O Despertar da Consciência: por que o conhecimento é a sua maior revolução

Como leitura, domínio da língua, história, pensamento crítico e compreensão da sociedade transformam indivíduos, fortalecem famílias e constroem cidadania Por Rodrigo Pinheiro Em uma época marcada por excesso de informação, respostas instantâneas e distrações permanentes, possuir acesso ao conhecimento não significa necessariamente compreender o mundo. Nunca houve tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade para separar fatos de opiniões, argumentos de slogans e conhecimento verdadeiro de conteúdo superficial. Nesse cenário, uma das maiores formas de transformação individual continua sendo extremamente antiga: aprender. Ler, estudar, observar, comparar, questionar e revisar as próprias certezas são atividades que ampliam a autonomia intelectual do indivíduo. O conhecimento não serve apenas para acumular informações. Ele modifica a maneira como uma pessoa interpreta a própria vida, compreende a sociedade e toma decisões. Por isso, o despertar da consciência não acontece quando alguém acredita ter encontrado todas as respostas. Ele começa justamente quando desenvolve maturidade suficiente para fazer perguntas melhores. Conhecer é descobrir que muitas certezas são provisórias. É reconhecer os próprios limites e, simultaneamente, perceber que esses limites podem ser ampliados. Nesse sentido, aprender não é sinal de fraqueza intelectual. Pelo contrário, a disposição para corrigir opiniões diante de novas evidências é uma das manifestações mais sofisticadas da inteligência humana. O conhecimento transforma o indivíduo porque transforma sua capacidade de escolher Toda decisão depende, em alguma medida, daquilo que conseguimos perceber. Quem compreende melhor determinada situação possui mais elementos para avaliar riscos, oportunidades e consequências. Isso vale para decisões profissionais, financeiras, familiares, jurídicas, políticas e pessoais. Uma pessoa que desconhece os próprios direitos, por exemplo, pode aceitar uma situação abusiva simplesmente porque acredita que não existe alternativa. Alguém que não compreende juros pode assumir uma dívida sem entender seu custo real. Um cidadão que não sabe como funcionam as instituições pode direcionar sua cobrança ao agente público errado ou aceitar explicações simplistas para problemas extremamente complexos. O conhecimento amplia a quantidade de alternativas visíveis. E quanto mais alternativas conseguimos enxergar, maior tende a ser nossa autonomia. Por isso, educação e liberdade possuem uma relação muito mais profunda do que normalmente se reconhece. Liberdade não significa apenas poder escolher. Significa também possuir instrumentos para compreender aquilo que está sendo escolhido. O cérebro humano não é um recipiente fechado Durante muito tempo, inteligência foi tratada quase como uma característica fixa. Algumas pessoas seriam naturalmente “inteligentes”, enquanto outras teriam capacidades limitadas. Hoje, porém, sabemos que aprendizagem envolve adaptação, prática, repetição, memória, atenção e construção gradual de habilidades. Isso não significa que todas as pessoas possuam exatamente as mesmas capacidades ou aprenderão com a mesma velocidade. Significa que o desenvolvimento intelectual não termina na infância nem pertence exclusivamente aos ambientes acadêmicos. Um adulto pode aprender outro idioma. Pode desenvolver matemática. Pode melhorar sua escrita. Pode estudar filosofia. Pode compreender economia. Pode aprender programação. Pode começar a ler literatura depois de décadas distante dos livros. Pode revisar ideias que carregou durante toda a vida. Essa capacidade de continuar aprendendo talvez seja uma das características mais extraordinárias do ser humano. A maior barreira intelectual muitas vezes não é a incapacidade Em muitos casos, aquilo que impede uma pessoa de aprender não é a ausência de capacidade cognitiva. É a crença de que determinado conhecimento “não é para ela”. Frases aparentemente inocentes revelam esse bloqueio: “Eu nunca fui bom em matemática.” “Livro é coisa de gente estudada.” “Política é complicada demais.” “Economia eu nunca vou entender.” “Depois de certa idade não dá mais para aprender.” Quando essas ideias são repetidas durante anos, transformam-se em limites psicológicos. Entretanto, grande parte do conhecimento humano é construída progressivamente. Primeiro aprendemos conceitos básicos. Depois, fazemos conexões. Com o tempo, aquilo que parecia impossível torna-se compreensível. O desafio está em aceitar o desconforto inicial da aprendizagem. Aprender é suportar temporariamente a sensação de não saber Existe uma dimensão de coragem no conhecimento. Quando começamos a estudar um assunto novo, somos confrontados com aquilo que não sabemos. Para algumas pessoas, isso produz desconforto. É mais fácil permanecer dentro de um universo conhecido. Entretanto, todo avanço intelectual exige atravessar esse momento. Primeiro surge a confusão. Depois aparecem algumas conexões. Com o tempo, conceitos começam a formar uma estrutura. Aquilo que antes parecia caótico passa a fazer sentido. Por isso, aprender não é simplesmente acumular respostas. É desenvolver tolerância para permanecer algum tempo diante de perguntas ainda não resolvidas. A curiosidade é uma tecnologia mental Crianças fazem perguntas constantemente. Por quê? Como? Quem fez? O que acontece se? Com o tempo, muitas pessoas perdem parte dessa curiosidade. A vida adulta passa a valorizar respostas rápidas e certezas aparentes. Entretanto, a curiosidade continua sendo uma das ferramentas mais poderosas do pensamento. Quando alguém pergunta “por que isso acontece?”, começa a procurar causas. Quando pergunta “como sabemos disso?”, passa a avaliar evidências. Quando pergunta “sempre foi assim?”, entra na história. Quando pergunta “poderia ser diferente?”, entra na política, na ciência e na imaginação. A curiosidade é o ponto de partida do conhecimento. Literatura: aprender através de vidas que nunca vivemos Entre todas as ferramentas de formação intelectual, a literatura ocupa um lugar especial. Um livro permite que uma pessoa atravesse épocas, culturas, conflitos e experiências que jamais viveria diretamente. Por algumas horas, entramos na mente de personagens completamente diferentes de nós. Essa experiência possui enorme valor. Ao acompanhar dilemas alheios, ampliamos nosso repertório emocional e moral. Começamos a perceber que pessoas podem interpretar a mesma realidade de maneiras diferentes. Isso não significa concordar com todas as perspectivas apresentadas. Significa desenvolver capacidade para compreendê-las. E compreender é diferente de aceitar. Ler não significa apenas reconhecer palavras Existe uma enorme diferença entre decodificar um texto e realmente compreendê-lo. Leitura profunda exige interpretação. O leitor precisa identificar argumentos, reconhecer ironias, perceber contradições, relacionar informações e compreender aquilo que não foi dito explicitamente. Uma frase simples pode carregar diferentes significados dependendo do contexto. Uma palavra pode alterar completamente o sentido de uma argumentação. Um texto político pode utilizar uma informação verdadeira para construir uma conclusão enganosa. Por isso, quanto mais desenvolvida é a capacidade
O Paradoxo do Gigante Analfabeto: a educação como projeto de exclusão no Brasil

Como uma das maiores economias do mundo ainda convive com analfabetismo, baixa compreensão de textos, desigualdade educacional e milhões de cidadãos com dificuldades para exercer plenamente seus direitos Por Rodrigo Pinheiro O Brasil convive com uma contradição que deveria ocupar posição central no debate sobre desenvolvimento nacional. O país possui uma das maiores economias do planeta, abriga universidades de excelência, produz ciência, domina tecnologias sofisticadas em determinados setores e mantém empresas capazes de competir internacionalmente. Ao mesmo tempo, uma parcela expressiva da população atravessa a vida adulta com dificuldades de leitura, interpretação, matemática e compreensão de informações fundamentais para o cotidiano. Esse paradoxo não pode ser explicado apenas pela existência do analfabetismo tradicional. O problema brasileiro é mais profundo. Há pessoas que não aprenderam a ler e escrever, mas existe também uma população muito maior que frequentou a escola e, apesar disso, não desenvolveu plenamente as competências necessárias para interpretar textos, comparar informações, compreender números e utilizar conhecimento de maneira autônoma. É nesse segundo grupo que aparece o analfabetismo funcional, um fenômeno particularmente grave porque pode permanecer escondido atrás de anos de escolaridade. O indivíduo possui passagem formal pelo sistema educacional, mas encontra dificuldades para utilizar aquilo que deveria ter aprendido. Por isso, a discussão sobre educação brasileira não deveria se limitar ao número de matrículas, escolas ou diplomas. A pergunta fundamental é outra: quanto conhecimento efetivamente permanece com o aluno depois de anos dentro da escola? Quando essa pergunta é colocada no centro do debate, surge uma questão ainda mais incômoda. O problema educacional brasileiro representa apenas uma sucessão de erros administrativos ou está relacionado à própria maneira como o país historicamente distribuiu conhecimento, renda e oportunidades? O Brasil cresceu economicamente sem universalizar o conhecimento A formação econômica brasileira ocorreu durante séculos dentro de uma sociedade profundamente desigual. Durante o período colonial e grande parte do Império, educação formal permaneceu inacessível para enormes parcelas da população. A escravidão aprofundou radicalmente essa exclusão, enquanto a construção tardia de um sistema educacional universal deixou consequências que atravessaram gerações. Por isso, o país iniciou sua modernização econômica carregando uma dívida educacional