundo problema: o fator QUAD
A participação indiana no QUAD adiciona outra camada à equação.
O Diálogo Quadrilateral de Segurança reúne Índia, Estados Unidos, Japão e Austrália.
Embora não seja uma aliança militar equivalente à OTAN, o grupo desenvolve cooperação em segurança marítima, tecnologia, infraestrutura e questões relacionadas ao Indo-Pacífico.
A China observa o QUAD com desconfiança.
Por outro lado, a Índia considera a cooperação com Estados Unidos, Japão e Austrália útil para equilibrar o crescimento do poder chinês na Ásia.
Portanto, Nova Déli participa simultaneamente de duas arquiteturas estratégicas muito diferentes.
No BRICS, senta-se ao lado de Pequim e Moscou.
No QUAD, coopera com Washington, Tóquio e Canberra.
Contradição ou estratégia?
À primeira vista, essa posição parece contraditória.
Contudo, para a Índia, ela oferece uma vantagem.
Nova Déli evita tornar-se excessivamente dependente de qualquer potência.
Se aprofundasse exclusivamente sua relação com Washington, poderia perder autonomia diante dos Estados Unidos.
Por outro lado, se se aproximasse excessivamente de Pequim e Moscou, poderia aumentar sua vulnerabilidade diante da China.
Portanto, a Índia procura equilibrar diferentes relações.
Essa política permite negociar simultaneamente com polos concorrentes.
Nesse sentido, a Índia talvez não seja uma exceção dentro do BRICS.
Ela pode representar justamente o tipo de comportamento que um sistema multipolar tende a produzir.
Índia e Rússia mostram como essa flexibilidade funciona
Existe um exemplo concreto dessa autonomia.
Apesar da aproximação estratégica entre Índia e Estados Unidos, Nova Déli manteve relações econômicas relevantes com Moscou.
Em 2026, mecanismos utilizando moedas nacionais já processavam grande parte do comércio bilateral entre Rússia e Índia. Segundo autoridades bancárias russas, rublos e rúpias chegaram a representar cerca de 96% das transações comerciais entre os dois países.
Portanto, seria incorreto afirmar que a Índia simplesmente bloqueia qualquer processo de redução da dependência do dólar.
A realidade é mais complexa.
Nova Déli aceita mecanismos alternativos quando eles atendem a interesses concretos.
Contudo, demonstra maior cautela diante de propostas que poderiam transformar a desdolarização em um projeto político de confronto direto com Washington.
A Índia não precisa escolher entre dólar e moedas nacionais
Esse comportamento revela uma diferença importante.
Reduzir o uso do dólar em determinadas transações não significa necessariamente desejar destruir a arquitetura financeira baseada na moeda norte-americana.
A Índia mantém profundas conexões com mercados financeiros ocidentais.
Além disso, o próprio Banco Central indiano continua administrando grandes reservas internacionais e intervindo regularmente no mercado de dólar para estabilizar a rúpia. Em setembro de 2026, as reservas indianas estavam em níveis recordes, próximas de US$ 730 bilhões.
Portanto, Nova Déli adota uma abordagem pragmática.
Pode ampliar o comércio em moedas nacionais e, simultaneamente, continuar profundamente integrada ao sistema financeiro internacional existente.
Essa postura contrasta com discursos mais confrontacionais sobre uma ruptura acelerada com o dólar.
Maio de 2026 expôs as fissuras do BRICS
As tensões internas ficaram particularmente evidentes durante a reunião de ministros das Relações Exteriores realizada em Nova Déli, em maio de 2026.
O encontro terminou sem uma declaração conjunta.
Entretanto, é importante corrigir uma interpretação: não foi simplesmente a Índia que bloqueou o documento.
As divergências mais profundas envolveram diferentes posições dos próprios membros sobre a guerra no Oeste da Ásia, especialmente entre Irã e Emirados Árabes Unidos.
O Irã pressionava por uma condenação mais explícita das ações de Estados Unidos e Israel.
Os Emirados, por sua vez, tinham posições próprias diante dos ataques iranianos e da segurança regional.
Consequentemente, Nova Déli não conseguiu construir consenso.
A ausência de declaração conjunta foi um sinal importante
Como presidente do BRICS em 2026, a Índia acabou divulgando uma declaração da presidência em vez de um comunicado consensual.
O documento reconheceu a existência de “diferentes visões” entre os membros sobre a situação no Oeste da Ásia.
Esse episódio revelou uma fragilidade estrutural.
O BRICS funciona por consenso.