gigantesca. Posteriormente, industrialização e urbanização transformaram a sociedade. O acesso à escola avançou, sobretudo ao longo do século XX e início do XXI. Entretanto, colocar crianças dentro das salas de aula não resolveu automaticamente o problema da aprendizagem. O Brasil conseguiu ampliar significativamente o acesso à educação, porém continua enfrentando enormes dificuldades para transformar escolarização em domínio efetivo de conhecimento. Esse é um dos elementos centrais do paradoxo brasileiro. Analfabetismo absoluto e analfabetismo funcional são problemas diferentes Para compreender corretamente o problema, é necessário separar dois conceitos. O analfabetismo absoluto caracteriza a pessoa que não consegue ler e escrever um texto simples relacionado à vida cotidiana. Esse problema diminuiu historicamente no Brasil, embora ainda não tenha desaparecido. Já o analfabetismo funcional é mais complexo. Uma pessoa pode reconhecer palavras, escrever frases e realizar operações elementares, mas encontrar dificuldades para interpretar informações, relacionar argumentos, compreender gráficos, utilizar porcentagens ou resolver situações práticas que exigem raciocínio. Portanto, simplesmente saber decodificar palavras não significa possuir domínio pleno da leitura. A alfabetização precisa permitir que o indivíduo utilize informação para compreender o mundo. O problema começa quando confundimos escolarização com aprendizagem Um estudante pode avançar de série sem dominar adequadamente conteúdos anteriores. Quando isso acontece repetidamente, a deficiência se acumula. Uma dificuldade de leitura nos primeiros anos compromete a aprendizagem de História, Geografia, Ciências e Matemática posteriormente. Afinal, praticamente todas as disciplinas dependem da capacidade de compreender informações. Com o passar dos anos, o aluno continua matriculado, porém carrega lacunas cada vez maiores. Eventualmente, pode concluir a educação básica. Formalmente, possui escolaridade. Na prática, porém, continua enfrentando limitações que afetarão sua vida profissional, econômica e cidadã. Esse fenômeno demonstra por que aprovação escolar e aprendizagem não são sinônimos. Educação não é apenas política social Uma das maiores limitações do debate brasileiro está em tratar educação quase exclusivamente como política social. Ela certamente possui essa dimensão. Entretanto, educação também é política econômica, tecnológica, industrial, sanitária, democrática e de segurança nacional. Nenhum país consegue construir setores sofisticados sem profissionais qualificados. Engenheiros precisam dominar matemática. Pesquisadores precisam interpretar evidências. Técnicos precisam compreender processos. Trabalhadores precisam adaptar-se a novas tecnologias. Da mesma maneira, inteligência artificial, automação, biotecnologia, semicondutores e indústria avançada aumentam ainda mais a importância da formação humana. Portanto, educação não deveria aparecer apenas como uma despesa necessária para atender à população. Ela é infraestrutura produtiva de uma nação. O desenvolvimento começa dentro da sala de aula Estradas conectam cidades. Portos conectam mercados. Redes elétricas alimentam fábricas. Entretanto, nenhuma dessas infraestruturas produz desenvolvimento sofisticado sem pessoas capazes de utilizá-las. Uma escola de qualidade desenvolve justamente a infraestrutura intelectual da sociedade. Ela forma o trabalhador que utilizará uma máquina complexa, o engenheiro que projetará outra, o pesquisador que desenvolverá uma tecnologia e o empresário que transformará conhecimento em produto. Além disso, forma o médico, professor, advogado, servidor público e cidadão que participarão das instituições nacionais. Por isso, investimentos educacionais possuem efeitos que atravessam praticamente toda a economia. Coreia do Sul: educação e transformação produtiva caminharam juntas A experiência sul-coreana ajuda a compreender essa relação. A Coreia do Sul não se desenvolveu simplesmente porque aumentou matrículas escolares, assim como não se industrializou apenas porque criou fábricas. Educação, industrialização, ciência, tecnologia, infraestrutura e política econômica avançaram de maneira articulada. À medida que a estrutura produtiva se tornava mais sofisticada, crescia a necessidade de trabalhadores qualificados. Ao mesmo tempo, uma população progressivamente mais educada permitia ao país avançar para atividades ainda mais complexas. Esse ciclo é fundamental. Educação aumenta a capacidade produtiva, enquanto uma economia sofisticada aumenta a demanda por educação. Quando os dois processos caminham juntos, podem reforçar um ao outro. O Vietnã também demonstra que renda não explica tudo Outro caso relevante é o Vietnã. Embora ainda possua renda per capita muito inferior à das economias mais desenvolvidas, o país conseguiu apresentar resultados educacionais que despertaram atenção internacional. Isso mostra que riqueza econômica ajuda, mas não determina sozinha a
As mentiras que atrasaram — e continuam atrasando — o desenvolvimento econômico brasileiro

Por que o debate entre “mais Estado” e “menos Estado” esconde a discussão fundamental sobre indústria, complexidade econômica, tecnologia e desenvolvimento Por Rodrigo Pinheiro O debate econômico brasileiro frequentemente começa pela pergunta errada. De um lado, afirma-se que o Estado brasileiro é grande demais e que reduzir gastos, privatizar empresas e permitir maior liberdade ao mercado seria suficiente para colocar o país em uma trajetória de crescimento. Do outro, defende-se uma presença estatal maior como se o simples aumento da intervenção pública garantisse desenvolvimento. Essa oposição entre “Estado” e “mercado”, porém, explica muito pouco sobre a diferença entre economias que conseguiram alcançar elevados níveis de produtividade e aquelas que permaneceram presas à chamada armadilha da renda média. O ponto central está na estrutura produtiva, na capacidade tecnológica e na qualidade das instituições utilizadas para promover transformação econômica. Essa é também a premissa fundamental do material que orienta esta análise. A comparação entre Brasil e Coreia do Sul ajuda a compreender o problema. Enquanto a economia sul-coreana avançou de atividades relativamente simples para automóveis, navios, eletrônicos e semicondutores, o Brasil perdeu densidade em diversas cadeias industriais e ampliou sua dependência de produtos primários em parte relevante de suas exportações. Isso não significa que agricultura, mineração ou petróleo sejam atividades inferiores ou dispensáveis. Pelo contrário, o Brasil construiu vantagens competitivas extraordinárias nesses setores. A questão é outra: uma economia continental não deveria precisar escolher entre ser potência agrícola e potência industrial. Pode e deve buscar as duas coisas. A primeira mentira: “basta diminuir o Estado para o país crescer” O tamanho do Estado importa para sustentabilidade fiscal, tributação, eficiência dos serviços e estabilidade macroeconômica. Entretanto, transformar essa variável na explicação universal do desenvolvimento é uma simplificação. A pergunta relevante não é somente quanto o governo gasta, mas onde, como e com quais resultados esse dinheiro é utilizado. Recursos públicos destinados permanentemente a atividades improdutivas podem gerar desperdício. Entretanto, investimentos em infraestrutura, educação, ciência, pesquisa, defesa, saúde, inovação ou tecnologias estratégicas podem ampliar a capacidade produtiva de uma economia. Da mesma forma, política industrial mal desenhada pode proteger empresas ineficientes durante décadas. Porém, uma política industrial associada a metas, produtividade, inovação, competição e desempenho exportador pode acelerar aprendizado tecnológico. Portanto, a discussão séria não deveria ser simplesmente “Estado grande ou Estado pequeno?”. Deveria investigar qual Estado, para qual objetivo e submetido a quais mecanismos de avaliação. A segunda mentira: “o mercado naturalmente levará o Brasil aos setores mais sofisticados” Mercados são extraordinariamente importantes para organizar preços, investimentos, competição e inovação. Entretanto, mercados não existem fora da história, da tecnologia e das instituições. Uma empresa brasileira que pretende entrar em uma indústria altamente sofisticada não começa competindo em igualdade de condições com uma multinacional que acumulou décadas de conhecimento, patentes, fornecedores, escala e financiamento. Esse problema é particularmente relevante em setores nos quais o aprendizado ocorre durante a própria produção. Semicondutores, indústria aeroespacial, equipamentos médicos, defesa, química avançada e diversos segmentos tecnológicos apresentam enormes barreiras de entrada. Por isso, vários processos históricos de industrialização combinaram mercado com diferentes formas de ação estatal. O desafio consiste justamente em impedir que essa intervenção se transforme em proteção permanente sem contrapartidas. Complexidade econômica: a verdadeira “caixa de ferramentas” de um país Uma das melhores maneiras de compreender desenvolvimento é através da ideia de complexidade econômica. Complexidade não mede simplesmente quanto um país produz. Ela procura capturar a diversidade e a sofisticação do conhecimento produtivo presente na economia e, especialmente, nos produtos que consegue fabricar competitivamente. O próprio material-base utiliza uma analogia eficiente: imagine cada economia como uma caixa de ferramentas. Uma economia simples possui poucas ferramentas e, consequentemente, consegue fabricar um conjunto limitado de produtos. Uma economia sofisticada acumula enorme quantidade de conhecimentos, máquinas, profissionais, fornecedores e processos que permitem produzir bens muito mais complexos. Isso ajuda a explicar por que duas exportações de US$ 1 bilhão podem produzir efeitos econômicos completamente diferentes. Exportar minério gera receita, empregos e divisas. Entretanto, fabricar