Portanto, quanto maior o número de integrantes, maior tende a ser a dificuldade de produzir posições políticas comuns sobre guerras e crises internacionais.
Esse problema não é exclusivamente indiano.
Ele decorre da própria expansão do grupo.
O paradoxo da expansão
Durante anos, ampliar o BRICS parecia significar automaticamente aumentar seu poder.
Mais países representam mais população, mais território, mais recursos naturais e maior participação na economia mundial.
Entretanto, existe outro lado.
Mais integrantes também significam mais interesses nacionais.
Mais rivalidades.
Mais relações externas diferentes.
Além disso, aumentam as possibilidades de divergência.
Portanto, existe uma diferença entre peso econômico e coesão política.
Um grupo pode crescer economicamente enquanto se torna mais difícil de coordenar diplomaticamente.
Esse é um dos maiores desafios do BRICS atual.
BRICS+ contra um possível “núcleo duro”?
Nesse cenário, surge a possibilidade de diferentes velocidades dentro do grupo.
China, Rússia e Irã possuem fortes incentivos para acelerar a construção de mecanismos econômicos menos dependentes das estruturas ocidentais.
Entretanto, Índia, Brasil e África do Sul possuem relações extensas com Estados Unidos e Europa.
Esses países também defendem reformas da governança internacional.
Contudo, normalmente procuram fazê-lo sem romper completamente com as instituições existentes.
Assim, podem surgir duas tendências.
Uma busca transformação mais acelerada.
A outra prefere reforma gradual e equilíbrio diplomático.
Isso significa uma divisão inevitável?
Não.
Na realidade, dividir o BRICS entre um “núcleo antiocidental” e um grupo “pró-Ocidente” seria simplificar excessivamente sua estrutura.
A China possui relações comerciais gigantescas com economias ocidentais.
A Índia utiliza moedas nacionais com a Rússia.
O Brasil mantém relações profundas com China, Estados Unidos e Europa.
Além disso, Emirados Árabes Unidos mantêm fortes vínculos com Washington enquanto participam do BRICS.
Portanto, o grupo é melhor compreendido como uma organização de interesses sobrepostos, e não como uma aliança tradicional.
Essa característica produz fragilidade.
Entretanto, também produz flexibilidade.
O BRICS nunca foi uma OTAN do Sul Global
Essa distinção é essencial.
A OTAN possui compromissos formais de segurança coletiva.
O BRICS não.
Também não existe política externa única, exército conjunto ou obrigação automática de apoio entre os integrantes.
O grupo surgiu principalmente como plataforma de coordenação econômica e política.
Posteriormente, ampliou sua agenda.
Portanto, exigir do BRICS a mesma disciplina existente em uma aliança militar significa avaliar a organização por um critério inadequado.
Sua força está justamente em conseguir reunir países que, em vários outros assuntos, discordam profundamente.
O consenso é simultaneamente força e fraqueza
O princípio do consenso possui uma função importante.
Ele impede que as maiores economias simplesmente imponham decisões aos membros menores.
Nesse sentido, protege a autonomia de cada integrante.
Contudo, o mesmo mecanismo pode produzir paralisia.
Se dez países precisam concordar sobre uma guerra complexa, basta uma divergência profunda para impedir uma posição comum.
Portanto, a expansão aumenta o poder representativo do BRICS, mas também torna sua governança mais difícil.
Esse dilema ficará cada vez mais importante.
A Índia pode ser o entrave
Existe uma interpretação segundo a qual Nova Déli funciona como freio.
Ao resistir à transformação do BRICS em um bloco mais explicitamente antiocidental, a Índia limita determinadas ambições de China e Rússia.
Além disso, sua relação com Washington e sua participação no QUAD produzem desconfiança.
Sob essa perspectiva, Nova Déli impediria o grupo de desenvolver uma identidade geopolítica mais clara.
Entretanto, existe outra leitura possível.
Talvez essa resistência seja justamente aquilo que impede o BRICS de se transformar em um bloco excessivamente ideológico.
A Índia também pode ser a ponte
A mesma característica que gera desconfiança pode produzir valor diplomático.
A Índia conversa com Washington.
Conversa com Moscou.
Também conversa com Pequim.
Mantém relações com Israel.
Além disso, possui interesses importantes no Golfo e no restante do Sul Global.
Consequentemente, Nova Déli consegue circular entre ambientes políticos que frequentemente se enfrentam.
Essa capacidade pode transformar a Índia em uma ponte.
Em vez de enfraquecer o BRICS, sua presença pode ampliar o alcance internacional do grupo.
Tudo depende de como essa autonomia será utilizada.
A verdadeira disputa é sobre o que o BRICS deve ser
Esse é o ponto central.
A divergência não ocorre apenas sobre China, Estados Unidos ou dólar.
Existe uma disputa sobre a própria identidade do grupo.
O BRICS deve tornar-se um bloco geopolítico?
Deve concentrar-se em desenvolvimento?
Precisa construir uma arquitetura financeira alternativa?
Deve confrontar instituições ocidentais ou reformá-las?
Além disso, deve emitir posições comuns sobre guerras internacionais?
Não existe consenso absoluto sobre essas perguntas.
Portanto, a crise atual pode ser interpretada como uma crise de crescimento institucional.
O Novo Banco de Desenvolvimento mostra outro caminho
Talvez o futuro do BRICS dependa menos de grandes declarações geopolíticas e mais de instituições capazes de produzir resultados concretos.
O Novo Banco de Desenvolvimento, o NDB, representa um exemplo.
Criado pelos membros do BRICS, o banco financia projetos de infraestrutura e desenvolvimento.
Sua importância está justamente em demonstrar que cooperação entre economias emergentes pode produzir instituições permanentes.
Para países do Sul Global, mecanismos desse tipo podem ampliar opções de financiamento.
Entretanto, isso não exige necessariamente destruir o FMI ou o Banco Mundial.
Pode significar simplesmente criar mais alternativas.
O Sul Global precisa de alternativas, não de uma nova dependência
Esse princípio deveria orientar o debate.
Se o BRICS apenas substituísse uma estrutura dominada por Washington por outra dominada por Pequim, grande parte de sua promessa de multipolaridade perderia sentido.
O objetivo de uma ordem multipolar deveria ser ampliar opções.
Mais fontes de financiamento.
Mais moedas disponíveis.
Mais parceiros comerciais.
Mais instituições.
Além disso, maior representação das economias emergentes.
Portanto, a preocupação indiana com a concentração excessiva de poder chinês não é necessariamente incompatível com o projeto do Sul Global.
Pode ser parte dele.
Uma fragmentação do BRICS enfraqueceria o Sul Global
Apesar dessas divergências, uma ruptura profunda teria consequências.
O BRICS oferece uma plataforma na qual grandes economias emergentes conseguem coordenar determinadas posições.
Além disso, o grupo amplia a pressão por reformas em instituições internacionais.
Se essa articulação se tornasse irrelevante, países em desenvolvimento perderiam um instrumento de negociação coletiva.
Entretanto, não seria correto afirmar que o BRICS é o único contrapeso possível ao G7.
O Sul Global é muito mais amplo.
Existem outras organizações, coalizões e fóruns multilaterais.
Ainda assim, um BRICS enfraquecido reduziria uma importante plataforma de coordenação.
O Brasil perderia espaço com uma ruptura
Para o Brasil, essa questão possui importância especial.
O BRICS ampliou a projeção diplomática brasileira ao colocar o país em uma mesa permanente com grandes economias emergentes.
Além disso, permite que Brasília dialogue simultaneamente com China, Índia, Rússia e outros integrantes.
Essa posição aumenta a visibilidade internacional brasileira.
Portanto, uma fragmentação profunda diminuiria um dos instrumentos utilizados pelo Brasil para ampliar seu poder de negociação.
Não significaria isolamento.
Contudo, reduziria uma plataforma importante.
O Brasil já demonstrou capacidade de equilíbrio
Durante sua presidência do BRICS em 2025, o Brasil procurou fortalecer a cooperação do Sul Global sem transformar o grupo formalmente em uma aliança antiocidental.
A Declaração do Rio reafirmou princípios como soberania, abertura, inclusão, cooperação e consenso. Além disso, defendeu uma ordem internacional mais representativa e reformas do sistema multilateral.
Essa abordagem se aproxima, em alguns aspectos, da lógica indiana.
Brasil e Índia desejam maior espaço para economias emergentes.
Entretanto, nenhum dos dois possui interesse evidente em abandonar relações importantes com Estados Unidos e Europa.
Isso cria uma área potencial de convergência.
Brasil e Índia podem funcionar como estabilizadores
Em vez de interpretar a Índia simplesmente como um problema, Brasília pode enxergar Nova Déli como parceira na construção de um BRICS mais equilibrado.
China e Rússia possuem enorme importância.
Entretanto, Índia e Brasil também representam grandes economias, democracias de escala continental e potências relevantes do Sul Global.