equipamentos sofisticados exige engenheiros, software, pesquisa, componentes, logística, máquinas, serviços técnicos e uma enorme rede de fornecedores. O segundo processo espalha conhecimento por uma parcela muito maior da economia. O problema não é exportar soja ou minério Esse ponto precisa ser enfatizado porque o debate brasileiro frequentemente cria outra falsa oposição. Agronegócio versus indústria. Mineração versus tecnologia. Exportação de commodities versus desenvolvimento. O Brasil deveria rejeitar essa dicotomia. O agronegócio brasileiro é tecnologicamente sofisticado em diversos segmentos e constitui uma vantagem estratégica nacional. A mineração também fornece recursos fundamentais para a economia mundial. O problema aparece quando essas vantagens não são utilizadas para estimular novas capacidades produtivas. Um país que produz minério de ferro pode desenvolver siderurgia avançada, máquinas, engenharia e materiais. Um país agrícola pode desenvolver biotecnologia, fertilizantes, máquinas, sensores, drones, satélites e inteligência artificial. Um país com lítio e terras raras pode tentar avançar para processamento, materiais, baterias, motores e ímãs. A questão não é abandonar aquilo que fazemos bem. É utilizar aquilo que fazemos bem para aprender a fazer coisas ainda mais sofisticadas. Valor adicionado: onde a riqueza começa a se multiplicar O segundo conceito fundamental é o valor adicionado. Valor adicionado representa aquilo que determinada etapa produtiva acrescenta aos insumos utilizados. O material-base apresenta justamente o contraste entre extrair minério e utilizar diferentes componentes e conhecimentos para fabricar produtos tecnológicos. Considere uma cadeia mineral. Primeiro, ocorre a extração. Depois, beneficiamento. Em seguida, processamento. Posteriormente, surgem materiais avançados e componentes. Finalmente, esses componentes podem integrar automóveis, equipamentos médicos, aeronaves ou dispositivos eletrônicos. Quanto mais conhecimento e transformação uma economia consegue realizar internamente, maior tende a ser sua participação na geração de valor daquela cadeia. É justamente por isso que política mineral e política industrial deveriam conversar. A terceira mentira: “ser uma potência em commodities já é suficiente” O Brasil pode continuar sendo um dos maiores produtores de alimentos e minerais do planeta durante muitas décadas. Isso é uma vantagem, não um problema. O erro está em imaginar que essa especialização, isoladamente, resolverá as necessidades de uma economia com mais de 200
A Importância Geológica do Brasil: terras raras, soberania e a disputa pelo “ouro do século XXI”

Com uma das maiores reservas mundiais, o Brasil entra no centro da disputa entre China, Estados Unidos e outras potências. O desafio não é apenas extrair terras raras, mas dominar processamento, tecnologia e indústria Por Rodrigo Pinheiro Durante séculos, o poder das nações esteve associado ao controle de recursos estratégicos. Carvão alimentou a Revolução Industrial, petróleo tornou-se elemento central da geopolítica do século XX e, agora, a transição energética, a digitalização e a modernização militar colocam outro conjunto de materiais no centro das disputas internacionais: os minerais críticos e, particularmente, as terras raras. Nesse cenário, o Brasil possui uma vantagem geológica extraordinária. O país detém uma das maiores reservas conhecidas de terras raras do planeta e aparece consistentemente como a segunda maior reserva mundial, atrás da China. Estimativas amplamente utilizadas situam os recursos brasileiros em aproximadamente 21 milhões de toneladas. Entretanto, possuir minério não significa possuir poder. A China demonstrou isso ao construir uma cadeia que vai muito além da mineração. Pequim concentra cerca de 70% da produção e aproximadamente 90% da capacidade mundial de processamento de terras raras, justamente uma das etapas tecnologicamente mais complexas e economicamente estratégicas da cadeia. É nesse ponto que surge o verdadeiro dilema brasileiro. O Brasil utilizará sua riqueza geológica para construir uma indústria tecnológica própria ou continuará fornecendo recursos para que outras potências produzam os componentes de maior valor agregado? A resposta poderá definir uma parcela importante da soberania econômica brasileira nas próximas décadas. O que são as terras raras? Apesar do nome, terras raras não são necessariamente elementos extremamente raros na crosta terrestre. A dificuldade econômica está principalmente em encontrar depósitos com concentrações adequadas, extrair os minerais e, sobretudo, separar os diferentes elementos de maneira tecnicamente eficiente e ambientalmente segura. O grupo é composto por 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Suas propriedades magnéticas, ópticas, eletrônicas e catalíticas fazem com que pequenas quantidades desses materiais sejam fundamentais para tecnologias extremamente sofisticadas. Portanto, sua importância não está necessariamente no volume utilizado. Está na dificuldade de substituí-los em determinadas aplicações. Um equipamento pode conter apenas uma pequena quantidade de determinado elemento e, ainda assim, depender completamente dele para funcionar com o desempenho necessário. Neodímio: um pequeno elemento com enorme importância industrial Entre os exemplos mais conhecidos está o neodímio. Combinado principalmente com ferro e boro, ele permite produzir ímãs permanentes extremamente potentes. Esses superímãs aparecem em motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e diferentes aplicações industriais. Consequentemente, o neodímio ocupa posição importante na eletrificação da economia. À medida que veículos elétricos, automação e geração renovável avançam, aumenta também a importância estratégica de cadeias capazes de produzir ímãs permanentes de alto desempenho. E justamente aí aparece um problema para países que possuem reservas, mas não dominam as etapas industriais seguintes. Praseodímio, disprósio e térbio ampliam a importância estratégica O praseodímio aparece em ligas especiais e também pode participar da fabricação de ímãs de alto desempenho. Essas aplicações alcançam setores como indústria aeroespacial, mobilidade elétrica e equipamentos tecnológicos avançados. O disprósio possui importância particular porque pode melhorar o desempenho de determinados ímãs em temperaturas elevadas. Isso interessa a aplicações industriais, energéticas e de defesa nas quais estabilidade térmica é fundamental. Já o térbio aparece em materiais magnéticos, dispositivos ópticos, fósforos e outras aplicações especializadas. Assim, a relevância das terras raras não depende de um único elemento, mas de um conjunto de propriedades que diferentes indústrias aprenderam a explorar. Lantânio, cério, európio e gadolínio mostram a diversidade da cadeia O lantânio possui aplicações em catalisadores, vidros especiais, óptica e outras tecnologias industriais. O cério, por sua vez, é amplamente utilizado no polimento de vidros e em processos catalíticos. O európio ganhou importância por suas propriedades luminescentes e aparece em fósforos utilizados em diferentes dispositivos. Já o gadolínio possui aplicações importantes em saúde, especialmente em determinados agentes de contraste para ressonância magnética, além de usos tecnológicos e nucleares. Portanto, reduzir terras raras simplesmente à produção de baterias seria um erro. Esses elementos atravessam cadeias de energia, mobilidade, eletrônica, telecomunicações, saúde, indústria aeroespacial e defesa. É por isso que sua importância deixou de ser apenas mineral e passou a ser geoeconômica. O Brasil possui uma vantagem geológica rara O território brasileiro reúne diferentes ambientes geológicos favoráveis à ocorrência desses minerais. Depósitos associados a complexos alcalino-carbonatíticos, argilas de adsorção iônica e minerais como monazita ajudam a explicar o potencial nacional. Goiás e Minas Gerais aparecem entre as regiões de maior interesse, embora o potencial brasileiro seja mais amplo. Entretanto, conhecer integralmente essa riqueza ainda representa um desafio. O próprio debate atual sobre minerais críticos ressalta a necessidade de ampliar levantamento geológico, pesquisa mineral e conhecimento do subsolo brasileiro. Isso significa que a vantagem potencial do Brasil pode ser ainda maior do que aquilo que atualmente conseguimos transformar em produção econômica. Mas reserva não é produção Esse é provavelmente o conceito mais importante para compreender toda a discussão. Possuir milhões de toneladas no subsolo não significa controlar o mercado. É necessário encontrar depósitos economicamente viáveis, obter licenciamento, construir minas, realizar beneficiamento, separar quimicamente os elementos, produzir óxidos de alta pureza e, posteriormente, fabricar materiais e componentes. A diferença entre essas etapas é enorme. Exportar material pouco processado produz determinado nível de receita. Produzir óxidos separados agrega mais valor. Produzir metais e ligas aumenta novamente o domínio tecnológico. Fabricar ímãs permanentes e componentes avançados coloca o país em outra posição industrial. Portanto, a questão brasileira não deveria ser simplesmente quanto conseguimos extrair. Deveria ser quanto da cadeia conseguimos dominar. A China compreendeu isso antes do restante do mundo A posição chinesa não surgiu simplesmente porque o país possui grandes reservas. Durante décadas, Pequim desenvolveu mineração, separação química, metalurgia, fabricação de ímãs, fornecedores industriais, conhecimento técnico e escala produtiva. O resultado é uma concentração extraordinária nas etapas de processamento. Estimativas utilizadas em 2026 continuam apontando aproximadamente 90% da capacidade mundial nessa fase da cadeia. Isso oferece à China um instrumento geoeconômico muito mais poderoso do que possuir apenas jazidas. Um país pode descobrir terras raras amanhã.