África do Sul acrescenta outra dimensão regional.
Consequentemente, fortalecer múltiplos centros internos pode impedir que o BRICS seja identificado exclusivamente com qualquer potência.
Isso aumenta sua legitimidade.
O Brasil não deveria ser obrigado a escolher um lado
Uma ruptura entre Índia e um eventual núcleo mais alinhado entre China, Rússia e Irã seria particularmente desconfortável para Brasília.
O Brasil possui interesses importantes com todos esses países.
A China é central para o comércio brasileiro.
A Índia representa uma economia gigantesca e crescente.
A Rússia possui importância em determinadas cadeias, inclusive de insumos agrícolas.
Além disso, o Brasil mantém relações tradicionais com Estados Unidos e União Europeia.
Portanto, escolher rigidamente um lado diminuiria a autonomia brasileira.
A melhor posição é justamente preservar canais.
O “não alinhamento ativo” ganha nova importância
A tradição diplomática brasileira sempre valorizou autonomia, multilateralismo e capacidade de diálogo.
Em um sistema internacional fragmentado, esses princípios podem adquirir ainda mais valor.
Não alinhamento não significa neutralidade absoluta.
Também não significa ausência de posicionamento.
Significa preservar liberdade para cooperar com diferentes polos conforme os interesses nacionais.
Nesse sentido, Brasil e Índia possuem um ponto de contato importante.
Ambos podem defender reformas da ordem internacional sem necessariamente aceitar uma divisão rígida entre “Ocidente” e “Oriente”.
A geoeconomia brasileira também depende dessa estabilidade
As consequências não seriam apenas diplomáticas.
O BRICS representa mercados relevantes para exportações brasileiras.
Além disso, China e Índia possuem enorme potencial de demanda.
O NDB oferece outra fonte de financiamento para projetos de desenvolvimento.
Portanto, maior estabilidade institucional pode beneficiar investimentos e planejamento econômico.
Contudo, é importante evitar outra simplificação.
Uma crise política no BRICS não significaria automaticamente o desaparecimento do capital chinês no Brasil.
Investimentos dependem de diversos fatores econômicos.
Ainda assim, deterioração institucional poderia reduzir algumas oportunidades de coordenação.
A Índia possui razões econômicas para permanecer
Esse é outro motivo pelo qual uma dissolução parece, atualmente, um cenário extremo.
O BRICS oferece à Índia acesso a uma plataforma global de grande visibilidade.
Além disso, permite a Nova Déli disputar influência com Pequim dentro do próprio Sul Global.
Sair do grupo poderia produzir o efeito contrário ao desejado.
A China permaneceria com enorme influência entre os membros.
A Índia perderia capacidade de moldar as decisões internamente.
Portanto, do ponto de vista estratégico, permanecer e disputar os rumos do BRICS pode ser mais racional do que abandonar a organização.
A presidência indiana de 2026 reforça essa interpretação
A atuação da Índia neste ano demonstra interesse em orientar o grupo para áreas pragmáticas.
Comércio, pequenas empresas, cadeias de valor, financiamento e desenvolvimento aparecem entre as prioridades.
A reunião ministerial de agosto avançou justamente nesses temas.
Portanto, Nova Déli parece procurar um BRICS funcional.
O desafio está em impedir que divergências geopolíticas bloqueiem a cooperação econômica.
Essa estratégia pode definir o futuro do grupo.
O maior risco não é a dissolução, mas a irrelevância
Organizações internacionais raramente precisam desaparecer formalmente para perder importância.
Elas podem continuar realizando reuniões.
Podem publicar documentos.
Também podem manter estruturas administrativas.
Entretanto, se deixam de produzir decisões relevantes, tornam-se progressivamente simbólicas.
Esse talvez seja o verdadeiro perigo para o BRICS.
Não uma saída dramática da Índia.
Mas uma situação na qual divergências constantes impeçam avanços concretos.
Nesse cenário, haveria BRICS no papel, porém com influência política muito menor.
A expansão precisa ser acompanhada por reforma institucional
Quanto maior o BRICS se torna, mais necessário será aperfeiçoar sua governança.
O consenso pode continuar sendo princípio fundamental.
Entretanto, talvez determinadas áreas precisem avançar através de mecanismos flexíveis.
Nem todos os países precisam participar de todas as iniciativas na mesma velocidade.
Alguns membros podem aprofundar pagamentos em moedas nacionais.
Outros podem priorizar infraestrutura.
Alguns podem cooperar em tecnologia.
Além disso, grupos menores podem avançar em determinadas agendas sem transformar cada divergência em crise institucional.
Essa flexibilidade pode evitar paralisia.
Um BRICS de geometria variável?
Essa possibilidade merece atenção.
Em vez de exigir uniformidade completa, o grupo poderia funcionar através de diferentes níveis de cooperação.
Países interessados em determinada iniciativa participariam dela.
Outros permaneceriam fora sem bloquear todo o processo.
Isso preservaria diversidade.
Ao mesmo tempo, permitiria avanços concretos.
A União Europeia já utiliza mecanismos semelhantes em algumas áreas, nas quais nem todos os membros participam exatamente das mesmas estruturas.
O BRICS poderá precisar desenvolver sua própria solução.
Ponte ou entrave? A resposta pode ser: os dois
A Índia realmente limita algumas ambições dentro do BRICS.
Sua rivalidade com a China impõe restrições.
Sua aproximação com os Estados Unidos produz desconfiança.
Além disso, sua cautela diante de determinadas agendas impede maior velocidade em alguns projetos.
Nesse sentido, Nova Déli pode funcionar como entrave.
Entretanto, exatamente as mesmas características permitem que a Índia mantenha canais com diferentes polos.
Isso pode impedir que o BRICS se transforme em um bloco fechado.
Nesse sentido, funciona como ponte.
Portanto, as duas interpretações não são necessariamente contraditórias.
O desafio brasileiro é transformar divergência em equilíbrio
O Brasil possui uma oportunidade diplomática importante.
Em vez de escolher entre Índia e China, pode trabalhar para preservar espaço para ambas.
Em vez de aceitar uma divisão rígida entre BRICS e Ocidente, pode defender cooperação com diferentes centros econômicos.
Além disso, Brasília pode concentrar esforços em agendas capazes de gerar consenso.
Infraestrutura.
Desenvolvimento sustentável.
Ciência.
Comércio.
Reforma das instituições multilaterais.
Financiamento.
Segurança alimentar.
Esses temas oferecem terreno para cooperação mesmo quando existem divergências geopolíticas.
Conclusão: o futuro do BRICS depende da capacidade de conviver com diferenças
A Índia não parece interessada em destruir o BRICS.
Também não parece disposta a permitir que o grupo adquira uma identidade definida exclusivamente por China, Rússia ou qualquer outro membro.
Essa posição produz tensões.
Entretanto, talvez revele algo mais profundo sobre a própria natureza da multipolaridade.
Um mundo multipolar não significa necessariamente a substituição de um bloco por outro.
Pode significar justamente a existência de países capazes de manter relações simultâneas com polos concorrentes.
A Índia representa esse comportamento de maneira quase perfeita.
Participa do QUAD com Estados Unidos, Japão e Austrália.
Mantém relações econômicas relevantes com a Rússia.
Compete com a China.
Ao mesmo tempo, permanece no BRICS e preside o grupo em 2026.
Portanto, sua autonomia estratégica não é um detalhe.
É parte central de sua política externa.
O fracasso em produzir uma declaração conjunta na reunião ministerial de maio demonstrou que as fissuras do BRICS são reais. Contudo, as evidências disponíveis apontam principalmente para divergências entre diferentes membros sobre a guerra no Oeste da Ásia, especialmente Irã e Emirados Árabes Unidos, e não para uma decisão unilateral indiana de bloquear o grupo.
Essa distinção importa.
O maior risco para o BRICS não parece ser uma dissolução imediata.
É a paralisia decisória.
Quanto maior o grupo se torna, mais difícil será conciliar interesses nacionais distintos.
Por isso, o futuro dependerá menos da eliminação das diferenças e mais da capacidade de administrá-las.
Para o Brasil, existe uma oportunidade.
Brasília pode atuar como interlocutora entre China, Índia, Rússia e os novos membros. Além disso, pode defender um BRICS voltado à reforma da governança internacional sem transformá-lo em uma organização de confronto permanente com o Ocidente.
Essa posição preservaria a tradição brasileira de multilateralismo e autonomia.
Ao mesmo tempo, ampliaria o protagonismo do país no Sul Global.
No final, a disputa entre Índia e China não precisa necessariamente destruir o BRICS.
Ela pode obrigar o grupo a amadurecer.
Porque a força de uma ordem verdadeiramente multipolar não está em fazer todos pensarem da mesma maneira. Está em criar instituições capazes de funcionar mesmo quando seus integrantes discordam.