O Despertar da África e da América Latina: oportunidade ou armadilha no vácuo de poder deixado pelos EUA?

A disputa por influência no Sul Global cresce enquanto China, Rússia e outras potências ampliam sua presença em regiões historicamente vinculadas ao Ocidente Por Rodrigo Pinheiro A ordem internacional atravessa uma transformação que vai muito além das guerras atualmente concentradas no Oeste da Ásia e na Europa. Enquanto Estados Unidos e seus aliados precisam distribuir atenção diplomática, recursos militares e capacidade política entre diferentes crises, outras potências procuram ampliar sua presença em regiões estratégicas da África, da América Latina e da Ásia. Esse movimento não significa que os Estados Unidos estejam simplesmente abandonando essas regiões. Washington continua sendo uma potência econômica, financeira, tecnológica e militar central. Entretanto, o cenário internacional tornou-se mais competitivo, e nenhum país parece possuir atualmente a mesma capacidade de monopolizar as escolhas políticas e econômicas do Sul Global. China, Rússia, Índia, países do Golfo e outras potências emergentes oferecem novas possibilidades de comércio, financiamento, infraestrutura, energia e cooperação. Como resultado, governos africanos e latino-americanos encontram mais alternativas para negociar seus interesses. Essa transformação cria uma oportunidade histórica, mas também apresenta uma armadilha. Afinal, o Sul Global utilizará essa competição para conquistar maior soberania ou apenas substituirá antigas dependências por novas? O mundo não está apenas trocando uma potência por outra Uma interpretação simplificada da atual transformação internacional afirma que os Estados Unidos estariam perdendo influência enquanto a China ocuparia progressivamente o espaço deixado por Washington. Embora exista uma redistribuição evidente de poder econômico e político, a realidade é mais complexa. O crescimento da China, da Índia e de outras economias asiáticas ocorre simultaneamente ao fortalecimento diplomático de países como Brasil, Arábia Saudita, Indonésia, Emirados Árabes Unidos e África do Sul. Além disso, diversas nações africanas procuram ampliar sua margem de negociação internacional. Portanto, talvez estejamos diante não da simples substituição de uma hegemonia por outra, mas da formação gradual de um sistema com vários centros relevantes de poder. É justamente nesse ambiente que o conceito de multipolaridade ganha importância. Para África e América Latina, essa transformação pode representar uma mudança histórica. Quanto maior o número de parceiros disponíveis, maior tende a ser a capacidade de negociação dos países que antes dependiam de poucas fontes de financiamento, tecnologia e comércio. O Sul Global não é um bloco homogêneo Apesar de aparecer frequentemente como uma unidade no debate internacional, o chamado Sul Global reúne países profundamente diferentes. Brasil e Argentina possuem prioridades próprias; Índia e China cooperam em algumas instituições enquanto competem em outras; países africanos apresentam diferentes modelos políticos, econômicos e diplomáticos. Por isso, o Sul Global não deve ser interpretado como uma nova aliança geopolítica tradicional. Trata-se de um conjunto diverso de países que compartilham, em diferentes graus, o interesse por maior participação nas decisões internacionais, desenvolvimento econômico e redução de determinadas assimetrias existentes na ordem global. Essa diversidade pode gerar dificuldades de coordenação, mas também oferece uma vantagem: esses países não precisam necessariamente seguir uma única potência. Pelo contrário, podem estabelecer relações diferentes conforme seus próprios interesses. É exatamente nesse ponto que surge uma das maiores oportunidades da nova ordem internacional. A verdadeira mudança está na quantidade de opções Durante diferentes momentos do século XX, muitos países em desenvolvimento possuíam opções limitadas para obter capital, tecnologia, infraestrutura ou acesso aos grandes mercados internacionais. Atualmente, esse cenário mudou consideravelmente. Os Estados Unidos continuam oferecendo tecnologia, investimentos e acesso a um enorme mercado consumidor. A União Europeia permanece fundamental para comércio, financiamento e tecnologia. Entretanto, a China tornou-se uma potência industrial e financeira global, enquanto a Índia cresce rapidamente e países do Golfo aumentam seus investimentos internacionais. Além disso, mecanismos vinculados ao BRICS e instituições como o Novo Banco de Desenvolvimento ampliam o conjunto de alternativas disponíveis. Consequentemente, países africanos e latino-americanos conseguem negociar com um número maior de parceiros. Essa competição pode aumentar significativamente o poder de barganha do Sul Global. Contudo, isso somente acontecerá se esses países souberem transformar competição externa em desenvolvimento interno. A China compreendeu rapidamente o valor do Sul Global Pequim construiu uma estratégia internacional fortemente baseada em comércio, infraestrutura, financiamento e integração produtiva. A Iniciativa Cinturão e Rota tornou-se uma das principais manifestações dessa política, envolvendo investimentos e projetos relacionados a portos, ferrovias, estradas, energia e telecomunicações. Além da dimensão econômica, existe uma narrativa política importante. A diplomacia chinesa procura apresentar sua ascensão como diferente das antigas relações coloniais estabelecidas entre potências europeias e países em desenvolvimento. Nesse discurso, soberania, não interferência, desenvolvimento e cooperação de benefício mútuo ocupam posição central. Essa linguagem possui forte capacidade de atração em diferentes regiões do Sul Global, sobretudo em países marcados pela experiência colonial e por relações historicamente assimétricas com as grandes potências. Entretanto, os interesses chineses também precisam ser considerados. A China necessita de energia, alimentos, minerais, mercados consumidores e segurança para suas rotas comerciais. Portanto, sua política externa, assim como a de qualquer outra grande potência, também procura defender interesses nacionais. A África tornou-se estratégica para Pequim A presença econômica chinesa no continente africano cresceu significativamente nas últimas décadas. Empresas chinesas passaram a participar de projetos relacionados a mineração, energia, telecomunicações, transporte e infraestrutura. Ao mesmo tempo, a importância estratégica da África cresce. O continente possui uma população jovem, mercados consumidores em expansão e grandes reservas de recursos naturais fundamentais para a economia contemporânea. Cobalto, cobre, manganês, petróleo, gás e diferentes minerais críticos aumentam seu peso geoeconômico. Por isso, a relação entre China e África não pode ser compreendida apenas como uma busca chinesa por matérias-primas. Existe também uma disputa de longo prazo por mercados, infraestrutura, cadeias produtivas e influência diplomática. Para os países africanos, porém, a questão mais importante não deveria ser simplesmente escolher entre China e Ocidente. O verdadeiro desafio consiste em determinar quanto desenvolvimento doméstico será produzido pelas relações com essas potências. Infraestrutura pode gerar autonomia ou dependência Uma ferrovia pode reduzir drasticamente os custos de transporte. Um porto moderno pode aumentar exportações, enquanto novas usinas podem fornecer energia necessária para industrialização. Portanto, investimentos externos em infraestrutura podem transformar a estrutura econômica de um país. Contudo, a origem
Geopolítica Sanitária e Conflito: os riscos ocultos de novas crises biológicas em cenários de guerra total

Destruição de hospitais, colapso do saneamento, deslocamentos populacionais e falhas na vigilância epidemiológica podem transformar conflitos locais em ameaças à saúde global Por Rodrigo Pinheiro Quando uma guerra começa, a atenção internacional normalmente se concentra em territórios conquistados, capacidade militar, armamentos, energia e consequências econômicas. Entretanto, existe uma dimensão menos visível dos conflitos modernos: a destruição das barreiras sanitárias que impedem doenças de se espalhar. Hospitais deixam de funcionar. Sistemas de abastecimento de água são danificados. Redes de esgoto entram em colapso. Campanhas de vacinação são interrompidas. Laboratórios perdem capacidade operacional. Profissionais de saúde abandonam regiões inseguras e milhões de pessoas podem ser deslocadas. Consequentemente, uma guerra não produz somente mortos e feridos pelo combate. Ela também pode criar as condições para epidemias, agravamento de doenças crônicas, disseminação de microrganismos resistentes a medicamentos e profundas consequências para a saúde mental. A própria Organização Mundial da Saúde considera saúde e paz diretamente relacionadas. Segundo a OMS, cerca de 80% de sua carga humanitária e 70% dos surtos aos quais responde ocorrem em situações frágeis ou afetadas por conflitos. Portanto, compreender a guerra moderna exige também compreender sua dimensão biológica. E isso conduz a uma pergunta importante: um conflito regional prolongado poderia contribuir para o surgimento ou a disseminação de uma nova crise sanitária internacional? A resposta exige cautela. Guerras não “criam automaticamente” novos vírus ou bactérias. Entretanto, podem destruir justamente os sistemas que detectam, contêm e tratam doenças antes que elas se transformem em crises maiores. A guerra também destrói a infraestrutura invisível da saúde Um sistema de saúde depende de muito mais do que hospitais. Ele precisa de eletricidade, água potável, saneamento, laboratórios, medicamentos, transporte, profissionais capacitados, cadeias de frio para vacinas e sistemas de vigilância epidemiológica. Além disso, depende de comunicação entre autoridades locais, governos nacionais e instituições internacionais. Durante conflitos prolongados, várias dessas estruturas podem falhar simultaneamente. Uma análise da OMS publicada em maio de 2026, envolvendo 19 países, mostrou que unidades de saúde localizadas em áreas de conflito eram seis vezes mais propensas a estar fora de operação. Quase uma em cada quatro havia sido diretamente afetada pelo conflito. Esse dado ajuda a compreender por que a geopolítica sanitária precisa fazer parte das discussões sobre segurança internacional. Quando um hospital é destruído, perde-se muito mais do que um edifício. Perde-se capacidade de diagnóstico, vacinação, cirurgia, acompanhamento de gestantes, tratamento de doenças crônicas e identificação precoce de possíveis surtos. Água e saneamento podem transformar-se em problemas epidemiológicos Entre os maiores riscos está a destruição da infraestrutura de água e saneamento. Bombardeios, falta de manutenção, interrupções elétricas e deslocamentos populacionais podem comprometer sistemas de tratamento de água e redes de esgoto. Consequentemente, populações passam a utilizar fontes inseguras. Segundo a OMS, a deterioração das condições de água, saneamento e higiene durante emergências pode provocar forte aumento de doenças diarreicas relacionadas à água. O problema se torna ainda maior em campos de refugiados e abrigos improvisados. Milhares de pessoas podem compartilhar espaços reduzidos, banheiros insuficientes e fontes limitadas de água. Nessas condições, controlar doenças transmissíveis torna-se muito mais difícil. Portanto, infraestrutura sanitária também é infraestrutura de segurança. A guerra interrompe vacinação e prevenção Outra consequência aparece quando programas regulares de saúde pública são interrompidos. Vacinação infantil pode diminuir. Acompanhamento pré-natal pode desaparecer. Tratamentos contra tuberculose podem ser interrompidos. Pacientes com diabetes, câncer, doenças cardiovasculares ou outras condições crônicas podem perder acesso aos medicamentos. Além disso, sistemas de vigilância epidemiológica podem deixar de identificar rapidamente novos surtos. A OMS destaca que conflitos e deslocamentos interrompem serviços essenciais, inclusive vacinação e saúde materna, enquanto aumentam a exposição das populações a doenças. Portanto, mesmo doenças anteriormente controladas podem voltar a representar perigo. O exemplo da Síria demonstra o efeito prolongado Guerras deixam consequências sanitárias durante muitos anos. Na Síria, mais de uma década de conflito e subinvestimento enfraqueceu profundamente o sistema de saúde. Em 2026, a OMS ainda apontava cólera, sarampo e outras doenças com potencial epidêmico entre os problemas existentes no país, juntamente com infraestrutura danificada e grandes necessidades humanitárias. Esse exemplo revela uma característica importante. O impacto sanitário de uma guerra não termina necessariamente quando diminuem os bombardeios. Reconstruir hospitais, formar profissionais, restabelecer vacinação, recuperar saneamento e reconstruir confiança institucional pode exigir anos. O Sudão mostra como guerra, fome e doença podem convergir O Sudão oferece outro exemplo contemporâneo. Em abril de 2026, a OMS classificou a situação do país como a maior crise humanitária mundial naquele momento. Cerca de 34 milhões de pessoas necessitavam de assistência, enquanto aproximadamente 21 milhões estavam sem acesso adequado a serviços de saúde. Além disso, surtos de doenças e desnutrição continuavam crescendo em áreas atingidas pelos combates. Esse tipo de situação demonstra que crises sanitárias raramente possuem uma única causa. Guerra enfraquece hospitais. Deslocamento aumenta aglomerações. Fome reduz resistência imunológica. Falta de água favorece determinadas doenças. Ao mesmo tempo, a vigilância epidemiológica perde capacidade. Consequentemente, diferentes vulnerabilidades começam a se reforçar. Hospitais também se tornaram vítimas das guerras Existe ainda um problema particularmente grave: ataques contra a própria infraestrutura médica. A OMS registrou 1.426 ataques contra serviços de saúde em contextos de emergência e fragilidade durante 2025. Esses episódios atingiram profissionais, pacientes, hospitais e outros recursos essenciais. A situação da Ucrânia demonstra a dimensão do problema. Em maio de 2026, a OMS informou ter verificado mais de 3 mil ataques contra a saúde desde o início da invasão russa em larga escala, abrangendo unidades de atendimento, ambulâncias, profissionais e armazéns médicos. Além do dano imediato, existe um efeito secundário. Cada instalação perdida reduz a capacidade de responder à próxima emergência. Existem protocolos sanitários mesmo durante uma guerra É importante fazer uma distinção. Não é correto afirmar que guerras modernas acontecem simplesmente “sem protocolos sanitários”. Existem normas internacionais. O Direito Internacional Humanitário estabelece proteção para feridos, doentes, profissionais médicos, hospitais e transportes sanitários. A própria OMS mantém mecanismos destinados a documentar ataques contra a saúde e defender a continuidade dos serviços médicos. O problema é outro. A existência da norma não garante seu cumprimento. Quando
O Comportamento da Índia frente ao BRICS: a “Ponte” ou o “Entrave”?

Autonomia estratégica, rivalidade com a China e aproximação com os Estados Unidos colocam Nova Déli no centro do debate sobre o futuro do BRICS Por Rodrigo Pinheiro A expansão do BRICS transformou profundamente a natureza do grupo. O que começou como uma articulação entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul tornou-se uma plataforma muito mais ampla, reunindo países com interesses econômicos, sistemas políticos e prioridades geopolíticas diferentes. Entretanto, quanto maior o grupo se torna, mais difícil fica construir consenso. Nesse cenário, nenhum país representa melhor as contradições internas do BRICS do que a Índia. Nova Déli mantém relações estratégicas com Rússia e China dentro do grupo. Ao mesmo tempo, participa do QUAD ao lado de Estados Unidos, Japão e Austrália. Além disso, mantém relações econômicas profundas com o Ocidente e possui uma rivalidade histórica e territorial com Pequim. Portanto, a Índia ocupa uma posição incomum. Ela está simultaneamente dentro de estruturas associadas à ascensão do mundo multipolar e dentro de mecanismos estratégicos próximos aos Estados Unidos. Essa postura costuma ser definida pela própria diplomacia indiana como autonomia estratégica. Contudo, à medida que o BRICS se expande e incorpora países como o Irã, essa autonomia começa a produzir uma pergunta incômoda: a Índia funciona como uma ponte entre diferentes polos de poder ou como um entrave à transformação do BRICS em uma força geopolítica mais coesa? A resposta é decisiva não apenas para Nova Déli. Ela também interessa ao Brasil e a todo o Sul Global. A Índia não quer destruir o BRICS Antes de analisar as divergências, é necessário afastar uma interpretação exagerada. Não existem evidências sólidas de que a Índia esteja preparando sua saída do BRICS. Pelo contrário, o país exerce a presidência do grupo em 2026 e continua promovendo reuniões, iniciativas comerciais e negociações entre os membros. Em agosto, por exemplo, Nova Déli conduziu a reunião dos ministros de Comércio do BRICS, que avançou em temas como financiamento para pequenas empresas, cadeias globais de valor mais resilientes e a Estratégia de Parceria Econômica do BRICS para 2030. Portanto, a questão central não é uma suposta decisão indiana de abandonar o grupo. O problema é mais sofisticado. A Índia quer influenciar qual BRICS existirá no futuro. Nova Déli prefere uma organização voltada à reforma da governança internacional, cooperação econômica, desenvolvimento e maior representação do Sul Global. Entretanto, demonstra maior cautela diante da transformação do BRICS em um bloco explicitamente antiocidental. É justamente aí que surgem as tensões. Autonomia estratégica: a chave para compreender a Índia A política externa indiana não pode ser compreendida através da lógica tradicional de alinhamento automático. Nova Déli procura preservar liberdade de ação. Isso significa cooperar com Washington em determinados assuntos, negociar com Moscou em outros e, simultaneamente, participar de organizações ao lado de Pequim. Essa estratégia pode parecer contraditória. Entretanto, do ponto de vista indiano, existe coerência. A prioridade não é fidelidade permanente a determinado bloco. A prioridade é o interesse nacional indiano. Consequentemente, a Índia pode comprar energia russa, participar do BRICS, fortalecer relações com os Estados Unidos e integrar o QUAD sem considerar essas posições necessariamente incompatíveis. Essa é a essência de sua autonomia estratégica. O primeiro grande problema: Índia e China são parceiras e rivais A principal tensão estrutural dentro do BRICS está na relação entre as duas maiores potências asiáticas do grupo. China e Índia possuem populações gigantescas, economias de grande escala e ambições internacionais crescentes. Além disso, ambas procuram ampliar sua influência no Sul Global. Contudo, também possuem uma longa disputa fronteiriça e competem por influência na Ásia. Portanto, Nova Déli observa com atenção qualquer movimento que possa aumentar excessivamente a liderança chinesa dentro do BRICS. Essa preocupação cresceu com a expansão do grupo. A expansão do BRICS mudou o equilíbrio interno A entrada de novos membros ampliou significativamente o alcance político do BRICS. Entretanto, também trouxe novos interesses para dentro da organização. Irã e Emirados Árabes Unidos, por exemplo, possuem posições distintas em diferentes questões regionais. Ao mesmo tempo, China e Rússia tendem a defender mudanças mais profundas na estrutura internacional dominada pelo Ocidente. A Índia possui uma abordagem mais cautelosa. Para Nova Déli, ampliar a representação do Sul Global pode ser positivo. Contudo, isso não significa necessariamente transformar o BRICS em uma coalizão de confronto com Estados Unidos e Europa. Essa diferença é fundamental. Nova Déli teme um BRICS excessivamente dependente de Pequim A economia chinesa é muito maior do que a de diversos membros do grupo. Além disso, a China possui enorme capacidade financeira, industrial e comercial. Consequentemente, existe uma assimetria natural dentro do BRICS. Para a Índia, permitir que essa assimetria se transforme em liderança política incontestável de Pequim seria problemático. Nova Déli deseja um BRICS multipolar internamente. Ou seja, não basta defender um mundo com vários centros de poder. O próprio grupo também precisa possuir vários centros de influência. Essa distinção ajuda a explicar grande parte do comportamento indiano. O segundo problema: o fator QUAD A participação indiana no QUAD adiciona outra camada à equação. O Diálogo Quadrilateral de Segurança reúne Índia, Estados Unidos, Japão e Austrália. Embora não seja uma aliança militar equivalente à OTAN, o grupo desenvolve cooperação em segurança marítima, tecnologia, infraestrutura e questões relacionadas ao Indo-Pacífico. A China observa o QUAD com desconfiança. Por outro lado, a Índia considera a cooperação com Estados Unidos, Japão e Austrália útil para equilibrar o crescimento do poder chinês na Ásia. Portanto, Nova Déli participa simultaneamente de duas arquiteturas estratégicas muito diferentes. No BRICS, senta-se ao lado de Pequim e Moscou. No QUAD, coopera com Washington, Tóquio e Canberra. Contradição ou estratégia? À primeira vista, essa posição parece contraditória. Contudo, para a Índia, ela oferece uma vantagem. Nova Déli evita tornar-se excessivamente dependente de qualquer potência. Se aprofundasse exclusivamente sua relação com Washington, poderia perder autonomia diante dos Estados Unidos. Por outro lado, se se aproximasse excessivamente de Pequim e Moscou, poderia aumentar sua vulnerabilidade diante da China. Portanto, a Índia procura equilibrar diferentes relações. Essa política permite negociar simultaneamente com
Brasil e o Sul Global: como a instabilidade no Oeste da Ásia acelera a busca por soberania industrial em solo brasileiro

Guerras prolongadas, dependência de insumos e novas disputas geopolíticas mostram por que o Brasil precisa transformar recursos naturais em capacidade industrial e tecnológica Por Rodrigo Pinheiro Durante décadas, o Brasil aprofundou sua participação na economia global contando com cadeias internacionais relativamente estáveis. Fertilizantes, componentes eletrônicos, máquinas, produtos químicos, medicamentos e diversas tecnologias passaram a circular por redes produtivas distribuídas entre vários países. Esse modelo trouxe benefícios econômicos. Entretanto, também criou dependências que se tornam mais evidentes quando o sistema internacional entra em crise. A pandemia já havia demonstrado como uma interrupção logística distante poderia afetar fábricas e consumidores brasileiros. Posteriormente, a guerra na Ucrânia aumentou a preocupação com energia, fertilizantes e commodities. Agora, a instabilidade no Oeste da Ásia adiciona outro elemento de incerteza. Embora essas guerras ocorram a milhares de quilômetros do território brasileiro, seus efeitos podem chegar rapidamente ao país. O impacto aparece nos preços da energia, nos fretes marítimos, nos seguros, nos fertilizantes e em diferentes produtos importados. Portanto, a pergunta estratégica não é se o Brasil conseguirá permanecer geograficamente distante das guerras. A verdadeira questão é saber quanto da economia brasileira continuará vulnerável a acontecimentos externos que o país não controla. A vulnerabilidade brasileira começa fora de suas fronteiras O Brasil possui dimensões continentais, enorme produção agrícola, grandes reservas minerais, petróleo, recursos hídricos e uma das maiores biodiversidades do planeta. Ainda assim, permanece dependente do exterior em diferentes cadeias produtivas estratégicas. Essa aparente contradição revela um problema histórico. O país consegue produzir e exportar grandes volumes de recursos naturais. Entretanto, em muitos setores, ainda precisa importar máquinas, componentes, produtos químicos, tecnologias e insumos necessários para transformar esses mesmos recursos. Portanto, possuir matéria-prima não significa automaticamente possuir soberania industrial. Para alcançar maior autonomia, o Brasil precisa dominar etapas mais sofisticadas das cadeias produtivas. Além disso, precisa combinar indústria, ciência, infraestrutura, energia e tecnologia dentro de uma estratégia nacional de longo prazo. Quando uma guerra distante chega ao preço brasileiro Uma crise no Oeste da Ásia pode atingir o Brasil sem que exista qualquer confronto militar próximo ao território nacional. Inicialmente, o aumento da tensão geopolítica eleva a percepção de risco. Consequentemente, seguradoras podem aumentar os custos relacionados à navegação em determinadas regiões. Caso navios precisem alterar rotas, o tempo de viagem também aumenta. Com isso, cresce o consumo de combustível e, posteriormente, o custo do transporte. Além disso, conflitos envolvendo grandes produtores ou importantes corredores energéticos podem pressionar os preços internacionais do petróleo e do gás. O efeito, portanto, percorre uma longa cadeia até chegar ao Brasil. Quando energia e transporte ficam mais caros, empresas pagam mais para produzir e movimentar mercadorias. Parte desse aumento pode chegar ao consumidor ou reduzir a margem das empresas brasileiras. Assim, uma guerra regional pode transformar-se em inflação logística internacional. Energia é apenas uma parte do problema A vulnerabilidade não termina no petróleo. O gás natural possui importância significativa para diferentes processos industriais e para a produção de determinados fertilizantes nitrogenados. Além disso, derivados de petróleo aparecem em cadeias petroquímicas, transportes e inúmeras atividades econômicas. Consequentemente, um choque energético pode espalhar seus efeitos por vários setores. Se a energia fica mais cara, determinados fertilizantes também podem sofrer pressão. Se combustíveis e fretes aumentam, transportar produtos agrícolas se torna mais caro. Ao mesmo tempo, componentes industriais importados podem chegar ao país com custos maiores. Portanto, segurança energética, segurança industrial e segurança alimentar estão cada vez mais conectadas. O agronegócio brasileiro é poderoso, mas também possui vulnerabilidades O agronegócio representa uma das maiores vantagens competitivas brasileiras. O país conquistou posições importantes na produção e exportação de soja, milho, café, carnes, açúcar, celulose e diferentes produtos agrícolas. Além disso, o setor gera empregos, movimenta cadeias industriais e contribui significativamente para as exportações nacionais. Entretanto, existe um paradoxo. O Brasil possui enorme capacidade agrícola, mas depende fortemente do exterior para determinados insumos essenciais, sobretudo fertilizantes. Em períodos de estabilidade internacional, essa dependência pode ser tratada apenas como uma questão comercial. Contudo, durante guerras, sanções ou interrupções logísticas, ela adquire uma dimensão estratégica. Portanto, proteger o agronegócio também significa fortalecer determinadas capacidades industriais brasileiras. Agricultura e indústria não são adversárias Durante muito tempo, parte do debate econômico brasileiro colocou agricultura e indústria como setores concorrentes. Essa oposição é cada vez menos compatível com a realidade. Uma agricultura altamente produtiva depende de máquinas, fertilizantes, defensivos, sementes, biotecnologia, sensores, satélites, softwares, inteligência artificial, drones e sistemas avançados de logística. Consequentemente, quanto mais tecnológico se torna o campo, maior se torna sua relação com a indústria. O Brasil poderia utilizar justamente a escala de seu agronegócio para estimular novas cadeias industriais. Máquinas agrícolas autônomas, drones, fertilizantes, bioinsumos, equipamentos de precisão, sensores e softwares representam mercados nos quais agricultura, ciência e indústria podem avançar juntas. Portanto, fortalecer a indústria brasileira não significa enfraquecer o agronegócio. Pelo contrário, pode aumentar sua competitividade e reduzir vulnerabilidades externas. A indústria de base volta a ser uma questão estratégica Guerras prolongadas estão obrigando diversos países a reconsiderar a importância da capacidade produtiva doméstica. No Brasil, esse debate deveria incluir setores como química, petroquímica, siderurgia, máquinas e equipamentos, eletrônica, energia, fertilizantes e tecnologias de defesa. Entretanto, soberania industrial não significa produzir absolutamente tudo dentro do território nacional. Essa seria uma interpretação equivocada. Nenhuma grande economia contemporânea é completamente autossuficiente. Estados Unidos, China e países europeus também dependem de cadeias internacionais. A diferença está na capacidade de identificar quais dependências representam riscos estratégicos. O Brasil precisa decidir quais produtos deve produzir internamente, quais fornecedores precisa diversificar e em quais áreas deve manter capacidade tecnológica própria. Essa estratégia permite combinar integração internacional com segurança econômica. Eficiência não pode ser o único critério Durante décadas, empresas organizaram suas cadeias produtivas principalmente em busca do menor custo. Comprar determinado componente do fornecedor internacional mais barato parecia racional. Concentrar a produção em poucos países também poderia aumentar a eficiência. Entretanto, crises recentes demonstraram que uma cadeia extremamente eficiente pode ser igualmente frágil. Se um produto essencial depende de um único fornecedor, qualquer conflito pode interromper o abastecimento. Da mesma
O Eixo Teerã-Moscou: a consolidação de uma parceria estratégica que desafia a hegemonia do dólar

Defesa, tecnologia, sanções e moedas nacionais: como Irã e Rússia aprofundam sua cooperação e procuram construir mecanismos econômicos menos dependentes do sistema financeiro ocidental Por Rodrigo Pinheiro Durante décadas, Rússia e Irã mantiveram uma relação marcada por cooperação, desconfiança histórica e interesses circunstanciais. Entretanto, a pressão exercida por sanções ocidentais e as transformações geopolíticas dos últimos anos aproximaram Moscou e Teerã de maneira muito mais profunda. A guerra na Ucrânia acelerou esse movimento. Além disso, os confrontos envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos transformaram tecnologias militares iranianas em objeto de interesse estratégico internacional. Em janeiro de 2025, Rússia e Irã formalizaram um Tratado de Parceria Estratégica Abrangente com duração de 20 anos. O documento prevê cooperação em defesa, energia, comércio, infraestrutura financeira e utilização das moedas nacionais nas transações bilaterais. Portanto, o chamado Eixo Teerã-Moscou não deve ser interpretado somente como uma aliança militar. Existe uma dimensão econômica igualmente importante. Os dois países procuram reduzir sua exposição a sanções, ampliar mecanismos próprios de pagamento e diminuir a necessidade de utilizar infraestruturas financeiras controladas ou influenciadas pelo Ocidente. Contudo, é necessário fazer uma distinção fundamental. Rússia e Irã não estão próximos de provocar o “fim do dólar”. O que está acontecendo é diferente: países submetidos a sanções estão construindo circuitos comerciais paralelos, nos quais o dólar deixa de ser indispensável para determinadas operações. Essa diferença é essencial para compreender a transformação atual da economia mundial. De parceiros circunstanciais a parceiros estratégicos A aproximação entre Rússia e Irã não surgiu em 2022. Os dois países cooperaram anteriormente em diferentes questões regionais. Na Síria, por exemplo, Moscou e Teerã apoiaram o governo de Bashar al-Assad durante grande parte da guerra civil. Entretanto, a invasão russa da Ucrânia alterou a escala dessa relação. A Rússia passou a enfrentar sanções econômicas muito mais abrangentes. O Irã, por sua vez, já acumulava décadas de experiência operando sob restrições financeiras e comerciais impostas principalmente pelos Estados Unidos. Consequentemente, surgiu uma convergência. Moscou possuía recursos, indústria militar, energia e poder diplomático. Teerã possuía experiência em contornar isolamento econômico, tecnologias militares específicas e posição geográfica estratégica. Assim, as necessidades dos dois países começaram a se complementar. O tratado de 2025 consolidou essa aproximação A assinatura do Tratado de Parceria Estratégica Abrangente representou um marco. O acordo prevê cooperação militar e técnico-militar, exercícios conjuntos e coordenação diante de ameaças compartilhadas. Além disso, estabelece mecanismos para ampliar comércio, energia e investimentos. Entretanto, existe um detalhe importante. O tratado não estabelece uma cláusula automática de defesa mútua equivalente ao Artigo 5º da OTAN. Portanto, chamar Rússia e Irã simplesmente de aliados militares pode produzir uma interpretação exagerada. A relação é estratégica e militarmente relevante. Contudo, ela não equivale juridicamente a uma aliança de defesa coletiva tradicional. Essa nuance ficou evidente durante confrontos anteriores envolvendo Irã e Israel, quando Teerã demonstrou insatisfação com o nível de apoio efetivo oferecido por Moscou. O campo de batalha tornou-se também um laboratório tecnológico Existe outra dimensão dessa aproximação. Os conflitos contemporâneos transformaram drones, guerra eletrônica, mísseis, sensores e sistemas antiaéreos em elementos centrais da estratégia militar. Nesse cenário, o Irã desenvolveu uma capacidade particularmente relevante em drones de baixo custo. A família Shahed tornou-se internacionalmente conhecida durante a guerra na Ucrânia. Inicialmente, o Irã forneceu sistemas à Rússia. Posteriormente, Moscou desenvolveu capacidade própria de produção de drones derivados dessa arquitetura. Portanto, ocorreu algo maior do que uma simples compra de armamentos. Houve transferência, adaptação e industrialização tecnológica. Por que os drones iranianos interessaram à Rússia? O motivo está relacionado à economia da guerra. Um míssil de alta precisão pode custar valores extremamente elevados. Entretanto, um drone de ataque relativamente barato consegue obrigar o adversário a mobilizar radares, sistemas antiaéreos e interceptadores muito mais caros. Consequentemente, surge uma assimetria econômica. O atacante pode lançar grande quantidade de vetores baratos. O defensor precisa decidir quais ameaças interceptar. Além disso, ataques simultâneos podem tentar saturar sistemas defensivos. Portanto, quantidade também passa a representar uma forma de tecnologia militar. Irã, Israel e a aprendizagem operacional Os confrontos entre Irã e Israel adicionaram outra camada. Teerã empregou diferentes combinações de drones e mísseis em operações reais. Consequentemente, cada confronto produz dados. Quanto tempo determinado vetor demora para chegar ao alvo? Como radares inimigos respondem? Quais sistemas conseguem interceptá-lo? Quantos vetores precisam ser lançados simultaneamente? Além disso, quais componentes resistem melhor às contramedidas eletrônicas? Essas informações possuem enorme valor militar. Portanto, guerras modernas não apenas consomem tecnologia. Elas também produzem conhecimento tecnológico. Moscou também possui algo a oferecer A transferência não ocorre em apenas uma direção. A Rússia possui experiência avançada em defesa aérea, guerra eletrônica, mísseis, aviação e operações militares de larga escala. Além disso, anos de guerra na Ucrânia produziram enorme volume de experiência operacional. Consequentemente, uma parceria aprofundada pode permitir intercâmbio de conhecimentos em diferentes áreas. Nesse sentido, Teerã e Moscou formam um ecossistema de aprendizado militar. O Irã contribui com determinadas soluções assimétricas. A Rússia contribui com capacidades convencionais e industriais de outra escala. Portanto, a complementaridade militar ajuda a explicar a aproximação. Entretanto, a relação não é totalmente simétrica Apesar da convergência, Rússia e Irã possuem interesses próprios. Moscou mantém relações com países árabes. Também dialoga com Israel. Além disso, precisa equilibrar diferentes interesses no Cáucaso, na Ásia Central e no Oriente Médio. Teerã, por sua vez, busca preservar autonomia. Portanto, não existe submissão automática de um país ao outro. Essa característica diferencia uma parceria estratégica de uma aliança rígida. Em alguns temas, os interesses convergem profundamente. Em outros, surgem limites. O verdadeiro ponto de convergência: resistência às sanções Se existe uma experiência compartilhada entre Rússia e Irã, ela está na pressão econômica ocidental. O Irã convive com sanções há décadas. A Rússia passou a enfrentar um sistema muito mais amplo de restrições depois de 2022. Consequentemente, os dois países possuem forte incentivo para construir mecanismos financeiros que funcionem sem depender integralmente de instituições ocidentais. É justamente nesse ponto que a questão do dólar entra no debate. O dólar é mais do que uma moeda A
A Visão de Pequim: o “Cinturão e Rota” pode sobreviver a um conflito direto entre Irã e EUA?

Energia, Estreito de Hormuz, diplomacia e rotas alternativas: por que a estabilidade do Golfo Pérsico se tornou uma questão estratégica para a China Por Rodrigo Pinheiro Durante séculos, as antigas Rotas da Seda conectaram a China ao Oriente Médio, à Ásia Central e à Europa. Mercadorias circulavam, mas não apenas elas. Ideias, tecnologias, religiões e culturas também atravessavam esses corredores. No século XXI, Pequim retomou essa lógica em escala muito maior por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, conhecida internacionalmente como Belt and Road Initiative, ou BRI. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre construir infraestrutura e garantir que ela continue funcionando durante uma guerra. A escalada envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel em 2026 colocou essa questão no centro da estratégia chinesa. Para Pequim, o problema ultrapassa o destino político iraniano. Afinal, o Golfo Pérsico concentra energia, portos, investimentos e corredores marítimos essenciais para o funcionamento da economia asiática. Além disso, o Estreito de Hormuz permanece como uma das passagens energéticas mais importantes do planeta. Portanto, quando o Golfo entra em crise, a China enfrenta simultaneamente um problema energético, comercial, diplomático e estratégico. É justamente nesse cenário que surge a pergunta central: o Cinturão e Rota foi construído para um mundo suficientemente resiliente para sobreviver a uma ruptura prolongada entre Irã e Estados Unidos? A resposta é complexa. Por um lado, a China possui alternativas e capacidade crescente de adaptação. Por outro, nenhuma ferrovia, oleoduto ou corredor terrestre consegue substituir imediatamente a escala do comércio marítimo que atravessa o Golfo. Assim, compreender a visão de Pequim exige abandonar uma leitura exclusivamente militar da crise. Para a China, estabilidade também é infraestrutura. O conflito visto de Pequim A comunicação oficial chinesa apresenta uma posição relativamente consistente. Pequim defende cessar-fogo, diálogo político, respeito à soberania dos Estados e redução das hostilidades. Em março de 2026, o chanceler Wang Yi declarou que a prioridade chinesa diante da situação iraniana era interromper os combates e restaurar a paz. Posteriormente, a diplomacia chinesa intensificou contatos com Irã, países árabes, Rússia e outros atores envolvidos na crise. Além disso, a China adotou uma posição crítica às operações militares conduzidas pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã. Segundo o Ministério das Relações Exteriores chinês, Pequim considera que a solução deve ocorrer por negociação, e não pela ampliação do uso da força. Contudo, seria um erro interpretar essa postura apenas como solidariedade política ao Irã. Existe um cálculo geoeconômico muito maior. Para a China, uma guerra prolongada não produz vencedores econômicos A ascensão chinesa ocorreu dentro de uma economia internacional relativamente aberta ao comércio. Navios transportaram matérias-primas para fábricas chinesas. Posteriormente, produtos industrializados saíram dos portos asiáticos em direção a mercados globais. Além disso, petróleo e gás importados sustentaram parte significativa dessa industrialização. Consequentemente, Pequim possui interesse estrutural na estabilidade das rotas internacionais. Uma guerra prolongada no Golfo produz exatamente o contrário. Ela aumenta riscos. Eleva seguros. Pressiona petróleo e gás. Desorganiza cadeias logísticas. Além disso, ameaça investimentos construídos durante décadas. Portanto, a estabilidade defendida pela diplomacia chinesa não representa apenas um princípio abstrato. Ela possui valor econômico mensurável. O Golfo Pérsico é uma peça estratégica da economia chinesa A importância do Golfo para Pequim começa pela energia. China e países da região desenvolveram relações comerciais profundas. Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Catar e outros Estados possuem diferentes graus de importância para a estratégia energética e comercial chinesa. Ao mesmo tempo, empresas chinesas participam de projetos de infraestrutura, energia, telecomunicações e logística na região. Consequentemente, uma guerra regional ampla produziria impactos sobre diversos interesses chineses simultaneamente. Não se trata somente de comprar petróleo. Trata-se também de proteger fluxos comerciais e investimentos. Hormuz é o ponto mais vulnerável dessa arquitetura O Estreito de Hormuz transforma geografia em poder. Grande volume de petróleo e gás produzido no Golfo precisa atravessar essa passagem antes de chegar aos mercados asiáticos. Portanto, sua segurança interessa profundamente à China. Em abril de 2026, Wang Yi afirmou que os direitos legítimos do Irã como país costeiro do estreito deveriam ser respeitados. Entretanto, acrescentou que a liberdade e a segurança da navegação internacional também precisavam ser garantidas. Essa formulação revela um equilíbrio importante da diplomacia chinesa. Pequim procura preservar sua relação estratégica com Teerã. Contudo, não deseja que essa relação comprometa a circulação marítima. Assim, a China tenta defender simultaneamente soberania iraniana e liberdade de navegação. A contradição chinesa: apoiar o Irã sem perder o Golfo Essa talvez seja uma das questões mais delicadas para Pequim. China e Irã mantêm uma parceria estratégica abrangente. Entretanto, a China também possui relações extremamente importantes com Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e outros países árabes. Consequentemente, Pequim não pode estruturar sua política regional simplesmente escolhendo um lado. A lógica chinesa precisa ser diferente. Em vez de formar uma aliança regional contra outra, Pequim procura manter relações simultâneas com atores rivais. Essa estratégia ficou evidente antes mesmo da escalada de 2026. Em 2023, a China participou da mediação que contribuiu para a retomada das relações diplomáticas entre Irã e Arábia Saudita. Portanto, existe uma ambição diplomática maior. Pequim pretende demonstrar que consegue dialogar com adversários simultaneamente. A “terceira via” diplomática chinesa É nesse contexto que surge aquilo que podemos chamar de terceira via chinesa. Os Estados Unidos construíram sua presença no Oriente Médio por meio de uma combinação de alianças militares, bases, sanções, diplomacia e poder econômico. A China procura apresentar outro modelo. Seu discurso privilegia: comércio, infraestrutura, desenvolvimento, não intervenção e negociação. Evidentemente, interesses estratégicos continuam existindo. Entretanto, a comunicação política é diferente. Pequim busca apresentar-se como parceiro econômico capaz de conversar com Irã, Arábia Saudita, Emirados, Catar e Israel sem exigir que esses países ingressem em uma estrutura regional comandada pela China. Portanto, o objetivo não é necessariamente substituir todas as alianças existentes. É tornar Pequim indispensável para todos os lados. Xi Jinping e a diplomacia de mediação Em 2026, essa estratégia ganhou um novo teste. Segundo o Ministério das Relações Exteriores chinês, Xi Jinping apresentou quatro proposições voltadas à promoção da paz
